Um tema atualmente recorrente tem sido a crise (política, econômica, moral, etc.). A forma de analisar esta temática é deveras complexa, até mesmo pelo simples fato de tratar-se como crise algo que, par excellence, não é. Não é difícil escutarmos os avoengos jargões como, por exemplo, “no meu tempo não era assim” ou “hoje está tudo perdido, em crise”. Eis a fonte de discursos de intolerância e ódio, pelo simples fato destas pessoas criarem um sulfúrico cenário de crise e, como não creem em si mesmas, depositam sua fé em um salvador da pátria, um mito – que nunca existiu ou existirá. A lógica é simples: se antes era melhor, porque não manteve-se a constância? Afinal, salvo raríssimos casos, ninguém gosta de uma regressão generalizada.

Este discurso anacrônico do “antes era melhor” atinge com um letal impacto as jovens gerações, ao passo que chegam a nutrir uma nostalgia por algo não vivido e, em muitos casos, sequer verídico – o que, para alguns, chama-se tradição. Este discurso de crise generalizada geralmente não é propositivo. Até mesmo em algumas linhas de pesquisa universitária, ao abordarem a “crise da democracia”, apostam na cultura política e na formação histórica do país como a invariável depositária de todas as cômodas culpas. O que muda entre doutos e leigos, é que os primeiros possuem maior facilidade para localizar o problema do que os últimos, ao passo que a solução é tímida para ambos.

Normalmente a justificativa ordinária para sustentar estes falaciosos discursos consiste na experiência pessoal. A lógica é a seguinte: quanto mais elevada é a idade, mais experiência há; entretanto, a proporção desta suposta “experiência” está diretamente relacionada aos elevados níveis de intolerância e indisposição ao diálogo. Por sua natureza severamente limitada, este extrato social (das mais variadas classes), tende a procurar um culpado, um álibi, alguém para carregar toda a sua irresponsabilidade sociopolítica.

Os limitadíssimos discursos de crise (sim, o superlativo é justificável), possuem um corolário de imagens, vídeos e adágios, todos prontos para serem disseminados na velocidade de um clique. Será que estas pessoas estão cientes do lúgubre mal que estão cometendo? O dogmático moralismo em voga possui suas absortas raízes justamente nesta idiossincrasia contemporânea, a qual pode ser resumida em: quanto pior a “crise”, mais mercado haverá para os pregadores da moral e dos bons costumes (fazendo, muitas vezes, vistas grossas ao seu próprio hedonismo).

A arrogância do ego, inflamada ao extremo por meio de jargões como “estas gerações mais jovens estão perdidas”, nada mais é do que assumir sua irresponsabilidade social enquanto cidadãos, delegando-a para as gerações futuras. Se há uma crise, de fato, ela concentra-se na propagação de discursos pessimistas em relação à sociedade, à confiança mútua, e à educação. Prova disto é a aclamada judicialização das instâncias do povo (o Congresso Nacional, por exemplo) e, o que é ainda mais irracional, que alguns queiram uma intervenção militar em uma democracia tão insipiente como a brasileira.

Para tais discursos prontos, o que não falta são adeptos e indiferentes. Ademais, a estratégia dos regimes totalitários consistiu, em grande parte, no incentivo de um discurso de crise generalizada para, em seguida, apresentarem-se os salvadores da nação. Sabemos como regimes nazifascistas acabaram… Não seria de todo mal uma reflexão neste sentido, não concorda caro leitor? Entrementes, o veículo responsável pela propagação destes discursos, na maioria dos casos, consiste em Whatsapp e Facebook. Note-se que há uma constante evolução em termos tecnológicos, abrangendo áreas das engenharias à medicina, porém, parece haver uma resistência maior quando se trata de termos sociopolíticos.

Não se nega a existência das mais variadas crises, mas o que se contesta é a propagação exponencial de discursos falaciosos, bem como assimilados sem a menor compreensão e profundidade analítica.  Tem em mente quem são estas pessoas e a nocividade sociopolítica que elas representam já é um bom começo. Dito isto, pode-se concluir que não há um “juiz messias”, um “mito” ou um “salvador da pátria”, o que há são cidadãos que precisam ser conscientizados do seu papel na sociedade. Ademais, a solução está justamente na responsabilidade individual que cada um de nós possui, bem como na credibilidade e consolidação de instituições verdadeiramente democráticas.

Marconi Severo
Cientista Social & Político

Cometários

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