Quando a criança entende o que os adultos dizem, atende a comandos e consegue demonstrar o que deseja, mas ainda não fala, é comum que pais e responsáveis acreditem que ela esteja apenas demorando um pouco mais para desenvolver a linguagem. A ausência ou o atraso da fala, no entanto, pode indicar a necessidade de uma avaliação profissional.
Segundo a fonoaudióloga Tatiane Chagas, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA), compreender o que acontece ao redor não significa necessariamente que o desenvolvimento da linguagem esteja ocorrendo conforme o esperado.
Isso porque a linguagem envolve diferentes habilidades. Entre elas estão a linguagem receptiva, relacionada à capacidade de compreender palavras, frases e comandos, e a expressiva, usada para comunicar pensamentos, vontades e necessidades.
“É comum ver famílias tranquilizadas pelo fato de a criança apontar, levar até o filtro d’água ou obedecer a ordens simples. No entanto, se o vocabulário verbal esperado para a idade não surge, existe uma defasagem que não deve ser negligenciada”, explica.
Quando a falta de fala merece atenção?
A comunicação começa antes mesmo das primeiras palavras. Gestos, contato visual, imitação, apontar para objetos e outras formas de interação também fazem parte desse desenvolvimento.
Alguns sinais, porém, podem indicar a necessidade de avaliação especializada. Entre os pontos destacados pela fonoaudióloga estão:
Aos 12 meses: não balbuciar, não manter contato visual ou não reagir quando chamado pelo nome;
Aos 18 meses: não utilizar entre seis e dez palavras simples ou não apontar para demonstrar interesse;
Aos 2 anos: não combinar duas palavras, como “quer água” ou “dá bola”, e não tentar imitar sons do cotidiano;
A partir dos 3 anos: apresentar uma fala difícil de ser compreendida por pessoas que não fazem parte do convívio familiar ou demonstrar frustração frequente por não conseguir se comunicar.
A especialista também chama a atenção para a forma como os adultos estimulam a criança. Antecipar constantemente o que ela deseja ou insistir para que repita palavras até pronunciá-las corretamente pode não contribuir para o desenvolvimento da comunicação.
“A chave não é cobrar perfeição, mas dar tempo e criar oportunidades para que o diálogo aconteça”, afirma Tatiane.
Comunicação alternativa pode ajudar crianças autistas
Para crianças autistas não falantes ou com dificuldades significativas na comunicação oral, uma das possibilidades é a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA).
O método reúne diferentes estratégias e recursos para permitir que a pessoa se comunique sem depender exclusivamente da fala. Podem ser utilizados desde gestos e cartões com imagens até pranchas de comunicação e aplicativos instalados em tablets e outros dispositivos.
Segundo Tatiane, ainda existe entre algumas famílias o receio de que o uso dessas ferramentas faça com que a criança deixe de desenvolver a fala.
“Ainda existe o mito de que usar pranchas ou aplicativos de comunicação vai fazer a criança ‘ficar preguiçosa’ para falar. A literatura científica comprova o contrário: a CAA reduz a ansiedade, diminui crises causadas por frustração e estimula o próprio desenvolvimento da linguagem oral”, afirma.
Os recursos podem ser utilizados tanto em casa quanto na escola e ajudam a criança a comunicar necessidades, vontades e sentimentos, como informar que está com fome, pedir para brincar ou demonstrar desconforto.
A avaliação individual é importante para identificar as dificuldades de comunicação apresentadas pela criança e definir quais estratégias podem ser utilizadas em cada caso.










