Do toxicológico de 2026 à Ilha do Frade em 2014: por que o ataque pessoal nem sempre vira voto?

O cenário político capixaba ferve nos bastidores, mas a superfície das redes sociais e dos debates entrega o que o eleitorado já conhece bem: a guerrilha das insinuações. Nos últimos dias, uma declaração do governador e candidato à reeleição, Ricardo Ferraço (MDB), de que “não tem como você ser uma pessoa na vida pessoal e outra na vida pública” disparou um efeito dominó de reações ácidas. A tréplica veio em tom de provocação, com sugestões de que candidatos ao governo deveriam passar por exames toxicológicos.

Nesse jogo de sombras, onde nomes como o de Lorenzo Pazolini (Republicanos) e do próprio Ferraço são colocados em xeque sem provas concretas, o objetivo não é a verdade jurídica, mas a colonização do imaginário do eleitor. É a tática de esticar a corda da imaginação popular para que cada um complete a lacuna com o pior cenário possível sobre o adversário.

No entanto, a história política do Espírito Santo guarda um alerta incômodo para os estrategistas de plantão: o ataque pessoal e a fofoca de bastidor, quando desconectados do sentimento real das ruas, costumam produzir o efeito inverso.

O fantasma de 2014: a Ilha do Frade e o terreno de Aracê

Para entender o presente, o arquivo de 2014 é pedagógico. Naquela eleição, a campanha de Renato Casagrande (PSB), então governador que tentava a reeleição, mirou pesado no patrimônio de Paulo Hartung (na época PMDB e hoje PSD). O bombardeio girou em torno de supostas omissões na declaração de bens entregue ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-ES).

As denúncias apontavam para dois alvos principais:

  • O imóvel na Ilha do Frade: Uma propriedade de alto padrão em Vitória, registrada no nome da esposa de Hartung.

  • O terreno em Domingos Martins: Uma área de mais de 2.100 metros quadrados no distrito de Aracê, região Serrana do estado.

A coligação governista tentou transformar os imóveis no símbolo de uma suposta falta de transparência do ex-governador. A militância alimentou o imaginário, as manchetes se dividiram e o debate parecia centralizado ali.

O julgamento das urnas

A resposta do eleitor capixaba veio de forma avassaladora e contrariou a lógica dos ataques: Paulo Hartung foi eleito no primeiro turno com 53,44% dos votos válidos (pouco mais de 1 milhão de votos). Renato Casagrande, mesmo com a máquina na mão e a narrativa dos imóveis, amargou a derrota com 39,34%.

A estratégia de desconstrução patrimonial falhou porque colidiu com uma barreira invisível, mas intransponível: a percepção de recall administrativa que o eleitorado tinha de Hartung e o desejo de mudança daquela conjuntura.

“Eleitor é gente, e gente sente”

O desfecho de 2014 e o termômetro de 2026 nos lembram de uma premissa básica do marketing eleitoral. Como bem define o marqueteiro político e colunista de ES Hoje, Fernando Carreiro, no artigo “O eleitor não se emociona com concreto”, o processo de escolha nas urnas é profundamente humano.

“O eleitor não chega a uma campanha esperando explicações, mas carregando lembranças, sentimentos e desejos. O cérebro humano registra muito mais facilmente personagens do que estatísticas, rostos do que relatórios, histórias do que gráficos. O concreto constrói cidades. A emoção constrói memória.” — Fernando Carreiro

Quando campanhas optam pelo ataque difuso — seja o questionamento patrimonial de uma década atrás ou a insinuação sobre exames toxicológicos hoje —, elas flertam com o cansaço do eleitor. Se a acusação não encontra eco em uma frustração real e cotidiana do cidadão (como a fila do hospital ou o preço da passagem), ela é digerida apenas como “briga de políticos”.

O que esperar do embate entre MDB e Republicanos?

A atual troca de farpas entre o grupo de Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini dita o ritmo do jogo psicológico. Para os apoiadores, fomentar o pior cenário sobre o rival é a missão diária no WhatsApp e no Instagram.

Contudo, a história mostra que o eleitor capixaba costuma punir o excesso de fumaça quando não há fogo. Estratégias são determinantes, mas elas precisam de aderência popular. Sem o sentimento das ruas para amparar a narrativa, o veneno da acusação pode, mais uma vez, virar o remédio do acusado.

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