“Falar isso publicamente me deixa vulnerável”. O desabafo da atriz e humorista Gkay, de 33 anos, após revelar o diagnóstico de depressão, trouxe para as redes sociais uma discussão que ainda costuma acontecer em silêncio. Ao contar que existe uma parte de sua vida que o público não vê quando as câmeras desligam, ela chamou atenção para uma característica importante da depressão: o sofrimento nem sempre é perceptível para quem está por perto.
“Muito estranho pensar que milhões de pessoas podem acompanhar a minha vida todos os dias, parte dela, e ainda assim não saber o que acontece comigo quando a câmera desliga”, afirmou Gkay. Ela também contou que, embora seja vista trabalhando, viajando, fazendo piadas, indo a festas e realizando sonhos, existe uma realidade que não costuma ser compartilhada publicamente.
Para a psicóloga Dra. Marília Zanette, a diferença entre aquilo que uma pessoa demonstra externamente e o que vivencia internamente é um aspecto importante para compreender a depressão. Segundo ela, nem sempre o sofrimento psíquico é evidente para quem está ao redor, o que pode dificultar o reconhecimento dos sinais e até fazer com que a própria pessoa minimize o que está sentindo.
“A depressão não tem uma aparência única. Uma pessoa pode continuar trabalhando, estudando, cuidando dos filhos, encontrando amigos e até sorrindo, enquanto internamente enfrenta um sofrimento muito grande. Por isso, não devemos usar o comportamento aparente como parâmetro para dizer se alguém está ou não deprimido.”
Tristeza não é sinônimo de depressão
A depressão também não deve ser confundida com momentos pontuais de tristeza. A tristeza faz parte da experiência humana e pode surgir diante de perdas, frustrações e mudanças. Já o quadro depressivo envolve um conjunto de sintomas que persiste e interfere de maneira significativa na vida da pessoa.
“Sentir tristeza não significa, por si só, ter depressão. O que merece atenção é quando esse sofrimento se prolonga, começa a comprometer a rotina, os relacionamentos, o trabalho ou o interesse pelas coisas que antes faziam sentido. É importante observar a intensidade, a frequência e o impacto desses sentimentos na vida cotidiana.”
Entre os sinais que podem aparecer estão perda de interesse ou prazer, cansaço, alterações no sono e no apetite, dificuldade de concentração, sentimentos de culpa ou inutilidade, irritabilidade, isolamento e sensação de desesperança. Nem todos os sintomas aparecem em todas as pessoas.
Diagnóstico exige avaliação profissional
Uma das dificuldades está justamente em reconhecer quando é hora de procurar ajuda. Muitas pessoas passam meses tentando lidar sozinhas com o que estão sentindo ou acreditam que precisam apenas “ter força” para superar a situação.
Para Marília, procurar acompanhamento profissional não significa necessariamente que a pessoa tenha um diagnóstico de depressão. A avaliação é justamente o caminho para compreender o que está acontecendo.
“O diagnóstico não deve ser feito pela própria pessoa, nem por familiares ou amigos a partir de uma lista de sintomas. O profissional precisa avaliar a história daquele indivíduo, entender o que ele está vivendo, há quanto tempo, quais mudanças aconteceram e de que maneira isso está afetando sua vida.”
A psicóloga também destaca a importância de não esperar que o sofrimento chegue a um nível extremo para buscar atendimento.
“A psicoterapia pode ser procurada antes mesmo de existir um diagnóstico fechado. Muitas vezes, a pessoa chega dizendo apenas que não está bem, que perdeu a motivação ou que sente que não consegue mais lidar com determinadas situações. A partir desse processo de escuta e avaliação, é possível compreender melhor o que está acontecendo e quais caminhos de cuidado são necessários.”
Tratamento é individual
O tratamento da depressão varia de acordo com cada pessoa e com a intensidade do quadro. A psicoterapia pode fazer parte desse processo e, em determinadas situações, pode haver também indicação de acompanhamento médico e uso de medicamentos.
Nesse ponto, a participação de diferentes profissionais pode ser importante.
“Não existe uma fórmula única para tratar a depressão. Cada pessoa tem uma história, uma realidade e necessidades diferentes. Em alguns casos, a psicoterapia será o principal recurso; em outros, pode ser necessário um acompanhamento multiprofissional. O mais importante é que o tratamento seja individualizado e que a pessoa não interrompa ou modifique qualquer conduta por conta própria.”
A psicóloga ressalta ainda que a rede de apoio pode ter papel importante durante o processo, principalmente quando familiares e amigos conseguem oferecer presença sem transformar o sofrimento em cobrança.
“Frases como ‘reaja’, ‘você tem tudo para ser feliz’ ou ‘isso é só uma fase’ podem aumentar a sensação de incompreensão. Muitas vezes, o que a pessoa precisa primeiro é ser escutada sem julgamento e perceber que não precisa enfrentar aquilo sozinha.”
Redes sociais podem mostrar apenas parte da realidade
O relato de Gkay também coloca em evidência o impacto da exposição nas redes sociais. A vida compartilhada na internet costuma mostrar recortes de momentos, conquistas e experiências, mas não necessariamente traduz o que acontece nos bastidores.
“As redes sociais trabalham muito com recortes. Existe uma expectativa de felicidade, produtividade e realização constante, mas a vida real não funciona assim. Comparar a própria vida com aquilo que outra pessoa escolhe mostrar pode gerar uma percepção distorcida e aumentar sentimentos de inadequação. Precisamos lembrar que aquilo que aparece na tela é apenas uma parte da história.”










