A empresa Águas do Rio, que assumiu a concessão dos serviços de água e esgoto no Rio de Janeiro, vai iniciar a construção de um cinturão de 500 Km de extensão em torno da Baia da Guanabara afim de captar as aguas pluviais dos sistemas de drenagem dos municípios e dos córregos que despejam na Baia seu conteúdo poluído. Em tempo seco, em dias sem chuva, 18 mil litros de esgoto “in natura” por segundo deixarão de ser lançados na Baia de Guanabara.
O projeto, orçado em R$ 2,7 bilhões, é um compromisso da empresa que faz parte do contrato de concessão e será executado em três anos e meio. Em junho do ano passado, o interceptor oceânico de Copacabana, conectado a uma galeria subterrânea de 5,5m de diâmetro e 9 Km de extensão que coleta contribuições pluviais poluídas do Aeroporto Santos Dumont até o posto 5, foi limpo pela primeira vez em cinquenta anos de existência. Foram retiradas mais de duas mil toneladas de lixo. Os cariocas devem a balneabilidade das praias da Zona Sul aos interceptores oceânicos construídos nos anos setenta. (1971)
A foz do Rio Tejo em Portugal e suas praias ficaram poluídas por décadas até que a entrada do país na União Europeia e a participação da iniciativa privada viabilizasse financeiramente as obras de infraestrutura que tiraram o país do atraso e o colocaram com destaque no mapa do turismo internacional. Foi construído um “linhão coletor” de Lisboa até Cascais para coletar as aguas pluviais poluídas e os córregos que despejavam seu conteúdo “in natura” no Rio Tejo. Em Cascais todo esse fluxo hídrico é tratado com peneiras e produtos químicos numa estação de tratamento primário para retirar objetos sólidos (pontas de cigarro, absorventes, embalagens plásticas etc.) e lançar o efluente, ainda muito poluente, no oceano através do emissário submarino a uma distância de 5 Km da praia.
A coleta do esgoto em redes segregadas das galerias pluviais é muito mais cara e no contrato de concessão da Aguas do Rio é uma obrigação a ser cumprida num prazo de 12 anos. Uma afirmação cínica em defesa do não tratamento das aguas pluviais é que “chuva não caga”.
É fundamental pensar em tratar as aguas pluviais que poluem a Baia de Vitória que é o maior ativo ambiental da Região Metropolitana. Na capital, as redes de coleta de esgoto segregadas e as estações de tratamento já construídas foram um grande avanço, da mesma forma que os sistemas de macrodrenagem com estações de bombeamento edificadas nos últimos trinta anos que acabaram com os alagamentos. Em Vila Velha e Cariacica também acontecem investimentos importantes em macrodrenagem com a mesma estratégia que não considera a necessidade de tratar as aguas pluviais.
Os casos do Rio de Janeiro e Lisboa nos ensinam que os sistemas de fornecimento de agua potável tratada, coleta e tratamento de esgoto e drenagem pluvial devem ser tratados de forma integrada, como um serviço público essencial em regime de concessão com metas claras de curto e longo prazos. Só assim será possível colocar na agenda além da universalização do saneamento, a redução das perdas de agua tratada na distribuição, a redução do consumo de energia, o aproveitamento das aguas de chuva e a ampliação do reuso.
O Plano Nacional de Saneamento-PLANASA, criado nos anos sessenta, cumpriu as metas de elevação da cobertura de fornecimento de agua tratada principalmente nos bairros pobres e, certamente, salvou milhões de vidas. Ficamos no entanto refém dos reservatórios domésticos de agua tratada (as caixas d’agua) alternativa desprezada e até proibida nos países desenvolvidos, que utilizam reservatórios coletivos e fazem a distribuição por gravidade.
Além de economizar a energia despendida nas bombas de recalque usadas no Brasil para encher as caixas d’agua das casas, o sistema por gravidade apresenta taxas de desperdício (perdas) de três a quatro vezes inferior ao nosso e se pode beber agua potável diretamente das torneiras. Em Lisboa o sistema de distribuição tem 16 grandes reservatórios (com tempo de residência de 6 horas) que abastecem a cidade, onde as casas não possuem caixas d´água.
As escolhas tecnológicas e de modelo regulatório e empresarial do PLANASA estão obsoletos. Enfrentar o desafio de moderniza-los é condição necessária para superar nosso atraso no saneamento.
O desafio é político!









