Um animal encontrado sozinho na rua pode ter fugido de casa, estar perdido há dias ou ter sido abandonado. À primeira vista, essas situações podem parecer semelhantes, mas existe uma diferença importante entre elas: a possibilidade de identificar quem é o responsável por aquela vida.
Essa dificuldade faz parte da realidade de muitos resgates. Cães e gatos chegam a atendimentos veterinários sem identificação, sem histórico de saúde e, muitas vezes, sem qualquer informação sobre sua origem. Quando não é possível localizar o tutor, o animal acaba dependendo da mobilização de terceiros para receber os cuidados necessários.
É nesse cenário que a microchipagem se apresenta como uma importante ferramenta de proteção animal.
O procedimento consiste na implantação de um microchip sob a pele do animal, geralmente na região entre as escápulas, próximo à nuca. O dispositivo contém um código numérico único, que pode ser lido por um equipamento específico e associado aos dados do animal e de seu tutor em um sistema de cadastro. É importante esclarecer que o microchip não possui GPS e não permite rastrear a localização do animal em tempo real. Sua finalidade é possibilitar a identificação.
Na prática, essa tecnologia pode fazer diferença em situações cotidianas. Um cachorro que foge durante um passeio, um gato que desaparece de casa ou um animal encontrado após um atropelamento podem ter sua origem identificada com mais facilidade quando possuem microchip e cadastro atualizado.
Essa medida também é uma prioridade nos resgates realizados pelo nosso mandato. Todos os animais encaminhados para tratamento recebem microchip de identificação. Entendemos que o atendimento veterinário deve estar acompanhado de medidas que permitam registrar e acompanhar cada animal, contribuindo para a continuidade dos cuidados.
A identificação também pode auxiliar na responsabilização. Embora o microchip, isoladamente, não comprove abandono ou maus-tratos, ele pode fornecer informações relevantes para identificar o responsável e auxiliar na apuração dos fatos.
O Brasil já conta com uma iniciativa nacional nesse sentido. A Lei nº 15.046/2024 autorizou a criação do Cadastro Nacional de Animais Domésticos, regulamentado pelo Decreto nº 12.439/2025. Por meio do SinPatinhas, cães e gatos podem ser cadastrados gratuitamente, com informações sobre os animais e seus responsáveis, além da emissão do Registro Geral do Animal (RG Animal).
Entretanto, para que essas ferramentas cumpram seu papel, é necessário ampliar o acesso à microchipagem e integrar a identificação aos programas públicos de castração, atendimento veterinário e adoção.
Esse compromisso também começa dentro de casa. Tutores devem procurar clínicas veterinárias e serviços municipais para conhecer as possibilidades de identificação e manter os dados de seus animais atualizados. Ao poder público, cabe ampliar a oferta do procedimento e incorporá-lo às políticas permanentes de proteção animal.
Identificar um animal é facilitar seu retorno para casa, contribuir para sua segurança e fortalecer os mecanismos de responsabilização.
Se você tem um cão ou gato, procure saber como identificá-lo por meio da microchipagem. Se atua na proteção animal, incentive essa prática. E se é gestor público, inclua a identificação no planejamento das políticas de bem-estar animal.
Porque proteger também é prevenir. E nenhuma vida deveria ficar sem identificação por falta de acesso à informação e aos cuidados necessários.
Dr. Victor Linhalis









