A economia do futuro já se faz presente, e o protagonismo feminino emerge do invisível

Por ocasião do mês de março, muito se fala sobre mulheres na economia. Quase sempre no mesmo tom: desigualdade, inclusão, oportunidades. Tudo importante. Mas insuficiente para explicar o que está realmente acontecendo em 2026. A verdade é que mulheres não estão apenas “entrando” na economia.

Elas estão criando novos mercados, novas lógicas de valor e novas fronteiras de inovação, enquanto boa parte das empresas, investidores e formuladores de política ainda olha para o tema como pauta social, e não como estratégia econômica. Esse descompasso tem custo. E é alto.

Durante décadas, o trabalho de cuidado foi tratado como algo periférico, quase invisível nas métricas econômicas. Hoje, começa a ficar claro que creches, políticas de parentalidade, jornadas flexíveis e suporte ao cuidado não são “benefícios”, mas infraestrutura produtiva. Onde essas políticas funcionam, a produtividade sobe, a rotatividade cai e o acesso de mulheres a setores de maior valor agregado se amplia. Ainda assim, insistimos em chamar isso de “gasto social”, quando é investimento econômico com retorno mensurável.

Na economia digital, o fenômeno é ainda mais evidente. Cresce uma elite feminina que constrói renda relevante fora das estruturas corporativas tradicionais. São mulheres que criam mercados próprios, monetizando conhecimento, comunidade, reputação e redes. Elas não disputam espaço em organogramas. Elas constroem ecossistemas. O problema é que nossos indicadores de sucesso econômico continuam presos a modelos do século passado, incapazes de captar essa riqueza em formação. Mas, talvez o exemplo mais contundente de como mulheres estão literalmente criando a economia do futuro venha da ciência.

A pesquisadora brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, lidera uma linha de pesquisa que rompe um dos maiores dogmas da medicina: a ideia de que lesões graves na medula espinhal, como a tetraplegia, são irreversíveis. Sua equipe desenvolveu uma abordagem experimental com potencial de estimular a regeneração de conexões neurais, algo que até pouco tempo atrás parecia ficção científica.

Não se trata apenas de um avanço médico. Trata-se da abertura de um novo mercado de alto valor em biotecnologia regenerativa, com impacto direto sobre sistemas de saúde, custos de longo prazo, reabilitação, indústria farmacêutica, startups deep tech e investimentos em pesquisa. Uma mulher brasileira está ajudando a desenhar um setor econômico que, em poucos anos, pode movimentar bilhões. Ainda assim, seguimos tratando “mulheres na ciência” como exceção inspiradora, quando deveríamos enxergar ali uma estratégia de desenvolvimento.

O ponto central é este: O debate público ainda trata o protagonismo feminino como questão de justiça (o que é correto), mas falha em reconhecê-lo como questão de eficiência econômica, inovação e competitividade.

Empresas que não enxergam as mulheres como criadoras de mercados vão continuar lançando produtos que não conversam com metade da população. Governos que não entendem o cuidado como infraestrutura continuarão perdendo produtividade. Investidores que não olham para a ciência liderada por mulheres continuarão chegando atrasados em setores estratégicos.

A economia do futuro já se faz presente, e o protagonismo feminino emerge do invisívelQue março não seja apenas um mês de homenagens. Que seja um mês de atualizar o radar econômico. Porque as bases da próxima economia estão sendo construídas agora e as mulheres estão deixando sua marca nos pilares intelectuais.

***

Patrícia Barragán
Economista e conselheira do Corecon-ES

Coluna de Economia
Coluna de Economia
O que impacta a economia do Espírito Santo e dos capixabas tem um espaço exclusivo em ES Hoje. Por meio de artigos de especialistas a coluna - em parceria com Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES) - visa oferece aos leitores uma análise clara, contextualizada e acessível das dinâmicas econômicas nacionais e internacionais, mostrando como decisões, eventos e tendências globais impactam direta e indiretamente o Espírito Santo. O estado aponta grande crescimento na indústria, comércio, serviços, agro, logística e transporte, portos, petróleo e gás. Em parceria com o Conselho de Economia do Estado, as análises alertam e atualizam o mercado.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas