A sete meses da eleição, para que serve a pesquisa eleitoral? O que ela mede? Quem ganha com isso?

Toda eleição tem um momento em que as primeiras pesquisas começam a aparecer. E quase sempre elas são interpretadas como se a eleição já estivesse decidida.

A divulgação da primeira pesquisa eleitoral para o governo do Espírito Santo em 2026 abriu oficialmente essa temporada no estado. Outras devem surgir nas próximas semanas e, como sempre acontece, os números começam a produzir interpretações rápidas, leituras apressadas e até tentativas de construir favoritos muito antes de a disputa realmente começar.

Ao longo de muitos anos trabalhando diretamente com pesquisas eleitorais — primeiro na Rede Gazeta, acompanhando a contratação e a divulgação desses levantamentos, e depois na Rede Globo, participando da seleção de institutos para diferentes afiliadas — tive a oportunidade de observar de perto como esses números são produzidos, como são interpretados e, muitas vezes, como acabam sendo mal compreendidos no debate público.

Por isso vale um esclarecimento importante: este não é um artigo de análise eleitoral nem de avaliação de candidaturas. É um artigo sobre comunicação e marketing político. A ideia aqui não é discutir quem está melhor ou pior posicionado na disputa, mas entender o que as pesquisas realmente medem neste momento e qual papel elas cumprem na dinâmica política quando a eleição ainda está distante.

Essa experiência ajuda a colocar duas perguntas importantes no centro da discussão: o que exatamente uma pesquisa mede quando ainda faltam cerca de sete meses para a eleição? E qual a sua importância?

Pesquisas feitas com tanta antecedência não medem voto consolidado. Elas medem presença pública. Medem lembrança. Medem visibilidade política.

É o chamado recall eleitoral.

Antes da campanha começar, o eleitor tende a mencionar os nomes mais presentes no noticiário, nas redes sociais ou na agenda pública. Isso não significa preferência eleitoral definitiva. Significa, antes de tudo, familiaridade.

Nesse momento, a pesquisa mede muito mais quem está na memória do eleitor do que quem está decidido no voto.

Existe também uma diferença importante entre dois tipos de pergunta nas pesquisas: a espontânea e a estimulada.

Na pesquisa espontânea, o entrevistador pergunta em quem o eleitor votaria sem apresentar qualquer lista de nomes. O entrevistado responde apenas com aquilo que está realmente presente na sua memória política.

Por isso, a espontânea costuma revelar aquilo que já está mais consolidado no eleitorado: vínculos políticos antigos, relações pessoais, reconhecimento acumulado ou gratidão por gestões passadas.

Já a pesquisa estimulada apresenta ao eleitor uma lista de possíveis candidatos. Nesse momento, o que aparece com mais força é justamente o recall de mídia e de presença pública. Ela mostra quem está mais visível no debate político, mas não necessariamente quem já tem voto consolidado.

Por isso, quando se olha uma pesquisa com vários meses de antecedência, a estimulada muitas vezes indica quem está mais presente no noticiário, enquanto a espontânea revela que a eleição ainda está longe de estar definida.

Nesse estágio do processo eleitoral, políticos com maior exposição pública tendem naturalmente a aparecer melhor posicionados. Governadores, prefeitos de capitais e lideranças com grande presença na mídia costumam ter níveis mais altos de lembrança.

No caso do Espírito Santo, por exemplo, o prefeito Lorenzo Pazolini ocupa uma posição institucional de grande visibilidade política. Vitória concentra parte importante da cobertura jornalística do estado e a agenda do Executivo municipal repercute com frequência no ambiente político.

Mas essa visibilidade não decorre apenas do peso institucional da capital. A Prefeitura de Vitória também demonstra grande capacidade de produzir agenda pública. Obras, programas, anúncios administrativos e ações de governo geram pautas frequentes e, em sua maioria, pautas positivas, que acabam ampliando a presença do prefeito no noticiário.

Esse volume constante de agenda e a predominância de temas positivos ajudam a explicar a forte presença do prefeito no ambiente de mídia e, consequentemente, seu nível de lembrança nas pesquisas. Mas a visibilidade não se constrói apenas pela mídia.

Visitas a municípios, acompanhamento de obras, participação em projetos e articulações regionais também ajudam a manter determinados nomes em circulação no ambiente público — mesmo quando a exposição midiática é menor.

É o caso do vice-governador Ricardo Ferraço.

Seja como secretário de Desenvolvimento ou como vice-governador, sua exposição na mídia tradicional sempre foi muito menor quando comparada, por exemplo, à do prefeito Pazolini. Nos últimos meses, porém, sua atuação tem sido marcada por uma agenda intensa de compromissos institucionais e presença frequente em municípios do interior.

Essa presença territorial, associada à estrutura administrativa do governo e à liderança política do governador Renato Casagrande, ajuda a manter seu nome em circulação no ambiente político estadual.

O calendário eleitoral também tende a alterar os níveis de visibilidade política nos próximos meses.

Com a renúncia do governador para disputar o Senado, Ricardo Ferraço assumirá o governo, passando a ocupar naturalmente uma posição institucional de maior exposição pública. Ao mesmo tempo, uma eventual candidatura do prefeito de Vitória ao governo implicaria sua saída do comando da capital, reduzindo a visibilidade institucional que hoje acompanha o cargo.

Essa mudança não representa vantagem automática para nenhum dos lados. Mas altera o nível de visibilidade dos atores políticos e, consequentemente, o ambiente em que as próximas pesquisas serão realizadas.

Mas é importante observar também o papel das redes sociais nesse momento.

Embora tenham grande presença no debate político, as redes funcionam, em grande medida, dentro de bolhas de audiência. O algoritmo tende a entregar conteúdo principalmente para quem já acompanha determinado candidato ou compartilha posições semelhantes.

Na prática, isso significa que muitas vezes o político está falando para quem já está convencido. A mensagem circula dentro da própria base, reforça militância e mobiliza apoiadores, mas raramente amplia de forma significativa o alcance para novos eleitores.

Neste estágio da disputa, a visibilidade fora da bolha continua sendo fortemente influenciada pela mídia tradicional e pela presença institucional no território.

Em política, aparecer na mídia ajuda — mas aparecer nas cidades também constrói presença política.

Outro fator que ajuda a explicar alguns resultados das pesquisas é aquilo que se pode chamar de memória política viva.

A política também é feita de trajetória, reconhecimento acumulado e lembrança histórica do eleitor. É isso que explica, por exemplo, o fato de o ex-governador Paulo Hartung performar em alguns cenários testados.

Não se trata necessariamente de uma candidatura colocada neste momento, mas do peso de uma trajetória política que permanece presente na memória de parte do eleitorado.

Governos passam. Mas a memória política muitas vezes permanece.

Mas se essas pesquisas ainda não apontam o resultado da eleição, para que elas servem agora?

A resposta é simples: servem para a própria política.

Pesquisas antecipadas ajudam a orientar conversas entre partidos, medir potencial de candidaturas, estimular apoios e influenciar a formação de alianças. Também alimentam narrativas, movimentam o debate público e fornecem munição para militantes e cabos eleitorais.

Quem aparece melhor colocado ganha espaço político, fortalece negociações e passa a ser tratado como ativo relevante na formação das chapas.

Para o eleitor comum, porém, o impacto é limitado. A eleição simplesmente ainda não entrou no cotidiano da maioria das pessoas.

Neste momento, as pesquisas ajudam a organizar o tabuleiro político. Mas dizem muito pouco sobre o voto.

Álvaro Moura
Publicitário
Diretor da Premium
Foi diretor da TV Globo, Globo.com e Rede Gazeta

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