A enchente de 1979, ocorrida no Espírito Santo, se deu margem a sofrimento indescritível, nos legou, pela mente do então Arcebispo, Dom João Batista da Mota e Albuquerque, a lição positiva embutida na frase “só o povo salva o povo”.

         Fiquei a pensar sobre ela há poucos dias, lendo em um jornal inglês que, com os cortes impostos ao orçamento da polícia, e bem assim diante da redução do seu quadro de pessoal, pessoas do povo estão indo às ruas, câmeras às mãos, registrando infrações e denunciando-as pelas delegacias e juizados.

         Na Índia, 55.035 professores voluntários, apoiados pelo jornal “The Times of India”, decidiram disponibilizar duas horas de suas vidas por semana, buscando retirar das garras do analfabetismo 42 milhões de crianças entre seis e dez anos de idade, que simplesmente não frequentam escola alguma – estão largadas à margem do Estado.

         Na África, nada menos que 90% dos tratamentos dispensados aos portadores de HIV são custeados por fontes externas, sem a participação dos governos locais. Pelo planeta afora, 40% de todos os tratamentos de saúde são proporcionados por voluntários ligados a organizações religiosas.

         Em 2012, e já que os Estados – aqueles dos desperdícios e gastos supérfluos – não conseguem proporcionar sequer um sistema digno de saúde aos seus filhos, uma única entidade, a “Médicos Sem Fronteiras”, forneceu 8.316.000 consultas ambulatoriais, atendeu 472.000 pacientes internados, tratou 1.642.800 casos de malária, levou a termo 784.500 consultas de pré-natal, vacinou 690.700 pessoas contra o sarampo e 496.000 contra meningite, realizou 78.500 procedimentos cirúrgicos, e por tal trilha seguimos. Doeu, enquanto ser humano, ler que além disso tudo distribuíram 197 milhões de litros de água. Nem água o povo recebia! Nem água!

         Na Holanda, por conta de carências históricas, não solucionadas pelos governos, 40% da população participam de trabalho voluntário. No Vietnam, essas pessoas são mais de 1,5 milhão – só no verão de 2011 construíram 144 casas para pobres, repararam 421 outras, e forneceram exames, tratamentos e medicamentos para 68 mil pessoas.

         No mundo todo, um estudo da Universidade John Hopkins estima em 140 milhões o número de pessoas que fazem trabalho voluntário. O relatório final estima que a contribuição econômica desses voluntários representa US$ 400 bilhões por ano, o que equivale, em média, a 1,1% do PIB nos 36 países avaliados.

         Vamos, agora, a alguns casos específicos profundamente significativos, decorrentes da inoperância oficial. Na Libéria, cidadãos reconstruíram com as próprias mãos uma rodovia de quase 40 km de extensão. Nos EUA, Ron Chane, morador do Mississipi, acabou conhecido como o “Robin Hood dos buracos”, após furtar asfalto para tapar centenas de crateras pelas ruas de sua cidade.

         Enquanto isso, as estruturas que comandam o planeta seguem firme na alegre gastança dos nossos recursos. Assim, apenas para ficar em alguns poucos exemplos, ao final de um ano típico, por dia, cada vaca europeia terá recebido US$ 3 em subsídios, cada cidadão brasileiro terá perdido US$ 1,83 com a corrupção e outros US$ 6,70 em desperdícios diversos, e cada norte-americano terá gasto US$ 7,37 para socorrer bancos e empresas em dificuldades.

         Vamos a mais um número: somente dos países pobres a corrupção desvia inacreditáveis US$ 1 trilhão a cada ano – 2,5 vezes o valor do trabalho dos voluntários, pessoas que largam seus afazeres em uma demonstração de apreço pela raça humana.

         Diante desta realidade, só resta àqueles semelhantes nossos abandonados em um mundo de dor e tormento lembrar a famosa frase de Lothar Schmidt: “O que nos dá a Administração? A Administração nos dá o que pensar”.

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