Quem matou Wladimir Herzog?

O intelectual que entrou voluntariamente para prestar depoimento e nunca mais saiu. Assim começa — e não deveria nunca terminar — a história de Wladimir Herzog, jornalista, professor, dramaturgo e então diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo. Sua trajetória era marcada pelo compromisso com a informação, com o pensamento crítico e com a mediação pública do conhecimento. Herzog acreditava, como tantos intelectuais de sua geração, na força do debate, da imprensa e da cultura como instrumentos de transformação social. Entrou pela porta da frente do DOI-CODI, convocado a depor. Nunca mais voltou.

Passados 62 anos do Golpe de 1964, o Brasil ainda caminha entre a memória incompleta e o esquecimento conveniente. A morte de Herzog, ocorrida em 1975, tornou-se um dos episódios mais emblemáticos da violência de Estado no período, não apenas pela brutalidade que a marcou, mas pela tentativa grotesca de encobri-la. O regime divulgou a versão de suicídio — sustentada por uma fotografia encenada, tecnicamente inconsistente e moralmente obscena. Era a mentira como política de Estado, sustentada pela expectativa de que a sociedade aceitasse, resignada, o absurdo.

Não aceitou.

Com o passar das décadas, investigações oficiais desmontaram a farsa. Laudos periciais reavaliados, decisões judiciais e, sobretudo, o trabalho da Comissão Nacional da Verdade foram contundentes: Herzog foi morto sob custódia do Estado brasileiro. Sua morte não foi um desvio, tampouco um excesso isolado, mas parte de uma engrenagem repressiva sistemática, organizada e legitimada institucionalmente.

Mas há algo ainda mais perturbador quando revisitamos esse caso hoje: mesmo após décadas, o acesso pleno à verdade permaneceu fragmentado, dificultado, retardado. Documentos foram ocultados, arquivos permaneceram incompletos, e o próprio espaço físico do crime foi sucessivamente descaracterizado por reformas, camadas de tinta, alterações arquitetônicas e usos institucionais que contribuíram para apagar vestígios.

Somente recentemente, mais de cinquenta anos após o assassinato, pesquisadores conseguiram identificar com precisão o ambiente onde a farsa foi montada. Um estudo conduzido por especialistas, com base no cruzamento entre fotografias históricas, depoimentos e análise estrutural do edifício do DOI-CODI, localizou a sala exata em que o corpo de Herzog foi colocado para sustentar a versão oficial de suicídio.

A descoberta não foi simples. O espaço havia sido profundamente alterado ao longo das décadas, com elementos originais encobertos por intervenções posteriores. Foi necessário recorrer a técnicas de prospecção física — identificar paredes ocultas, estruturas modificadas, vestígios preservados sob pisos e revestimentos — para reconstituir o cenário.

O que se revelou, então, não foi apenas um lugar, mas uma evidência material do esforço sistemático de ocultação. A sala não era apenas o espaço da morte — era o espaço da mentira construída.

E isso reabre, com ainda mais força, a pergunta:

Quem matou Wladimir Herzog?Quem matou Wladimir Herzog?

Foram os agentes que o interrogaram até a morte. Foram os oficiais que autorizaram os métodos. Foram os dirigentes que sustentaram a máquina repressiva. Foi o Estado que produziu a mentira e tentou impô-la como verdade. Tudo isso é factual, documentado, comprovado.

E, ainda assim, insuficiente.

O Golpe de 1964 não emergiu do nada. Foi apoiado, em diferentes graus, por parcelas expressivas da sociedade civil — empresários, setores da imprensa, lideranças religiosas e uma classe média que, temerosa das transformações sociais em curso, aderiu ao discurso da ordem e da estabilidade. A promessa de controle e segurança, mesmo que à custa da liberdade, encontrou eco.

Aqui reside um dos pontos mais delicados — e menos enfrentados — da história brasileira: a adesão não foi apenas fruto de coerção, mas também de convicção. Em nome do combate a um inimigo difuso, construiu-se um consenso que autorizava, ainda que implicitamente, a suspensão de direitos fundamentais. A exceção foi naturalizada como método de governo.

Em 1975, quando Herzog foi morto, já não havia inocência possível. A repressão era conhecida, os relatos de violência circulavam, os desaparecimentos se acumulavam. Ainda assim, muitos escolheram não ver. Outros preferiram acreditar nas versões oficiais. Houve também aqueles que, mesmo desconfiando, silenciaram.

O silêncio, nesse contexto, não é ausência — é posição.

E talvez seja precisamente nesse ponto que a morte de Herzog se torna ainda mais perturbadora. Porque ela não revela apenas o funcionamento de um aparato repressivo, mas também a existência de uma cultura política capaz de conviver com ele. Uma cultura que, em determinados momentos, aceita a violência como instrumento legítimo, desde que direcionada ao “outro”, ao dissidente, ao inconveniente.

O assassinato de Herzog, portanto, escancara não apenas a violência do regime, mas as zonas de acomodação que o sustentaram. Ele nos obriga a encarar a desconfortável hipótese de que regimes autoritários não se mantêm apenas pela força, mas também pela tolerância — às vezes ativa, às vezes passiva — de setores da sociedade.

É verdade que sua morte produziu uma ruptura. O ato ecumênico na Catedral da Sé, reunindo milhares de pessoas, tornou-se um marco na erosão do regime. Ali, a sociedade civil começou a romper o pacto tácito de silêncio. Mas o fato de que esse pacto tenha existido, ainda que temporariamente, precisa ser lembrado.

Mais do que isso: é preciso compreender que essa ruptura não foi espontânea nem imediata. Ela foi construída a partir do acúmulo de indignações, de pequenas resistências, de fissuras no discurso oficial. Herzog não foi o primeiro, nem infelizmente seria o último. Mas sua morte operou como catalisador — não apenas de denúncia, mas de consciência.

Hoje, ao olharmos para o Brasil, a pergunta ressoa com inquietante atualidade.

Vivemos em uma sociedade que, em grande medida, ainda se estrutura sobre valores conservadores, frequentemente mobilizados para justificar práticas excludentes, autoritárias e violentas. Discursos que relativizam direitos, que defendem a força como solução e que deslegitimam o dissenso voltam a ocupar espaço. A retórica da ordem — a mesma que embalou o golpe — reaparece, reciclada, mas reconhecível.

E há um agravante: a fragilidade da memória.

Quando arquivos são incompletos, quando documentos desaparecem, quando espaços são reformados até se tornarem irreconhecíveis, não se trata apenas de descuido — trata-se de política. A dificuldade de acessar plenamente o passado não é neutra. Ela impede a elaboração coletiva da história e abre espaço para o negacionismo.

A recente identificação da sala onde a morte foi encenada não é apenas uma descoberta histórica. É uma denúncia tardia de quanto ainda foi escondido — e de quanto ainda pode estar por revelar.

E é nesse ponto que a história deixa de ser passado.

Quem matou Wladimir Herzog?

Se a resposta se limitar aos agentes da repressão, ela será correta, mas incompleta. Herzog foi morto pela ditadura. Mas a ditadura só foi possível porque encontrou, em algum nível, sustentação social — seja pelo apoio direto, seja pelo silêncio cúmplice.

Não se trata de distribuir culpas de forma indiscriminada, mas de reconhecer que a história não é feita apenas por aqueles que agem, mas também por aqueles que permitem. Trata-se de compreender que a omissão, em determinados contextos, deixa de ser neutralidade e passa a ser participação.

A memória de Herzog — jornalista que acreditava na palavra, intelectual que confiava no diálogo e cidadão que se apresentou espontaneamente ao Estado — exige mais do que reconhecimento póstumo. Exige responsabilidade histórica.

Exige, sobretudo, vigilância.

Porque regimes autoritários não retornam necessariamente com tanques nas ruas. Muitas vezes, insinuam-se no cotidiano, normalizam-se nos discursos, legitimam-se na repetição de ideias que, pouco a pouco, corroem as bases democráticas. O perigo não está apenas na ruptura abrupta, mas na erosão silenciosa.

E é por isso que lembrar Herzog não é apenas um ato de homenagem. É um gesto político.

Porque, no fim, a pergunta que permanece não é apenas quem o matou.

É quem, diante de novas formas de autoritarismo, está disposto a não se calar.

“… Chora

A nossa Pátria mãe gentil

Choram Marias e Clarices

No solo do Brasil..”

Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador Pesquisador Leena/UFES Mestre e Doutorando em Artes/UFES

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