Operação Turquia: MPES arquiva acusação de delegado contra ex-chefe da PCES

O Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), por meio do 11º Promotor de Justiça de Vila Velha, Aloyr Dias Lacerda, determinou o arquivamento definitivo da Notícia de Fato Criminal (nº 2026.0009.5123-93) movida pelo delegado de Polícia Civil Alberto Roque Peres contra o ex-delegado-geral da instituição, José Darcy Santos Arruda. A representação acusava o ex-chefe de polícia de suposta prática de abuso de autoridade, prevaricação e coação após a eclosão da Operação Turquia — ação deflagrada pela Polícia Federal com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO-MPES).

O entrevero teve origem nas apurações da Operação Turquia, investigação que devassou um esquema estruturado de lavagem de dinheiro, corrupção e tráfico de drogas no Espírito Santo, envolvendo empresários, operadores financeiros e policiais civis. Na ocasião, Alberto Roque Peres atuou como testemunha e colaborador dos órgãos federais e ministeriais. O delegado acionou o Ministério Público e a Polícia Federal alegando que, após sua colaboração no caso, passou a sofrer retaliações, perseguições internas e acionamentos arbitrários junto aos órgãos correcionais por determinação direta de Darcy Arruda, então no comando da Polícia Civil capixaba.

A queixa-crime é uma ação penal privada, de iniciativa do ofendido, apresentada diretamente ao Poder Judiciário, por meio de advogado, não sendo um procedimento instaurado pela Polícia Civil.

Operação Turquia: MPES arquiva acusação de delegado contra ex-chefe da PCES
Delegado-geral José Darcy Arruda concedeu entrevista ao programa Fantástico na sexta-feira (27)

Repercussão nacional

Ao prestar esclarecimentos ao MPES, a defesa do ex-delegado-geral argumentou que o acionamento da Corregedoria-Geral da Polícia Civil não teve caráter punitivo ou de vingança pessoal, mas cumpriu estritamente o dever funcional de gestão. A medida foi tomada após uma entrevista concedida por Alberto Roque Peres ao programa “Fantástico”, da Rede Globo, na qual o subordinado afirmou publicamente que outro policial civil apontado na investigação seria o “maior traficante de drogas do Espírito Santo”.

Segundo Arruda, diante do impacto de imagem e da repercussão nacional das declarações, coube à Chefia de Polícia encaminhar uma Comunicação Interna (C.I. nº 034/2026) para que a Corregedoria apurasse o embasamento técnico de tais afirmações, além de verificar se houve omissão ou infração disciplinar do delegado ao expor os fatos na imprensa antes de formalizá-los por canais institucionais.

Decisão afasta dolo e confirma exercício regular de direito

Na fundamentação que selou o arquivamento da apuração, o promotor de Justiça Aloyr Dias Lacerda ponderou que a conduta de José Darcy Arruda não apresentou indícios de dolo, má-fé ou desvio de finalidade. De acordo com a decisão, o gestor público atuou dentro do exercício regular do direito e do dever legal de controle administrativo ao solicitar que o órgão correcional investigasse declarações de gravidade ímpar proferidas por um integrante da própria corporação.

O Ministério Público destacou ainda o disposto no art. 1º, § 2º, da Lei de Abuso de Autoridade, ressaltando que divergências na avaliação de fatos ou na oportunidade de instauração de procedimentos administrativos não configuram crime. Diante da ausência de elementos que sustentem a prática de infração penal ou ato ilícito por parte do ex-delegado-geral, o MPES encerrou o procedimento no âmbito estadual e determinou a cientificação das partes e da Ouvidoria do órgão.

Operação Turquia: MPES arquiva acusação de delegado contra ex-chefe da PCESRastro no sistema de segurança capixaba

A Operação Turquia colocou em xeque setores da segurança pública do Espírito Santo ao revelar a infiltração do crime organizado em estruturas estatais. Conduzida de forma integrada entre a Polícia Federal e o GAECO-MPES, a ação mirou redes de blindagem patrimonial, propinas e facilitação do trânsito de entorpecentes em território capixaba.

Os desdobramentos da operação geraram forte tensão nos bastidores da Polícia Civil, com a abertura de frentes de apuração paralelas na Corregedoria e atritos entre quadros da instituição.

A decisão do MPES ao arquivar a representação de Alberto Roque Peres traz estabilidade jurídica à conduta da antiga alta cúpula da PCES durante a gestão da crise, delimitando que o acompanhamento correcional das declarações públicas de policiais civis trata-se de obrigação institucional de transparência e controle interno.

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