Adoção: como o Evangelho transforma nosso olhar sobre quem espera

Adoção: como o Evangelho transforma nosso olhar sobre quem esperaA adoção nos convida a uma pergunta: quando uma criança cresce, diminui sua necessidade de ter uma família? Na segunda-feira, 9 de novembro, o Dia Mundial da Adoção lembra que milhares de meninos e meninas continuam esperando essa oportunidade.

No Brasil, dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento divulgados pelo Tribunal de Justiça da Bahia em 9 de outubro de 2026 apontavam 6.193 crianças e adolescentes disponíveis para adoção e 32.761 pretendentes habilitados. Havia mais de cinco pretendentes para cada criança ou adolescente. Por que, então, tantos continuam esperando?

Parte da resposta está na distância entre o filho imaginado e quem aguarda uma família. Em levantamento divulgado pelo CNJ em outubro de 2024, a faixa de 2 a 4 anos era a mais procurada. Em 2026, o órgão voltou a destacar as dificuldades enfrentadas por crianças maiores, adolescentes, grupos de irmãos e pessoas com deficiência ou necessidades específicas de saúde.

No mundo, o Unicef estima que 2 milhões de crianças estavam em acolhimento residencial em 2025. Esse número não representa uma fila de adoção: muitas têm familiares, e a reintegração familiar deve ser buscada quando possível e segura. Não há, nas fontes consultadas, um total mundial comparável de crianças disponíveis e pretendentes habilitados.

A adoção no Evangelho

Para o cristão, essa realidade também toca uma verdade central da fé: nós fomos recebidos como filhos de Deus.

Em Gálatas 4.4–7, Paulo explica que o Pai enviou seu Filho para nos resgatar, “a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (v. 5, NAA). Nossa salvação inclui perdão, reconciliação e pertencimento. Em Cristo, recebemos um lugar na família de Deus.

Adoção: como o Evangelho transforma nosso olhar sobre quem espera
A leitura Bíblia deixa claro: nossa salvação inclui perdão, reconciliação e pertencimento. Em Cristo, recebemos um lugar na família de Deus.

Efésios 1.4–5 apresenta essa adoção como expressão do amor e da vontade divina. Sua origem está na graça. Deus conhecia nossos pecados, nossa resistência e nossas tentativas de viver longe dele.

Romanos 5.8–10 ensina que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores e que fomos reconciliados quando éramos inimigos. Deus tomou a iniciativa de nos amar antes que pudéssemos apresentar qualquer mérito.

Esse amor confronta nosso orgulho. Quem foi acolhido pela graça precisa perguntar como tem acolhido o próximo.

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Quem continua esperando uma família?

Por que crianças maiores e adolescentes encontram tanta dificuldade para serem adotados? Quanto dessa resistência nasce de limites reais, que exigem preparo, e quanto vem de preconceitos sobre sua origem e sua história?

A chamada adoção tardia nos coloca diante de alguém que já tem lembranças, vínculos, gostos, medos e desejos. Acolher esse filho exige respeitar essa trajetória e construir confiança.

Crianças do Programa Esperando por Você, do TJES
Adoção tardia: o Programa Esperando por Você, do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, busca famílias para crianças e adolescentes

Aqui, a comparação com nossa adoção espiritual tem um limite importante: uma criança não precisa ser perdoada por sua origem. As perdas que sofreu e a história de sua família não são culpas. Ela não chega devendo gratidão por ter sido acolhida.

O Evangelho nos ensina a amar sem exigir uma história conveniente. Um adolescente também precisa de alguém que acompanhe seus estudos, escute suas dúvidas, celebre suas conquistas e permaneça nos dias difíceis.

O filho real pode ser diferente daquele que imaginamos. Nenhuma forma de parentalidade oferece controle sobre quem o outro será.

Amor que assume responsabilidade

Desejar a maternidade ou a paternidade é legítimo. A infertilidade pode fazer parte desse caminho sem tornar o amor menor. Também seria injusto tratar quem adota um bebê como alguém que escolheu uma vida sem dificuldades.

A questão é outra: estamos dispostos a reconhecer as necessidades de um filho ou esperamos que ele exista para preencher nossas expectativas?

Mãe anda de mãos dadas com filha adotiva
O compromisso de ser pai ou mãe se expressa na escuta, no acompanhamento e no cuidado de todos os dias.

Compaixão e justiça podem despertar o desejo de adotar. Mas esse desejo precisa amadurecer em compromisso de ser pai ou mãe. A adoção exige preparação, orientação profissional, paciência e apoio. Essa decisão exige liberdade e responsabilidade.

Nem todo cristão adotará. Toda igreja, porém, pode combater preconceitos, apoiar famílias adotivas e cuidar de crianças em situação de vulnerabilidade. Tiago 1.27 associa a fé vivida ao cuidado com órfãos e viúvas em suas aflições.

Filhos pela graça de Cristo

A beleza do Evangelho está na iniciativa de Deus. O Pai enviou o Filho; Jesus entregou sua vida e ressuscitou; o Espírito confirma nosso pertencimento. Em Romanos 8.15–17, Paulo mostra que recebemos o Espírito de adoção e podemos chamar Deus de “Aba, Pai” (NAA).

Adoção: como o Evangelho transforma nosso olhar sobre quem espera
Cena de The Chosen: Jesus é o unigênito Filho de Deus; quando cremos em sua obra redentora na cruz do Calvário, somos feitos filhos de Deus, recebendo o Espírito de adoção, conforme explica Paulo. Jesus agora é o primogênito de muitos irmãos, adotados em Cristo, que agora pertencem à família de Deus

Nossa esperança repousa em Jesus Cristo, nosso Salvador e Senhor. Pela fé nele, recebemos o que jamais conseguiríamos conquistar: reconciliação, filiação e herança.

Adotar uma criança não compra o favor de Deus. Acolher e cuidar são frutos da graça que recebemos. O amor do Pai nos ensina a enxergar pessoas para além das nossas conveniências.

Diante de quem ainda espera uma família, vale perguntar: o que a certeza de sermos filhos amados está produzindo em nós? O Filho eterno veio ao nosso encontro para nos levar ao Pai. Que essa graça abra nossos olhos e nos ensine a amar.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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