No xadrez político capixaba, poucas figuras sabem mover as peças no momento certo com a precisão de Paulo Hartung. Ainda que ele seja a peça, e que tenha que sair bem do jogo.
Dono de um retrospecto invejável — governou o Estado por três mandatos e ostenta o feito de ter vencido todas as oito eleições que disputou —, o ex-governador ensaia um retorno à cena eleitoral de 2026. É verdade que, por enquanto, trata-se de uma presença discreta, pautada por vídeos reflexivos e declarações conceituais que evitam mergulhar fundo no calor do debate local. No entanto, em política, o silêncio e as entrelinhas costumam dizer muito mais do que os discursos inflamados no palanque.
Vale relembrar que PH ensaiou concorrer: se filiou ao PSD, fez pesquisa, caminhou pelo Espírito Santo e conversou com lideranças. Mas as coisas não seguiram como projetou e, por nunca ter anunciado interesse de disputar, se recolheu sutilmente.
Uma imagem que fala
A coluna Bastidores, na edição de 4 de setembro, já havia antecipado essa movimentação ao registrar a aproximação de PH com a campanha do deputado federal Evair de Melo (Republicanos) ao Senado. As raízes dessa ligação não são de hoje: remontam ao período entre 2009 e 2014, quando Evair esteve à frente do Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural), nomeado justamente durante o segundo mandato de Hartung no Palácio Anchieta.
Na prática, embora Paulo Hartung ainda não tenha feito uma declaração ostensiva de voto, a autorização para o uso de sua imagem ao lado da família de Evair de Melo em materiais de campanha funciona como um “visto de conformidade” de alto valor simbólico.
No período pré-campanha, com o Republicanos de Evair e o seu PSD – cuja presidência é de Renzo Vasconcelos, prefeito de Colatina -, seguiram juntos. A entrada do PL para uma trinca partidária jogou à escanteia do PSD. Ele, portanto, esperou os ânimos acalmarem e anunciou que não era dessa vez seu retorno. A última eleição que disputou foi em 2014, quando venceu e voltou ao Palácio Anchieta.
Conclamação da sociedade
Paralelamente a esses acenos de bastidor, a postura pública de Hartung nas redes sociais tem priorizado um tom pedagógico e suprapartidário. Em sua manifestação mais recente sobre o cenário eleitoral, o ex-governador evitou a polarização rasteira e focou na necessidade do engajamento democrático. PH conclamou a sociedade a não “jogar a toalha” diante dos solavancos da política nacional, defendendo que os cidadãos precisam descruzar os braços, ocupar seus espaços e agir. “A política é uma ferramenta que a gente não pode abandonar. A gente tem que ficar longe é da politicagem, e não da política”, resumiu.
Esse posicionamento calculado cumpre um duplo papel. Por um lado, mantém Paulo Hartung como uma espécie de fiador institucional e voz da razão em tempos de forte ruído partidário; por outro, sinaliza que, mesmo distante dos holofotes cotidianos da disputa, sua influência segue viva e pronta para pesar na balança de alianças estratégicas no Espírito Santo.










