11 de setembro: 25 anos depois, o ódio ainda derruba torres

11 de setembro: 25 anos depois, o ódio ainda derruba torresHá acontecimentos que dividem a história entre antes e depois. O 11 de Setembro é um deles. Na manhã de 11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por 19 terroristas ligados à Al-Qaeda. Dois atingiram as Torres Gêmeas, em Nova York; outro foi lançado contra o Pentágono; e o quarto caiu na Pensilvânia. Quase 3 mil pessoas morreram.

As imagens dos prédios em chamas, das pessoas correndo pelas ruas e das torres desabando foram transmitidas ao vivo. Em poucas horas, o mundo percebeu que sua sensação de segurança também poderia cair.

Vinte e cinco anos depois, o planeta está mais vigiado, armado e tecnologicamente preparado. Ainda assim, guerras, perseguições, terrorismo, intolerância e discursos de ódio permanecem entre nós. O 11 de Setembro mudou fronteiras, aeroportos, governos e estratégias militares, mas não conseguiu mudar o coração humano.

E talvez seja justamente essa a principal lição espiritual daquela tragédia: podemos construir sistemas capazes de localizar inimigos, mas nenhum sistema humano consegue retirar de nós a raiz da inimizade.

O mal começa no coração

Diante de uma atrocidade como o 11 de Setembro, somos tentados a imaginar o mal como uma realidade distante, encontrada apenas em terroristas, ditadores e criminosos. Essa percepção contém uma verdade: existem pessoas que praticam males terríveis e precisam ser responsabilizadas. Reconhecer a universalidade do pecado não diminui a culpa de quem planejou e executou os atentados.

Jesus, porém, impede que observemos o mal apenas do lado de fora. Em Marcos 7:20-23, ele ensina que homicídios, enganos, orgulho e perversidades procedem do coração humano. Tiago também pergunta de onde vêm as guerras e os conflitos e aponta para os desejos que guerreiam dentro de nós (Tiago 4:1).

O terrorismo representa uma manifestação extrema dessa corrupção. Mas a semente que desumaniza o próximo pode aparecer em ambientes muito mais próximos: na intolerância religiosa, no racismo, na violência política, na hostilidade familiar e no prazer de ver o adversário humilhado.

Mulher com seu cachorro observa homenagem às vítimas do 11 de Setembro
Mulher observa uma homenagem ao 11 de Setembro; a tragédia também convida cada pessoa a examinar o próprio coração. (Jntman5621/Wikimedia Commons – CC BY-SA 4.0)

João Calvino afirmou que o coração humano é uma permanente fábrica de ídolos. Quando religião, nação, partido, ideologia ou poder ocupa o lugar de Deus, pessoas passam a ser sacrificadas em seu altar. O problema não começa quando um avião é transformado em arma. Começa quando outro ser humano deixa de ser percebido como alguém criado à imagem de Deus.

Justiça não significa vingança

Uma leitura cristã do 11 de Setembro não pode tratar justiça e perdão como se fossem incompatíveis. A Bíblia atribui às autoridades a responsabilidade de conter o mal, proteger os inocentes e responsabilizar quem pratica crimes. Romanos 13:1-4 reconhece essa função pública do Estado.

Perdoar não significa chamar o mal de bem, apagar a memória das vítimas ou impedir que criminosos respondam por seus atos. Justiça e vingança, entretanto, não são a mesma coisa. A justiça procura limitar o mal e preservar a vida. A vingança deseja devolver sofrimento e frequentemente amplia a culpa de indivíduos para povos inteiros.

Depois dos atentados, o medo passou a influenciar políticas, guerras, relações internacionais e a maneira como milhões de pessoas enxergavam seus vizinhos. Na tentativa de enfrentar um inimigo real, novos preconceitos e novas violências também foram produzidos.

É nesse ponto que a advertência de Paulo permanece urgente: “Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem” (Romanos 12:21, NAA). Combater o mal reproduzindo sua lógica significa permitir que ele também determine aquilo em que nos transformaremos.

Bancos iluminados no Memorial do Pentágono em homenagem às vítimas do 11 de Setembro
Memorial do Pentágono homenageia as 184 pessoas mortas no edifício e no voo 77 durante os atentados de 11 de Setembro. (Brien Aho/U.S. Navy – domínio público)

O escândalo de amar inimigos

Jesus levou essa questão ao ponto mais difícil: “Amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês” (Mateus 5:44, NAA).

Amar o inimigo não é sentir simpatia pelo terrorista nem ser indiferente ao sofrimento das vítimas. Também não é abandonar a busca por justiça. É recusar-se a retirar do outro sua condição humana e a entregar o próprio coração ao domínio do ódio.

Podemos desejar que um criminoso seja contido e responsabilizado e, ao mesmo tempo, desejar que ele reconheça seu pecado, se arrependa e encontre misericórdia. O amor cristão não elimina a justiça; elimina o prazer na destruição do culpado.

Cristo não ensinou isso protegido da violência. Ele foi traído, humilhado, torturado e crucificado injustamente. Ainda assim, não respondeu ao pecado reproduzindo o pecado. Na cruz, a justiça de Deus não foi ignorada, mas satisfeita. E a misericórdia não foi oferecida sem custo: o próprio Filho de Deus suportou esse custo.

Como explica o teólogo anglicano John Stott em A Cruz de Cristo, o perdão não acontece porque Deus considera o pecado insignificante. Ele acontece porque Deus, em Cristo, assume o preço da reconciliação. A cruz revela simultaneamente a gravidade do mal e a profundidade da graça.

Trinity Church em Manhattan com os feixes do Tribute in Light ao fundo
A Trinity Church, em Nova York, aparece diante das luzes que recordam as Torres Gêmeas; o Evangelho chama os cristãos a responder ao ódio sem reproduzir sua lógica. (Mjkyang/Wikimedia Commons – CC BY-SA 4.0)

As torres mais próximas de nós

Talvez nunca estejamos envolvidos em um conflito internacional. Ainda assim, a lógica que sustenta a violência pode habitar nossas palavras, escolhas e relações.

Ela aparece quando reduzimos alguém a um rótulo político; quando espalhamos uma acusação sem verificar se é verdadeira; quando tratamos o adversário como se sua derrota não bastasse e sua humilhação fosse necessária; ou quando usamos o nome de Deus para justificar aquilo que Cristo condenaria.

O 11 de Setembro nos obriga a perguntar não apenas por que aqueles homens foram capazes de tamanho horror, mas também quais formas de inimizade temos alimentado dentro de nós.

Governos podem reforçar fronteiras. Aeroportos podem aperfeiçoar a segurança. Exércitos podem neutralizar ameaças. Essas medidas podem ser necessárias, mas nenhuma delas produz o que a Bíblia chama de paz. Elas podem conter atos violentos, mas não podem reconciliar o ser humano com Deus nem com o próximo.

Árvore Sobrevivente com ramos antigos e novos no Memorial do 11 de Setembro em Nova York
Recuperada dos escombros do World Trade Center, a Árvore Sobrevivente apresenta novos ramos e tornou-se símbolo de resistência e renovação. (PumpkinSky/Wikimedia Commons – CC BY-SA 3.0)

Cristo é a nossa paz

Paulo declara em Efésios 2:14: “Porque ele é a nossa paz”. Cristo não veio apenas ensinar pessoas hostis a se comportarem melhor. Ele veio formar, por meio da cruz, uma nova humanidade reconciliada com Deus.

Vinte e cinco anos depois, as imagens do 11 de Setembro continuam recordando quanto o ser humano é vulnerável. Torres caem. Impérios passam. Sistemas de segurança falham. O poder pode adiar ameaças, mas não pode nos salvar do pecado e da morte.

O Evangelho anuncia que o Filho de Deus entrou neste mundo violento e recebeu sobre si a violência de pecadores. E, em vez de destruir seus inimigos, morreu para reconciliá-los com Deus. Ressuscitou, venceu a morte e oferece uma paz que não depende da ausência de conflitos, mas de sua presença soberana.

O mundo não será curado apenas quando os terroristas forem vencidos. Cada um de nós precisa reconhecer o terror que o pecado produz em seu próprio coração. Precisamos abandonar o ódio, pedir perdão e nos render a Cristo.

Vinte e cinco anos depois, o ódio ainda derruba torres. Mas o Evangelho continua reconstruindo pessoas.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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