Há acontecimentos que dividem a história entre antes e depois. O 11 de Setembro é um deles. Na manhã de 11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por 19 terroristas ligados à Al-Qaeda. Dois atingiram as Torres Gêmeas, em Nova York; outro foi lançado contra o Pentágono; e o quarto caiu na Pensilvânia. Quase 3 mil pessoas morreram.
As imagens dos prédios em chamas, das pessoas correndo pelas ruas e das torres desabando foram transmitidas ao vivo. Em poucas horas, o mundo percebeu que sua sensação de segurança também poderia cair.
Vinte e cinco anos depois, o planeta está mais vigiado, armado e tecnologicamente preparado. Ainda assim, guerras, perseguições, terrorismo, intolerância e discursos de ódio permanecem entre nós. O 11 de Setembro mudou fronteiras, aeroportos, governos e estratégias militares, mas não conseguiu mudar o coração humano.
E talvez seja justamente essa a principal lição espiritual daquela tragédia: podemos construir sistemas capazes de localizar inimigos, mas nenhum sistema humano consegue retirar de nós a raiz da inimizade.
O mal começa no coração
Diante de uma atrocidade como o 11 de Setembro, somos tentados a imaginar o mal como uma realidade distante, encontrada apenas em terroristas, ditadores e criminosos. Essa percepção contém uma verdade: existem pessoas que praticam males terríveis e precisam ser responsabilizadas. Reconhecer a universalidade do pecado não diminui a culpa de quem planejou e executou os atentados.
Jesus, porém, impede que observemos o mal apenas do lado de fora. Em Marcos 7:20-23, ele ensina que homicídios, enganos, orgulho e perversidades procedem do coração humano. Tiago também pergunta de onde vêm as guerras e os conflitos e aponta para os desejos que guerreiam dentro de nós (Tiago 4:1).
O terrorismo representa uma manifestação extrema dessa corrupção. Mas a semente que desumaniza o próximo pode aparecer em ambientes muito mais próximos: na intolerância religiosa, no racismo, na violência política, na hostilidade familiar e no prazer de ver o adversário humilhado.

João Calvino afirmou que o coração humano é uma permanente fábrica de ídolos. Quando religião, nação, partido, ideologia ou poder ocupa o lugar de Deus, pessoas passam a ser sacrificadas em seu altar. O problema não começa quando um avião é transformado em arma. Começa quando outro ser humano deixa de ser percebido como alguém criado à imagem de Deus.
Justiça não significa vingança
Uma leitura cristã do 11 de Setembro não pode tratar justiça e perdão como se fossem incompatíveis. A Bíblia atribui às autoridades a responsabilidade de conter o mal, proteger os inocentes e responsabilizar quem pratica crimes. Romanos 13:1-4 reconhece essa função pública do Estado.
Perdoar não significa chamar o mal de bem, apagar a memória das vítimas ou impedir que criminosos respondam por seus atos. Justiça e vingança, entretanto, não são a mesma coisa. A justiça procura limitar o mal e preservar a vida. A vingança deseja devolver sofrimento e frequentemente amplia a culpa de indivíduos para povos inteiros.
Depois dos atentados, o medo passou a influenciar políticas, guerras, relações internacionais e a maneira como milhões de pessoas enxergavam seus vizinhos. Na tentativa de enfrentar um inimigo real, novos preconceitos e novas violências também foram produzidos.
É nesse ponto que a advertência de Paulo permanece urgente: “Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem” (Romanos 12:21, NAA). Combater o mal reproduzindo sua lógica significa permitir que ele também determine aquilo em que nos transformaremos.

O escândalo de amar inimigos
Jesus levou essa questão ao ponto mais difícil: “Amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês” (Mateus 5:44, NAA).
Amar o inimigo não é sentir simpatia pelo terrorista nem ser indiferente ao sofrimento das vítimas. Também não é abandonar a busca por justiça. É recusar-se a retirar do outro sua condição humana e a entregar o próprio coração ao domínio do ódio.
Podemos desejar que um criminoso seja contido e responsabilizado e, ao mesmo tempo, desejar que ele reconheça seu pecado, se arrependa e encontre misericórdia. O amor cristão não elimina a justiça; elimina o prazer na destruição do culpado.
Cristo não ensinou isso protegido da violência. Ele foi traído, humilhado, torturado e crucificado injustamente. Ainda assim, não respondeu ao pecado reproduzindo o pecado. Na cruz, a justiça de Deus não foi ignorada, mas satisfeita. E a misericórdia não foi oferecida sem custo: o próprio Filho de Deus suportou esse custo.
Como explica o teólogo anglicano John Stott em A Cruz de Cristo, o perdão não acontece porque Deus considera o pecado insignificante. Ele acontece porque Deus, em Cristo, assume o preço da reconciliação. A cruz revela simultaneamente a gravidade do mal e a profundidade da graça.

As torres mais próximas de nós
Talvez nunca estejamos envolvidos em um conflito internacional. Ainda assim, a lógica que sustenta a violência pode habitar nossas palavras, escolhas e relações.
Ela aparece quando reduzimos alguém a um rótulo político; quando espalhamos uma acusação sem verificar se é verdadeira; quando tratamos o adversário como se sua derrota não bastasse e sua humilhação fosse necessária; ou quando usamos o nome de Deus para justificar aquilo que Cristo condenaria.
O 11 de Setembro nos obriga a perguntar não apenas por que aqueles homens foram capazes de tamanho horror, mas também quais formas de inimizade temos alimentado dentro de nós.
Governos podem reforçar fronteiras. Aeroportos podem aperfeiçoar a segurança. Exércitos podem neutralizar ameaças. Essas medidas podem ser necessárias, mas nenhuma delas produz o que a Bíblia chama de paz. Elas podem conter atos violentos, mas não podem reconciliar o ser humano com Deus nem com o próximo.

Cristo é a nossa paz
Paulo declara em Efésios 2:14: “Porque ele é a nossa paz”. Cristo não veio apenas ensinar pessoas hostis a se comportarem melhor. Ele veio formar, por meio da cruz, uma nova humanidade reconciliada com Deus.
Vinte e cinco anos depois, as imagens do 11 de Setembro continuam recordando quanto o ser humano é vulnerável. Torres caem. Impérios passam. Sistemas de segurança falham. O poder pode adiar ameaças, mas não pode nos salvar do pecado e da morte.
O Evangelho anuncia que o Filho de Deus entrou neste mundo violento e recebeu sobre si a violência de pecadores. E, em vez de destruir seus inimigos, morreu para reconciliá-los com Deus. Ressuscitou, venceu a morte e oferece uma paz que não depende da ausência de conflitos, mas de sua presença soberana.
O mundo não será curado apenas quando os terroristas forem vencidos. Cada um de nós precisa reconhecer o terror que o pecado produz em seu próprio coração. Precisamos abandonar o ódio, pedir perdão e nos render a Cristo.
Vinte e cinco anos depois, o ódio ainda derruba torres. Mas o Evangelho continua reconstruindo pessoas.









