O calor esteve associado a cerca de 46,4 mil mortes por doenças respiratórias no Brasil entre 2010 e 2020, mais que o dobro das 19,6 mil atribuídas ao frio no mesmo período. Os números fazem parte de uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicada na revista científica PLOS Climate, que analisou mais de um milhão de óbitos em 646 municípios brasileiros e chama atenção para um risco frequentemente associado apenas aos meses mais frios do ano.
Segundo o levantamento, aproximadamente 6% das mortes por doenças respiratórias analisadas estiveram relacionadas a temperaturas fora da faixa considerada de menor risco. O calor respondeu por 4,27% dos óbitos, enquanto o frio representou 1,81%. Os números são estimativas estatísticas de associação, e não significam que a temperatura tenha sido identificada como causa direta de cada morte.
No Sudeste, região que inclui o Espírito Santo, o calor também apresentou maior participação nas estimativas, com 2,57% das mortes respiratórias associadas às altas temperaturas, contra 1,82% relacionadas ao frio.
A pneumologista e especialista em Medicina do Sono Jéssica Polese explica que as temperaturas elevadas podem provocar alterações no funcionamento do sistema respiratório. Com o aumento da perda de líquidos, as secreções podem ficar mais espessas, dificultando sua eliminação. Além disso, o organismo precisa realizar um esforço maior para regular a temperatura corporal, o que pode agravar problemas pulmonares preexistentes.
“O calor não representa apenas uma sensação de desconforto. Em determinadas condições, ele pode aumentar a sobrecarga sobre o sistema respiratório, especialmente em pessoas que já apresentam alguma limitação pulmonar. Pacientes com asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica podem sofrer uma piora dos sintomas durante períodos de temperaturas muito elevadas”, explica a médica.
O risco pode ser intensificado pela baixa umidade do ar e pela presença de poluentes atmosféricos. Durante períodos quentes, determinadas condições ambientais favorecem a formação de ozônio próximo ao solo, um poluente capaz de irritar as vias respiratórias. A exposição à fumaça de queimadas também pode contribuir para o agravamento de doenças pulmonares.
Embora qualquer pessoa possa sentir os efeitos do calor intenso, idosos e pacientes com doenças respiratórias crônicas exigem atenção especial. A menor capacidade de adaptação do organismo às variações de temperatura e a presença de outras condições de saúde podem aumentar a vulnerabilidade desses grupos.
Segundo Jéssica, mudanças no padrão habitual da respiração não devem ser ignoradas, principalmente por quem já faz acompanhamento pneumológico.
“É importante observar quando uma pessoa que estava bem controlada passa a apresentar mais tosse, chiado no peito, cansaço ou dificuldade para realizar atividades que antes fazia normalmente. Esses sintomas podem indicar uma descompensação da doença respiratória e precisam ser avaliados. Não é adequado atribuir toda dificuldade para respirar simplesmente ao calor”, alerta.
O Ministério da Saúde reconhece que as ondas de calor podem agravar doenças crônicas respiratórias e cardiovasculares. Entre as orientações estão manter a hidratação, procurar ambientes frescos, evitar esforço físico intenso nos horários mais quentes e seguir corretamente os tratamentos prescritos.
Para a pneumologista, a prevenção também exige atenção aos hábitos cotidianos, sobretudo entre pessoas que já convivem com problemas pulmonares.
“Quem tem uma doença respiratória não deve interromper o uso dos medicamentos porque está se sentindo bem, nem esperar uma crise importante para buscar ajuda. Manter o tratamento, evitar exposição excessiva ao calor e observar os primeiros sinais de piora são medidas fundamentais. Se houver falta de ar intensa, a pessoa precisa procurar atendimento imediatamente”, orienta a especialista.
A pesquisa reforça que os efeitos das temperaturas sobre a saúde variam conforme o clima de cada região. Embora o calor tenha apresentado maior impacto no conjunto dos municípios brasileiros analisados, o frio continua sendo um fator relevante para a mortalidade respiratória, especialmente no Sul do país.










