Vivemos dias sombrios. Uma fase esquisita de descrédito e falta de legitimidade especialmente quando pensamos na política nossa do dia a dia.

Longe de mim querer exigir sentimento diferente do cidadão brasileiro. Afinal são tantos os escândalos que de forma massacrante são noticiados todos os dias, que fica fácil compreender o sentimento de insatisfação e irritação da sociedade.

Essa irritação é perigosa para a democracia pois pode abrir a porta para visões extremistas de toda ordem.

Na minha visão, o maior problema da política tradicional é o patrimonialismo. Pessoas que entram na vida pública para se servir ou patrocinar interesses de empresas ou corporações, claramente desvinculados dos interesses da coletividade.

Oportunistas e carreiristas, da direita e da esquerda, que olham para a vida pública apenas como uma chance para seguir uma carreira de forma burocrática, sem vocação, como um simples emprego. Traficam influência, beneficiam financiadores de campanhas, empregam parentes, ou seja, não há neles qualquer compromisso ou senso de cumprimento de uma missão nobre e necessária para qualquer sociedade civilizada.

Isso não pode ter espaço no que se pode chamar de Política – assim mesmo com “P” maiúsculo.

Por causa disso, o descrédito é grande e abre espaço para ataques à democracia e propostas que passam longe do bom senso.

De antemão, devemos ter em mente que não há solução para nossos desafios que não passe pela Política. Sim, negar a Política como ferramenta imprescindível para um mundo civilizado, constitui um grave erro que não podemos nos dar ao luxo de cometê-lo.

Se não estamos satisfeitos com tudo que estamos vendo e com as opções que se apresentam, vamos propor novas ideias, fazer outras escolhas, adotar novas posturas e preservar os valores que fazem parte da tradição democrática.

Independentemente de qualquer ideologia, a verdade é que todos temos interesse na manutenção da paz social, no respeito à liberdade dos cidadãos e no funcionamento independente e harmônico das instituições.

É preciso ter equilíbrio, evitar muitas vezes o que predomina na opinião pública e exercer o senso crítico de forma racional e menos contaminada pelo pensamento predominante.

Como lembra Pondé, não podemos trocar o conhecimento e nossa capacidade de reflexão pelo que predomina na opinião pública.
Outra reflexão evidente, mas que faço questão de relembrar, é que fazer política não necessariamente significa disputar eleições, filiar-se à partidos políticos, etc.

Pessoas relevantes passaram suas vidas discutindo e fazendo política sem nunca terem figurado em urnas eletrônicas ou cédulas eleitorais.
Política se faz em qualquer espaço, inclusive, claro, disputando eleições.

O mais importante de tudo isso, ao meu ver, é a retomada da disposição para o diálogo, sem amarras ideológicas, sem os freios impostos por interesses nem sempre nobres e democráticos e com a possibilidade de ouvir e de se fazer ouvir.

André Garcia, ex-secretário estadual de Segurança Pública do Espírito Santo

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