Dead Fish passeia pela História política para farejar o futuro

ENTREVISTA

“A leitura de agora com a base do passado”, afirma o vocalista Rodrigo Lima

Falar de política é sério e o papo é reto. Esse foi o tom do bate-papo da coluna com Rodrigo Lima, vocalista e fundador da banda de hardcore/punk Dead Fish. Não seria diferente. Ele, nos últimos 50 anos (sua idade), passou por momentos cruciais da História política brasileira e, por meio da música, participou ativamente desses momentos do presente e da memória.

Comecemos pelo final, exatamente neste início de 2024, quando o Dead Fish lançou seu décimo álbum, “Labirinto da Memória”. Trata-se de uma viagem em busca “da leitura de agora com a base do passado”, como contou Rodrigo. Nos labirintos visitados do disco, lembranças da ditadura militar, do período de redemocratização no país, do impeachmeant de Collor. Lembranças da família.  

Há canções, como “Avenida Maruípe”, que rememoram cenas e acontecimentos, como um simples jogo de bola na rua: “A avenida em frente ao meu quintal que separava a infância do regime militar”.

Ouça o disco Labirinto da Memória, do Dead Fish: clique aqui

Outra marcante é “11 de setembro”, que confronta o holofote norte-americano que invade nossa memória. Isso porque o mesmo 11 de setembro é absolutamente significativo na América Latina: em 1973 daquele dia caía o presidente chileno Salvador Allende para a ascensão autoritária e violenta do general Augusto Pinochet. O mesmo período compreende os anos cruentos da ditadura brasileira, sob as garras tortuosas de Emílio Garrastazu Médici – presidente do país entre 1969 e 1974. O álbum “Labirinto da Memória” tem essa força histórica e uma gravação potente e madura. 

Seguindo o passeio, a banda foi fundada em 1991, seis anos após o fim do regime e pouco antes do impeachment de Fernando Collor. Narrou aquele período por meio da música. Mais à frente, em 1997, veio o primeiro disco do Dead Fish, “Sirva-se”, seguido do clássico “Sonho Médio”, de 1998. Tratava-se do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e a posição de esquerda de Rodrigo Lima já era reveladora, pelas canções e pelo discurso.

O disco de 97 traz a faixa ‘MST’. O de 98, a canção “Mulheres Negras”, progressismo cantado pelo Dead Fish antes mesmo do primeiro governo Lula, em 2002. A forma como Rodrigo definiu FHC na entrevista, ao apontar o tucano como “liberal”, também é determinante. Naquele recorte, a polarização PT-PSDB começava a marcar território, de modo que os rivais iniciaram processo de conferir (perigosa) ilegitimidade um ao outro. Do lado da esquerda, o neoliberalismo era usado para atacar. E o confronto se acirrou com a chegada dos chamados “cabeças pretas” no PSDB, guinada à direita capitaneada por Aécio Neves.

Em 2019, veio o álbum “Ponto Cego”, projeto raivoso e com apenas “um” objetivo: gritar contra o governo Bolsonaro e contra os impulsos autoritários do ex-presidente. Rodrigo, inclusive, foi um dos artistas convidados para os encontros da frente ampla convocados pela campanha de Lula em 2022.

A estrada é longa. Na entrevista, questiono se era relevante voltar ao passado neste momento, em “Labirinto da Memória”, já com Bolsonaro fora do poder. Rodrigo disse que sim, pois falta muita coisa. De qualquer forma, há outro detalhe: este ano faz 60 anos da ditadura militar no Brasil, data que será amplamente repercutida.

De algum jeito, o Dead Fish é uma banda que, ao debater a política, seja pela energia juvenil do início ou pela maturidade de resgatar o passado, sempre conseguiu farejar o futuro.

Dead Fish passeia pela História política para farejar o futuro

Felipe Izar: Rodrigo, você bate muito na tecla, na divulgação do disco, que não se trata de um álbum nostálgico. “A ideia é recapitular para frente”, divulgou a banda aos veículos. Por que essa memória se mostra importante agora? Você acha que o disco teria mais sentido em 2018, com Bolsonaro? Por que essa necessidade de contar essa memória em 2024?
Rodrigo Lima: Porque a agora a gente precisa andar para frente. Naquela época, quando a gente fez o ‘Ponto Cego’ (álbum lançado em 2019), a gente queria dar a fotografia do momento. Aquela raiva acumulada desde 2013, quando o gigante acordou, quando os Nazi saíram dos bueiros. E aí bateu na mão do Álvaro Dutra, que é um cara meu parceiro de letras, um livro chamado Realismo Capitalista (Mark Fisher), obra que conta muito a História de hoje, uma leitura marxista de uma História de aqui e agora: digo, dos últimos 30, 40 anos. A gente parcialmente ter vencido os ‘Abin lado B’ provisoriamente, pelo menos na Presidência, me fez pensar que a gente precisa ter uma leitura de agora, mas com uma base do passado. O que a gente já teve, o que a gente viveu… Também sobre o livro de Mark Fisher, observamos que, antigamente, o capitalismo industrial matava de exaustão, de fome. E agora existe uma forma de dominação muito mais forte, que é essa coisa de adoecer mentalmente, não parar de trabalhar nunca. Por isso também o álbum não é de nostalgia.

Eu digo isso também porque, ao escutar os discos mais antigos, a gente vê, por exemplo: em 1998 já há uma música chamada “Mulheres Negras”; em 1997, outra intitulada “MST”. Lá atrás vocês já estavam falando de agora. Como você entende esse paradoxo: lá atrás, estavam olhando para o futuro e, agora, voltam ao passado?
Não é uma volta para o passado. Eu não acredito que seja uma volta para o passado. É uma avaliação para seguir em frente. A gente já fez ‘Mulheres Negras’, ‘MST’, ‘Modificar’ (Sonho médio, 1998). A História está dita, a análise está feita. E agora? Vocês jovens que estão aqui, agora, ouvindo o álbum… O que vem daqui para frente, qual é o mote? De quantas tragédias mais a gente vai precisar para entender que precisamos fazer tudo diferente?   

Em 2022, houve uma frente ampla organizada pela esquerda que reuniu diversos artistas, com o objetivo de derrotar Jair Bolsonaro. Você participou dessa frente, encontrou com Caetano Veloso. Como foi esse momento e o que você falou?
Cara, eu participei mais como observador. Eu não faço parte da cúpula da Cultura das massas brasileiras. Eu achei ótimo ter sido convidado. Esse encontro, na época, foi com Boulos, que estava abrindo mão da candidatura à Presidência para disputar como deputado federal. E depois o encontro dos artistas com Lula foi mais pesadão, mais legal, porque não tinha só gente da cúpula dessa coisa de MPB, só os artistas globais. Esse momento foi juntar artistas mesmo, uma frente do funk, uma galera do rock, uma galera dos festivais independentes das antigas. Esse encontro foi muito potente. É importante a gente estar ali somando, mesmo a gente do punk sempre se colocando num lugar à parte, às vezes até num lugar meio vanguardista/elitista. É importante a gente participar e, no final das contas, funcionou, grosso modo. Mas tem mais um caminhão de coisa pela frente. Temos de questionar as nossas atitudes internas a partir de agora. Fazer uma reforma agrária mesmo. A reforma tributária, para mim, foi um peteleco nos culhões. Achei que falhamos.

A frente ampla deu certo e Lula venceu. E vocês ressaltou que temos de olhar um pouco para dentro. Qual a sua avaliação do atual cenário político, sobre a polarização e até sobre o próprio Lula alimentar essa polarização?
Alimenta (Lula) a polarização em que nível?

Por exemplo, segunda, na operação da Polícia Federal de busca e apreensão contra Carlos Bolsonaro, o canal oficial do Governo Federal publicou uma peça com os dizeres “toc, toc, toc”, ironizando o vereador filho de Bolsonaro. Não acha que seja alimentar a polarização e até um pouco perigoso para as relações democráticas?
(Respirou fundo) Cara, eu pessoalmente estou do lado contrário disso. Eu acho que usar do mesmo discurso é mais provocar a base do outro lado do que instigar o nosso lado. Eu definitivamente acho que estamos cada vez mais em lados opostos e que em algum momento vai haver uma consequência. A gente já vem num processo de nove anos de progressão do fascismo. Eu acho que a operação da PF é parte de continuar combatendo tudo isso, talvez, você falou aí de “toc, toc, toc”, usando as armas dos caras. Eu acho importante que a família Bolsonaro vá toda para a cadeia. E, obviamente, seus asseclas também.

Dead Fish passeia pela História política para farejar o futuroDentro de todo esse universo, “Labirinto da Memória” é um baita disco. Percebo que o som de hoje está mais maduro, mais qualificado. Mas há uma identidade sonora que foi mantida lá de trás. Você enxerga assim?
Sim. Nós criamos uma identidade sonora e agradeço a minha cena do Espírito Santo dos anos 90, que conseguiu criar uma coisa só dela. A gente teve um quadro de criatividade, de explosão local e de desenvolvimento muito brutal. E isso refletiu no som do Dead Fish. Nós tivemos uma crise em 1996 quando meu pai morreu, e eu entrei para o Pé do Lixo por 10 meses. Mas a gente resolveu retomar. Eu agradeço muito aos meus pais, às pessoas que contribuíram para o cenário. As próprias rádios universitárias naquela época, com Serjão (Sérgio Nascimento, jornalista e vocalista do Lordose). Eu me lembro que o mote publicitário era: ‘O maior programa de música capixaba do mundo’.  Daqui para frente a gente saiu do Espírito Santo, já com o solo plantado. A gente desviou em muitos momentos, talvez mercadologicamente falando, mas musicalmente não tentando copiar ninguém. 

Como foi esse desvio mercadológico? Com o disco gravado em 2004 pela gravadora?
A gente negou até 2003, lançamos três discos independentes, com o nosso selo. Num dado momento o selo quebrou porque a gente passou dois anos na estrada e o mercado estava vindo abaixo. A gente resolveu, então, aceitar o convite da Deck (gravadora). Falamos: vamos pegar esse desvio aqui e ver o que vai dar. Esse foi o nosso grande desvio: a gente passou a falar para as massas do nosso jeito.

Você disse, em outra entrevista, ser perigoso parecer uma banda de rock velha, com a mesma sonoridade. Como você sente essa comunicação com o público hoje mantendo a identidade sonora?
Eu acho que a gente achou mais um caminho, desde o ‘Ponto Cego’. A gente conseguiu não se cristalizar dentro da estética, apesar desta ser bastante cristalizada. E conseguimos falar de pautas novas, fazer um discurso menos envelhecido. A banda tem uma estrutura sonora  dentro do punk e do hardcore, mas com pautas que transcendem isso. Agora, para uma banda de 30 anos é muito complicado parecer atual (risos). É até forçar a barra. A ideia é se sentir feliz fazendo o que a gente gosta, e não se sentindo uma múmia.

Chama atenção no hardcore a quantidade de shows e viagens das bandas, sempre na estrada, das mais novas às com mais tempo de mercado. Como funciona esse cenário no país?
Existe um nicho que funciona, com casas, selos, produtoras, festivais, artistas, pessoas ligadas à tecnologia. Do punk, saíram donos de festival,  donos de casas. (Fabio) Mozine (Mukeka di Rato) é um. É dono de um selo/produtora/empresa de merchandising e tudo mais. O nicho poderia funcionar muito melhor se a gente não vivesse tantas incertezas econômicas e reviravoltas. Mas desde os anos 90 há uma cena que faz acontecer, apesar de ninguém entrar com a ideia de ficar milionário.

A banda se formou em 1991, seis anos depois da data que marcou a redemocratização e pouco antes do impeachment de Collor. Como era esse momento?
A gente era uma turma de skatistas dos anos 80, comecei a andar em 1986. Bem antes de uma estabilização econômica, do plano real. Vivemos tudo ali na adolescência. E fica muito nítido, se você pega a primeira e a segunda demo do Dead Fish, o quanto é diferente do álbum de 1997. Mas a gente estava contando tudo aqui ali. 

Em ‘Labirinto da Memória’, a canção 11 de setembro de 1973, momento da ascensão do general Augusto Pinochet no Chile, época cruenta da ditadura no brasil, chama a atenção. Era a democracia sendo tomada de uma forma armada. Mesmo que não seja por esse caminho hoje, entende que a democracia corre riscos?
Na música a gente falou dos nossos 11 de setembros. É importante lembrar que em 73 foi o primeiro laboratório do neoliberalismo. E a gente continua vivendo nossos 11 de setembros, mas sem precisar de ter essa coisa armada. Hoje basta o discurso da mídia. O próprio discurso do Fernando Henrique no plano real. Lá ele tem um discurso de liberdade, mas ele é um liberal, ele está ali vendendo o que é do povo para a iniciativa privada. Eu queria mostrar que o nosso 11 de setembro é muito mais pesado do que o que aconteceu com as Torres Gêmeas.

Por fim, no disco de 2024 você narra nas letras cenários, momentos da infância, lembranças recortadas. Como foi esse processo?
Buscamos um tanto de memória que a gente estava apagando. Hoje a gente vive uma coisa tão líquida, está todo mundo sempre consumindo muita informação. Parar e falar de memória foi buscar de onde a gente veio. Falo do meu pai, do meu avô. Construir esse mapa de memória foi custoso e até dolorido. Mas tive muitas lembranças boas da minha infância também. Foi difícil, mas quase que uma terapia.

 

Felipe Izar
Felipe Izar
Felipe Izar é jornalista, músico e pós-graduado em marketing digital. São mais de 15 anos de experiência como profissional de comunicação: passou por redações de jornal, blogs, portais, assessorias de imprensa e escritório de marketing nas áreas de música, empresarial, política, de esportes e mais.

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