Legado jesuítico e identidade capixaba

A constituição de um roteiro jesuítico avança entre nós, reconstruindo os passos dos religiosos da Companhia de Jesus nas terras capixabas entre os séculos XVI e XVIII. O mais novo ponto de visitação é o Centro de Interpretação Fazenda de Araçatiba, em Viana, aberto a partir de maio próximo.

Por iniciativa do Instituto Modus Vivendi, liderado por Erika Kunkel Varejão, estão sendo entregues a restauração da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda e demais equipamentos de promoção da memória e de integração comunitária no entorno da belíssima construção.

Durante as centenas de anos da presença da Companhia de Jesus no Espírito Santo, os jesuítas foram os maiores proprietários de terras na capitania, sendo a Fazenda de Araçatiba a maior de todas as suas diversas propriedades, com cerca de dois mil alqueires, indo da primeira cachoeira do Rio Jucu, no interior, até o litoral, hoje município de Vila Velha.

Na produção de Araçatiba, derivada de prática agropecuária intensiva e que ia do plantio ao escoamento de mercadorias, destacavam-se açúcar, aguardente e farinha de mandioca. Esses produtos abasteciam o comércio local, com excedentes vendidos às demais capitanias e, também, à Metrópole.

Por via fluvial, terrestre e marítima, a produção de Araçatiba chegava a Vitória, onde os jesuítas tinham um porto privativo, o Porto dos Padres. Tratava-se de um complexo logístico sofisticado à época, que incluía um canal idealizado pelos religiosos, na primeira metade do século XVIII, conectando os rios Jucu e Marinho.

Essa obra, executada por indígenas e considerada pioneira no Brasil na engenharia de transposição de águas entre bacias hidrográficas, consolidou um canal de cerca de 12 quilômetros, que permitia a navegação direta entre os domínios da Fazenda de Araçatiba e a Baía de Vitória, evitando-se o transporte de cabotagem a partir da foz do Rio Jucu.

Os primeiros passos de reavivamento do legado jesuítico no Estado foram dados com a restauração do Palácio Anchieta, originalmente igreja, residência e colégio jesuíta, realizada entre 2004 e 2009. Com essa obra, pioneira em relação a conjunto arquitetônico, abrimos o caminho para outras realizações de destaque nacional, revitalizando lugares de memória decisivos para a formação do Espírito Santo nos séculos iniciais da ocupação portuguesa.

Nesse sentido, em 2021, em Anchieta, foi entregue o Centro de Interpretação São José de Anchieta, juntamente com a restauração de todo o Santuário Nacional, construído a partir de 1579, por iniciativa do “Apóstolo do Brasil”, na antiga Vila de Reritiba, lugar onde o santo também viveu e faleceu, em 1597.

Três anos depois, o Instituto Modus Vivendi entregou a restauração da igreja e da residência de Nova Almeida, na Serra, que, após as obras, passou a constituir o Centro de Interpretação da Aldeia de Reis Magos.

Também aberto à visitação pública, o edifício abriga relíquias, como um quadro considerado a pintura a óleo sobrevivente entre as primeiras feitas na América Portuguesa, “Adoração dos Reis Magos”, de autoria do irmão jesuíta Belchior Paulo, datada de 1598. O aldeamento, no contexto da colonização portuguesa, foi oficialmente autorizado por São José de Anchieta em 1585, quando era superior da Companhia de Jesus no Brasil.

Seguindo os lemas dos inacianos, que “partiam para nunca mais voltar”, com vistas a “construir uma obra que durasse enquanto o mundo durasse”, “para a maior glória de Deus”, com idas e vindas o marco jesuítico persiste entre nós. Visionários e empreendedores na condução de sua missão, os religiosos viabilizaram gigantescas realizações nas terras capixabas ao longo de dois séculos de inquestionável protagonismo por aqui.

Segundo Basílio Daemon, o dia era 7 de dezembro de 1759 e eram 19 os jesuítas aprisionados no Estado, cumprindo-se a ordem do rei de Portugal D. José I, sombreado pelo Marquês de Pombal, para expulsão dos “soldados de Cristo” do reino e de suas possessões, assim como o sequestro geral de todos os bens da Companhia de Jesus. Foram-se os poucos e engenhosos religiosos, restaram os vestígios da vasta obra.

O restauro e a revitalização dos conjuntos arquitetônicos estabelecidos pela Companhia de Jesus constituem uma ímpar oportunidade para conhecermos o que fomos, pensarmos o que somos e projetar o que desejamos ser como capixabas, com nossos desafios, dilemas e potenciais.

Numa comparação básica e rápida entre passado e presente, a considerar o reduzido contingente jesuítico que operava tão exitosamente a engrenagem socioeconômica e cultural à época, nota-se especialmente a diferença de capacidade de visão, planejamento e ação de lideranças de ontem e de hoje entre nós.

Desse modo, ao contarmos com mais um legado jesuítico apto à nossa vivência e reflexão, vale recordar Paul Valéry, com sua fundamental observação: talvez “a história não dê muita margem à previsão, mas, associada à independência do espírito, ela pode nos ajudar a ver melhor”.

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Legado jesuítico e identidade capixabaPaulo Hartung
Economista
Presidente-executivo da Ibá
Membro do Conselho Consultivo do RenovaBR
Ex-governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018)

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