Uma onda de renúncias sem precedentes no mercado financeiro capixaba expôs a gravidade da crise institucional e contábil que assola a Apex Partners e suas investidas. Documentos e notificações extrajudiciais obtidos revelam que, em questão de semanas, ao menos uma dúzia de altos executivos — entre diretores, conselheiros de administração e gestores de risco — entregaram seus cargos em caráter irrevogável e irretratável.
A debandada generalizada ocorre no rastro do afastamento do fundador da gestora, Fernando Antonio Kulnig Cinelli, e da revelação de um passivo estimado em cerca de R$ 985,6 milhões, além de investigações sobre potenciais ilícitos e “inconsistências financeiras”.
Efeito gatilho: reunião com o BTG e a apuração interna
As cartas de renúncia traçam uma linha do tempo minuciosa do colapso da governança corporativa no conglomerado. O estopim da debandada ocorreu no início de agosto de 2026.
Em sua manifestação, o então Diretor de Operações Pedro Henrique de Almeida Petris revelou que, após a identificação de discrepâncias contábeis, foi criado um grupo de trabalho emergencial composto por ele e por executivos como Alexandre Borborema, Eduardo Siqueira, Marcelo Murad e o próprio Fernando Cinelli.
No dia 4 de agosto de 2026, os resultados parciais desse levantamento foram apresentados em uma reunião decisiva com o Banco BTG Pactual — até então parceiro estratégico para distribuição de investimentos. O diagnóstico de rápida deterioração patrimonial e a suspeita de fraudes precipitaram o encerramento das parcerias e uma corrida para desembarque da administração.
“À revelia do Conselho”
Com a ameaça de responsabilização civil e criminal que recai sobre administradores pelas dívidas e eventuais ilegalidades da sociedade (com base no Código Civil e na Lei das S.A. – Lei 6.404/76), o teor das correspondências reflete uma preocupação central: a construção de salvaguardas e escudos jurídicos.
Afastamento e Alegação de Desconhecimento: Executivos como o Vice-Presidente do Conselho de Administração, Luis Soares Cordeiro, ressaltaram formalmente que a decisão de renunciar decorreu da ciência de “fatos graves relacionados a inconsistências contábeis, gerenciais e financeiras […] realizados à revelia do Conselho”, resguardando expressamente o direito de exigir prestação de contas.
Notificação a Regulares (CVM e Anbima): O Diretor Thompson Vieira Carneiro Alves, da BRM Apex Gestão de Recursos S.A., foi além ao demandar em sua renúncia que a empresa reportasse o ato imediatamente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e à Anbima como Fato Relevante (conforme a Resolução CVM 44/2021).
Proteção de Direitos Contratuais: No segmento de compliance e riscos, Victoria Mattedi Barros (da Futura Pesquisa LTDA) e Dirceu Santos Moulin Simões (da BRM Apex Soluções de Portfólio) registraram que a saída não significa perda do direito de ação nem quitação de débitos trabalhistas/societários pendentes.
Mapeamento dos Nomes da Debandada
A lista de renúncias atinge múltiplos braços do grupo em diversos estados (Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná e São Paulo):
Luis Soares Cordeiro: Vice-Presidente e Membro do Conselho de Administração (Apex Partners Gestão de Ativos S.A.).
Marcus Buaiz: Membro do Conselho de Administração (Apex Partners Gestão de Ativos S.A.).
Simone Chieppe Moura: Membro do Conselho de Administração (Apex Partners Gestão de Ativos S.A.).
Marcio Luiz Zaganelli Filho: Diretor Comercial e de Operações (com renuncias formalizadas na Apex Partners, BRM Apex Gestão de Recursos e ABM Partnership).
Américo Buaiz Neto: Diretor da ABM 2 Partners Investimentos e Participações S.A. (com notificação registrada via Cartório de Títulos e Documentos).
Pedro Henrique de Almeida Petris: Diretor da Apex Partners Gestão de Ativos, BRM Apex Proprietários e BRM Apex Expansão.
Thompson Vieira Carneiro Alves: Diretor da BRM Apex Gestão de Recursos S.A..
João Vitor Carminatti Oliveira: Diretor sem Designação Específica da Apex SC Gestão de Ativos.
Heitor Gomes Costa Fernandes: Administrador da Futura Consultoria e Assessoria Ltda..
Victoria Mattedi Barros: Diretora de Compliance e Risco da Futura Pesquisa Ltda..
Wagner Robert Kronbauer: Diretor da Apex Sul Gestão de Ativos S.A..
Dirceu Santos Moulin Simões: Diretor responsável por gestão de carteira na BRM Apex Soluções de Portfólio Ltda.
Análise Jurídico-Econômica: Quais são os Próximos Passos?
Sob a ótica do Direito Empresarial e do Mercado de Capitais, o acúmulo de notificações extrajudiciais e formalizações de renúncia via Artigo 151 da Lei das S.A. cumpre duas funções estratégicas:
Cessação da Eficácia Organizacional: A partir do recebimento da comunicação pela sociedade, cessam as responsabilidades operacionais e administrativas dos executivos perante a companhia.
Publicidade e Eficácia perante Terceiros: A corrida para averbação dos atos na Junta Comercial do Estado do Espírito Santo (JUCEES) e nos Cartórios de Registro de Títulos e Documentos busca proteger o patrimônio pessoal desses gestores contra penhoras e execuções de credores do grupo, que tentam rastrear ativos após o pedido de Recuperação Judicial das empresas.
A debandada em massa deixa o grupo sob gestão de crise enquanto peritos judiciais e auditorias externas tentam reconstituir a contabilidade de quase 180 empresas vinculadas ao ecossistema da Apex Partners. Para o mercado e os cerca de 8 mil investidores afetados, a renúncia dos órgãos de controle e diretoria é o sinal mais claro do tamanho do abalo na confiança institucional da casa.










