As relações pessoais e profissionais do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, com ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) têm marcado a condução do caso na corte. Mensagens extraídas pela PF (Polícia Federal) do celular de Vorcaro e documentos apontam contatos com cinco magistrados.
Dias Toffoli, primeiro relator do caso, deixou a condução do processo em março após a PF encaminhar um relatório ao presidente da corte, Edson Fachin, sobre transferências financeiras entre empresa de sua família e fundos ligados ao Master.
Na terça (15), o ministro Kassio Nunes Marques declarou-se suspeito e também deixou de votar num julgamento do caso, após novos diálogos citarem pagamentos a seu filho articulados por Vorcaro.
Alexandre de Moraes, André Mendonça e Luiz Fux completam a lista de ministros citados.
Veja abaixo as relações de ministros do STF com o caso Master.
ALEXANDRE DE MORAES
Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o país dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal, segundo mensagens analisadas pela corporação. Em 15 de novembro de 2025, um sábado, o banqueiro teria enviado: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Na segunda-feira (17), ele foi preso quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta.
Segundo análise da Polícia Federal, Moraes também fez edições em contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master antes de o documento ser assinado.
O ministro e o dono do Master teriam conversado no dia da primeira prisão do ex-banqueiro, 17 de novembro de 2025.
Vorcaro teria perguntado, na manhã em que foi detido, se o ministro tinha “alguma novidade”. “Conseguiu bloquear?”, questiona o dono do Master. Moraes teria respondido com mensagens de texto convertidas em imagens com visualização única. O ministro nega a comunicação e afirma se tratar de “ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal”.
Documentos obtidos e revelados pela Folha de S.Paulo ainda indicam que Moraes e Viviane Barci viajaram em jatos de empresas de Vorcaro ou ligadas a ele entre maio e outubro de 2025.
ANDRÉ MENDONÇA
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro apontam que Mendonça e o ex-banqueiro teriam se encontrado por cerca de duas horas em 14 de março de 2025, em encontro articulado por um advogado e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).
Cezinha avisou Vorcaro no dia anterior: “Amanhã sexta feira 17:00 com ministro André em São Paulo”. Vorcaro respondeu “Show” e “Marcado”. No dia seguinte, escreveu: “Fala amigo” e “Estou a caminho”. Cezinha respondeu: “Ministro já está te esperando”.
Mendonça só confirmou o encontro publicamente em 2 de setembro de 2026. Segundo ele, a conversa durou de 20 a 30 minutos e tratou de precatórios do Master.
Vorcaro também foi convidado pelo menos duas vezes para eventos do Instituto Iter, fundado por Mendonça, incluindo um debate restrito no Hotel Fasano, em Belo Horizonte. Não há confirmação de que o ex-banqueiro tenha comparecido.
Em 3 de setembro deste ano, Mendonça anunciou sua saída da sociedade do Iter, cedendo suas cotas sem contrapartida. Dias depois, o ministro Flávio Dino pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, uma investigação formal sobre os laços entre o Master e o instituto.
DIAS TOFFOLI
Sócio da empresa Maridt, com participações no resort Tayayá, Toffoli foi o primeiro relator do caso Master na corte. Sua atuação foi posta sob suspeita após decisões consideradas incomuns, entre elas o reconhecimento da competência do Supremo para o caso, a convocação de acareação com um diretor do Banco Central, a decretação de alto nível de sigilo e a nomeação de peritos por seu gabinete.
Deixou a relatoria depois de a PF encaminhar a Fachin um relatório sobre transferências financeiras entre a empresa de sua família e fundos ligados ao Master. A decisão de afastá-lo foi tomada em reunião secreta entre os ministros. Toffoli chegou a se defender no plenário, dizendo que “vários magistrados são donos de empresas”.
Documentos obtidos pela Folha indicam que o ministro também voou em avião de empresa que tinha Vorcaro como sócio, em julho de 2025.
KASSIO NUNES MARQUES
Vorcaro tratou, em mensagens, de pagamentos destinados ao advogado Kevin Marques, filho de Kassio, por meio da Consult Inteligência Tributária. As mensagens foram trocadas com Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, que falava em pagamentos mensais de R$ 500 mil.
Em 1º de outubro de 2024, Rennó repassou a Vorcaro a informação de que o STF havia decidido favoravelmente a uma destilaria que receberia indenização bilionária da União –setor de interesse do Master, que mantinha em seu balanço carteira de precatórios sucroalcooleiros estimada em R$ 10 bilhões. Kassio, que inicialmente se declarara impedido de votar, reviu a posição e desempatou o julgamento a favor da destilaria. Em seguida, Rennó enviou a Vorcaro um print dos contatos de Kevin Marques com a legenda “Dominado aqui”.
Em 4 de julho de 2025, Rennó voltou a tratar do assunto: “Esse aqui _ 500 mil mês – mantém? Kkkkkkkkk. Então esse aqui já era, né?”. Vorcaro respondeu: “Kkkkkkk”. Em 8 de agosto, Rennó mencionou novamente Kevin como um dos “pagamentos essenciais”.
Na sessão do STF de 15 de setembro, Kassio negou qualquer relação com o ex-banqueiro e disse que o filho nunca prestou serviço ao Master nem foi remunerado por ele, mas optou por não participar da votação sobre o caso.
Em nota, a assessoria de Kevin Marques afirmou que ele recebeu R$ 281,6 mil da Consult por serviços jurídicos tributários, sem qualquer relação com o STF. A assessoria do ministro afirmou ainda que, no caso da destilaria, Kassio estava inicialmente impedido por decisão tomada quando atuava no TRF-1, retificou a posição por entender se tratar de tese ampla, e que “o ministro nunca votou a favor do Banco Master, e o filho nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro”.
LUIX FUX
Mensagens mostram que Vorcaro era próximo do filho do ministro, Rodrigo Fux, também advogado, que em diferentes momentos tratava o ex-banqueiro como “irmão”. As conversas indicam que Rodrigo pediu que informações sobre um compromisso em Londres fossem enviadas à secretária de Fux no Supremo, usando endereço de email com domínio institucional do STF.
Houve também encontros presenciais entre os dois, incluindo uma reunião marcada em Brasília em março, precedida pelo aniversário do ministro Luís Roberto Barroso.
Na sessão de 15 de setembro, Fux disse, em tom indignado, que não há “mensagem comigo” e que “nunca vi esse cidadão na minha vida, nunca tive relação com ele”. Em nota, o escritório do filho do ministro afirmou que nunca advogou, prestou serviços ou recebeu valores de Vorcaro, do Master ou de empresas e fundos ligados ao grupo.
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)










