Quase 20% dos estudantes acham que a vida não vale a pena

Quase 20% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos afirmam pensar, sempre ou na maioria das vezes, que a vida não vale a pena ser vivida. O dado faz parte da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e chama a atenção para os desafios relacionados à saúde mental de crianças e adolescentes no país.

O levantamento também aponta que 42,9% dos estudantes sentem irritação, nervosismo ou mau humor frequentes, enquanto quase três em cada dez convivem constantemente com sentimentos de tristeza.

De acordo com a médica psiquiatra da Infância e Adolescência Carla Caroline Vieira, da Afya Educação Médica de Montes Claros, em Minas Gerais, a adolescência é um período marcado por mudanças emocionais, busca por identidade e questionamentos, mas é preciso observar quando essas manifestações ultrapassam o que é esperado para essa fase.

A especialista explica que oscilações de humor, desejo de isolamento e questionamentos às regras familiares podem fazer parte do desenvolvimento. A preocupação surge quando esses comportamentos se tornam intensos, frequentes e duradouros, provocando sofrimento e prejudicando a rotina do adolescente.

A pesquisa do IBGE também evidencia a influência do ambiente familiar e social na saúde mental dos jovens. Entre os entrevistados, 26,1% disseram sentir que ninguém se preocupa com eles. Mais de um terço relatou desentendimentos ou falta de compreensão dos pais em relação aos seus problemas, enquanto um em cada cinco afirmou ter sofrido agressão física por parte de um responsável.

Segundo Carla Caroline, a exposição à violência, à negligência e à falta de apoio pode comprometer o desenvolvimento emocional e a capacidade de lidar com situações difíceis.

Ansiedade afeta crianças desde os primeiros anos

Um estudo publicado neste ano na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, com base em estimativas do Global Burden of Disease (GBD), aponta que a ansiedade é a principal causa de incapacidade não fatal no Brasil desde a infância, liderando o indicador entre crianças de 5 a 9 anos e permanecendo nessa posição nas faixas etárias seguintes até a vida adulta jovem.

De acordo com o levantamento, cerca de 15,6 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos, o equivalente a 20,91% dessa população, vivem com pelo menos um transtorno mental.

A prevalência aumenta com a idade. Entre crianças de 5 a 9 anos, o índice é de 12,06%, chegando a 24,95% entre pessoas de 25 a 29 anos. O estudo também estima que aproximadamente 2,5 milhões de jovens nessa faixa etária apresentam critérios diagnósticos para transtornos relacionados ao uso de substâncias, como álcool e outras drogas.

A psicanalista e psicóloga Andréa Chicri Torga Matiassi, da Afya Contagem, destaca que a ansiedade infantil nem sempre é expressa por meio de palavras. Em muitos casos, ela aparece no comportamento e em manifestações físicas, especialmente quando a criança ainda não consegue compreender ou comunicar o que está sentindo.

Separações, perdas, mudanças, conflitos familiares e cobranças excessivas estão entre as situações que podem desencadear ou intensificar a ansiedade.

Na escola, o problema pode afetar a atenção, a memória, o sono e a autonomia, além de prejudicar a aprendizagem e as relações sociais. O medo de errar pode levar a criança a evitar atividades, buscar confirmação constante dos adultos ou apresentar desinteresse pelas tarefas.

Segundo Andréa, comportamentos que podem ser interpretados como desobediência ou falta de interesse, em algumas situações, estão relacionados ao medo e à dificuldade de lidar com as próprias emoções.

A importância do acolhimento

As especialistas ressaltam que o apoio familiar e escolar é importante para a prevenção e a identificação precoce de problemas de saúde mental. A presença de adultos disponíveis para ouvir, uma rotina equilibrada e momentos de descanso e lazer estão entre os fatores que contribuem para o bem-estar de crianças e adolescentes.

Andréa também alerta para a necessidade de evitar cobranças excessivas por desempenho. Para ela, crianças não devem ser avaliadas apenas pela produtividade ou pelos resultados escolares, mas também precisam ter espaço para brincar, aprender e desenvolver relações sociais.

A psicóloga destaca que é importante criar ambientes em que crianças e adolescentes possam falar sobre seus medos e dificuldades sem receio de críticas ou julgamentos. O acolhimento e a escuta, segundo a especialista, são passos importantes para compreender o sofrimento emocional e buscar o acompanhamento adequado quando necessário.

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