O homem cordial! Uma paráfrase a Sérgio Buarque de Holanda

Na repartição, a fila serpenteava pelo corredor como se tivesse vida própria. Gente com senha na mão, documento dobrado, paciência pela metade. No painel eletrônico, o número 124. Na mão da senhora à minha frente, o 162. E, mesmo assim, ela sorriu quando viu chegar um homem de camisa social azul.

— Ô, meu filho, chegou! — exclamou o servidor atrás do balcão, abrindo o portão lateral.
O rapaz entrou por ali, sem senha, sem fila, abraços largos, tapinhas nas costas. Em poucos minutos saiu com a demanda resolvida, carimbo no papel e cara de alívio. A fila, que tudo viu, fingiu não ver.

Não houve revolta. Apenas aquele silêncio pesado, com gosto de coisa errada que já virou rotina. No Brasil, o absurdo costuma vir disfarçado de gentileza.

Sérgio Buarque de Holanda chamou de “homem cordial” essa figura tão nossa. Não o cordial educado, mas o que decide tudo a partir dos laços pessoais. O que confunde Estado com sala de estar, cargo público com prolongamento da família. E é aí que a moral se despenca ladeira abaixo, sorrindo.

No cotidiano, isso começa pequeno: o uso do carro oficial “rapidinho” para resolver um compromisso particular; a impressão de trabalho da faculdade na impressora do órgão; o “jeitinho” para furar a fila do hospital porque “eu conheço alguém lá dentro”. Coisas que se contam em tom de graça no almoço de domingo, como se fossem esperteza inofensiva.

Mas cada pequeno abuso é um tijolo a menos na casa da ética.
Quando o público se torna extensão do privado, o patrimônio de todos se transforma em estoque de favores a distribuir. Surgem as ilhas de privilégio num mar de carência: quem tem padrinho navega; quem não tem, se afoga na burocracia.

No trabalho, a linha que separa moral e conveniência vai ficando borrada. É o chefe que aponta o nome de um amigo para um contrato, “porque é de confiança”. É o coleguinha sumido no meio do expediente para resolver assuntos pessoais, certo de que “ninguém fiscaliza mesmo”. Quisera fosse só isso. Todo mundo sabe, quase ninguém, ninguém mesmo, confronta. Por medo, preguiça, indolência. A máquina segue, rangendo.

Talvez o mais assustador seja a naturalização. Já ouvimos tantas vezes “é assim mesmo” que começamos a repetir, resignados. Como se honestidade integral fosse sonho ingênuo e não obrigação mínima. Como se ética plena fosse luxo escandinavo e não condição básica de respeito ao outro.

No fundo, a pergunta é simples e incômoda: o que eu faria se ninguém estivesse olhando?
É aí que a moral deixa de ser discurso e vira escolha. Quando se devolve o troco a mais, quando se recusa o privilégio, quando se diz “não” ao favor indevido, mesmo sabendo que sairia ganhando.

O país não muda por decreto de virtude. Ele muda nesse território íntimo, silencioso, onde cada um decide se vai tratar o público como coisa de todos ou como extensão do próprio quintal. Talvez a verdadeira cordialidade comece quando a mão que poderia puxar alguém para dentro do portão lateral escolhe, em vez disso, abrir melhor a porta da fila. Para todos.

Moema Giuberti
Moema Giuberti
Moema Giuberti. Promotora de Justiça há 17 anos. Mestra em Direto pela PUC/SP. Poetisa nas horas vagas.

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Comentários
  1. Seu texto me lembrou o conceito de Simpatia em Adam Smith que li certa vez. Para ele Simpatia é a capacidade de sentir com o outro através da imaginação, funcionando como o elo que conecta indivíduos e possibilita a moralidade e a vida em sociedade. Mas o ponto que me intriga é: por que sentimos simpatia com determinadas pessoas e não com outras? O que se passa em nosso juízo para termos condescendência ou cordialidade com alguém mas que em situações idênticas negamos a mesma coisa para outro indivíduo?

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