Perita aponta “buraco” documental e sugere exclusão de dezenas de empresas do grupo Apex

Em manifestação protocolada na Justiça do Espírito Santo, o perito do processo de megarecuperação judicial do grupo financeiro Apex Partners / ABM Partners, cujo valor da causa supera os R$ 921 milhões, aponta dificuldades. A empresa Laspro Consultores — atuando como perita e administradora judicial — colocou sob forte suspeita a estrutura do processo, identificou um cenário de opacidade contábil, falta de documentos básicos e a inclusão de dezenas de empresas que sequer possuem dívidas concursais (credores) para justificar o benefício da reestruturação.

O relatório técnico detalha uma verdadeira teia societária hiperfragmentada — que chegou a contar com 178 sociedades no início das tratativas — e joga luz sobre inconsistências que podem enxugar drasticamente o escopo do processo.

O labirinto dos números e o “sumiço” de credores

Um dos pontos mais críticos levantados pela equipe de perícia envolve o cumprimento do artigo 51 da Lei de Recuperação Judicial e Falências (LFRE). Segundo o documento, as requerentes apresentaram declarações atestando a ausência total de credores para 88 sociedades do grupo. Desse total, após desistências pontuais, restam 72 empresas no polo ativo que continuam sem apresentar nenhuma relação de credores.

Para a perícia, a situação é juridicamente insustentável. Com base na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a perita reforça que a chamada “consolidação processual” serve apenas para unir empresas em um mesmo processo, mas cada litisconsorte deve preencher os requisitos legais individualmente.

Em linguagem direta: se uma empresa não tem credores a negociar, falta-lhe o “interesse de agir”. Por essa razão, a Laspro opina pelo indeferimento da petição e extinção do processo (sem resolução do mérito) para dezenas de veículos de investimento, holdings menores e Sociedades de Propósito Específico (SPEs) que integram o bloco sem dívidas.

Contabilidade opaca e fluxos nebulosos

A manifestação técnica também escancara sérias barreiras para a análise financeira do grupo. A perita aponta que o prazo de 90 dias inicialmente pedido para o reprocessamento contábil seria insuficiente para decodificar os números apresentados. Entre os problemas apontados estão:

  • Falta de transparência bancária: O relatório cobra extratos detalhados de todas as contas e aplicações desde janeiro de 2025 para confrontar a veracidade dos relatórios de fluxo de caixa.

  • Balanços ausentes: Há dezenas de empresas no polo ativo que não apresentaram balanços ou demonstrações de resultados adequados.

  • Movimentações atípicas: A perícia exige explicações minuciosas sobre adiantamentos de lucros milionários (registrados cruzando ativos e passivos), contratos de mútuo conversível e transferências destinadas a sócios, controladores e administradores desde 2024.

  • Debêntures e securitização: O mapeamento de emissões de debêntures e operações ligadas à Rhino Securitizadora revelou centenas de milhões de reais cujos titulares atuais dos títulos simplesmente não aparecem nos documentos juntados aos autos.

Organograma sob desconfiança

O raio-x feito pela Laspro demonstra que o grupo encolheu por meio de dezenas de pedidos de desistência e tentativas de exclusão por parte de investidores e credores externos. Curiosamente, a perita notou que essas saídas se concentram na base da pirâmide corporativa — exatamente nos veículos de participação e SPEs —, enquanto as holdings de controle permanecem intocadas.

No entanto, o vai e vem de petições gerou um quebra-cabeça de divergências cadastrais, com empresas que aparecem ao mesmo tempo como desistentes e ativas em planilhas diferentes do processo.

Próximos passos

Com o parecer contundente da Laspro Consultores, a bola passa agora para as mãos do magistrado da Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória. A tendência é que o juízo intime o grupo Apex Partners a prestar esclarecimentos urgentes e a sanar as dezenas de pendências documentais apontadas.

Caso os requisitos legais não sejam rigorosamente preenchidos, a reestruturação poderá sofrer um corte drástico em seu perímetro, deixando de fora as empresas que não comprovaram crise concursal legítima.

Jornal ES HOJE

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas