Fábio Junger*

A crise de recursos hídricos continua no Sudeste do país. Desde o ano passado, atingiu em cheio a Grande Vitória, onde o racionamento chegou a ser estabelecido. Os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro já haviam sido atingidos pelo longo período de estiagem e consequente baixa do nível dos reservatórios. O Rio Jucu sofre com a falta de chuvas e o esgoto jogado diretamente em suas águas, sem qualquer tratamento.

A construção de uma represa entre os municípios de Viana e Domingos Martins no rio foi anunciada pelo Governo de Paulo Hartung em março deste ano. A barragem servirá para armazenar água para o abastecimento da Grande Vitória. Haverá ainda uma barragem em Marilândia.

O governo é questionado a todo o momento sobre como a situação chegou até esse ponto. A resposta não é tão misteriosa assim. O investimento na diversificação da plataforma energética do País, gerando alternativas de produção mais baratas e limpas, como a eólica, solar e a bioenergia continuou baixo; programas para a educação dos produtores rurais quanto à necessidade de preservação das nascentes, de não desmatar as margens dos rios, evitando a erosão e o assoreamento – dois dos principais problemas, inclusive, do Rio Doce, que abastece os estados do Espírito Santo e Minas Gerais – foram poucos ou deixados para ONGs.

A conservação e manutenção das redes de distribuição de água, que desperdiçam entre 20% e 40% da água captada para o consumo, projetos para despoluição de rios, tratamento integral da água consumida para reutilização, além da destinação correta de resíduos domésticos e industriais também foram levados no ritmo da vantagem política.

Tratamos antigos problemas ambientais, advindos do crescimento descontrolado das cidades e da industrialização, como novidades que nunca foram discutidas e que podem ser resolvidas com o mínimo de planejamento e investimento possível. Mas é preciso compartilhar as responsabilidades. Nós, consumidores comuns, temos de fato que mudar nossos hábitos de forma permanente, com consciência de que a crise é mais um de tantos indícios das mudanças climáticas acentuadas que estão ocorrendo no planeta.

No Espírito Santo, onde restam apenas cerca de 10% da cobertura original da Mata Atlântica, um Termo de Cooperação foi firmado em 2015 entre uma grande produtora de aço de Serra e o Instituto Terra, para a recuperação e conservação de mais de mil nascentes na porção capixaba do Vale do Rio Doce. Assinado também pelo governador Paulo Hartung, envolverá 500 propriedades rurais com monitoramento quali-quantitativo da água em outras 200 nascentes e criação de viveiro de mudas da Mata Atlântica para recuperar áreas degradadas no Vale do Rio Doce.

O mau uso do solo em toda a extensão da bacia do Rio Doce é apontado por ambientalistas capixabas como o principal motivo da seca no Espírito Santo. Sem mata ciliar, terra e areia são levados para dentro do rio quando chove, causando o assoreamento. O processo correto seria, com a vegetação, a água ser filtrada pelo solo e permanecer no sistema da bacia, debaixo do solo, e aos poucos alimentar o rio.

Por isso projetos de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas tornam-se cada vez mais importantes. Nossas casas e apartamentos também podem ser pequenos refúgios verdes. Há muito que se pode fazer para diminuir os efeitos da crise hídrica e, há longo prazo, garantir fornecimento de água e energia e uma boa qualidade de vida para as futuras gerações.

*Fábio Junger é diretor comercial da Emec, empresa do ramo de recuperação de áreas degradadas e destinação de resíduos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *