Há algo profundamente adoecido em uma sociedade que transforma sofrimento em espetáculo.
Quando casos de crueldade contra animais vêm à tona, a indignação coletiva costuma durar poucos dias. Foi assim no brutal caso do cão Orelha, que chocou o país. E voltou a acontecer nesta quinta-feira (28), com a prisão de uma empresária acusada de torturar, matar animais e comercializar vídeos das agressões na internet.
As redes sociais se revoltam, os vídeos circulam, discursos aparecem. Depois, o assunto esfria. Mas, para quem atua diariamente na proteção animal, a violência nunca desaparece. Ela continua acontecendo atrás de muros, dentro de casas, em terrenos abandonados e, agora, também diante da tela de um celular.
O mais grave não é apenas a violência. É a banalização dela.
Existe hoje uma indústria silenciosa alimentada pela perversidade, pela omissão e pela sensação de impunidade. Pessoas lucram com a dor. Monetizam sofrimento. Transformam vidas indefesas em conteúdo.
E isso exige mais do que indignação momentânea. Exige fiscalização, punição e coragem política.
Formado em Direito e com trajetória ligada à medicina veterinária, acompanhei de perto inúmeros casos de abandono, maus-tratos e negligência. Como deputado federal, transformei essa vivência em compromisso legislativo.
Na Câmara dos Deputados, atuei como relator do PL 46/2021, ao qual foi apensado o PL 1.432/2021, projetos que obrigam fabricantes de produtos pet, clínicas veterinárias e estabelecimentos do setor a divulgarem informações sobre maus-tratos e canais oficiais de denúncia.
Pode parecer simples, mas não é. Informação salva vidas. Denúncia salva vidas. Muitas pessoas ainda não sabem identificar um crime ou sequer conhecem os mecanismos legais para denunciar.
Também relatei o PL 2519/2023, que institui o Abril Laranja como mês nacional de conscientização e prevenção da crueldade contra animais, fortalecendo campanhas educativas e ampliando o debate sobre tutela responsável e proteção animal.
Mas o enfrentamento precisa ir além da conscientização.
É necessário endurecer penas para crimes de maus-tratos, fortalecer delegacias especializadas, ampliar estruturas de resgate e garantir que municípios tenham suporte para executar políticas públicas permanentes de proteção animal.
O Brasil avançou nos últimos anos, mas ainda avança lentamente diante da brutalidade dos casos que surgem diariamente.
Por isso, seguimos defendendo essa pauta e ouvindo quem está na linha de frente da causa animal. Em nosso site, a população encontra um canal permanente de Ouvidoria para denúncias de maus-tratos, com acesso também pelo link disponível no Instagram.
A causa animal não pode continuar sendo tratada como pauta secundária ou meramente emocional. Ela é tema de saúde pública, segurança, educação e responsabilidade social.
Quem agride um animal demonstra uma ruptura moral. E a própria ciência já mostrou a relação entre violência contra animais e violência contra pessoas.
Ignorar isso é fechar os olhos para um problema social muito maior.
Defender os animais não é “humanizar bichos”. É impedir que a crueldade se normalize.
Porque uma sociedade que se acostuma com a dor de um ser indefeso começa, aos poucos, a perder a própria humanidade.









