Medicamento experimental reduz episódios de apneia durante o sono

Um medicamento experimental apresentou resultados promissores na redução de episódios de interrupção da respiração durante o sono em pessoas com apneia obstrutiva do sono, condição associada a problemas cardiovasculares, incluindo o acidente vascular cerebral (AVC).

Os resultados foram publicados no dia 20, na revista científica New England Journal of Medicine, a partir de dois estudos clínicos internacionais de fase 3, que reuniram 691 participantes. A pesquisa avaliou a retatrutida, substância investigada para o tratamento da obesidade e de doenças associadas.

Entre os participantes sem diabetes que receberam 9 miligramas semanais do medicamento, a redução média foi de 34,3 episódios de apneia ou hipopneia por hora de sono. No grupo que recebeu placebo, a queda foi de 9,9 episódios.

No estudo com pacientes com diabetes tipo 2, a redução chegou a 25,4 episódios por hora entre os participantes que receberam 12 miligramas da substância, enquanto no grupo placebo a diminuição foi de 10,3 episódios.

Os estudos acompanharam adultos com apneia moderada a grave e sobrepeso ou obesidade durante 80 semanas. Os resultados chamam a atenção para a relação entre qualidade do sono e saúde cardiovascular, especialmente nesta quinta-feira (29), Dia Mundial do AVC.

Apneia e risco cardiovascular

A apneia obstrutiva do sono é caracterizada por interrupções repetidas ou redução do fluxo de ar durante o sono. Esses episódios podem provocar quedas na oxigenação do sangue e alterações na pressão arterial, além de comprometer a qualidade do descanso.

Segundo a pneumologista Jéssica Polese, especialista em Medicina do Sono e vice-presidente da Associação Brasileira do Sono no Espírito Santo (ABSono-ES), a condição merece atenção porque nem sempre é diagnosticada.

“O Dia Mundial do AVC é uma oportunidade para lembrar que a prevenção também exige atenção a condições que muitas vezes passam despercebidas, como a apneia do sono. Não estamos falando apenas de ronco ou de noites mal dormidas. Durante o sono, essas interrupções respiratórias podem provocar quedas de oxigênio e alterações na pressão arterial”, explica.

A relação entre a apneia obstrutiva e problemas cardiovasculares também é reconhecida pela American Heart Association, entidade norte-americana que aponta associação da doença com maiores taxas de hipertensão, AVC e doença coronariana.

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 292 mil atendimentos por AVC em 2025, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde. Desse total, 218 mil foram relacionados ao tipo isquêmico, causado pela obstrução de vasos sanguíneos que irrigam o cérebro.

Medicamento ainda não está aprovado

Apesar dos resultados, a retatrutida ainda é uma substância experimental e não está aprovada para comercialização em nenhum país.

Em 14 de outubro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a apreensão e proibiu a comercialização de produtos irregulares anunciados com a substância.

Outro ponto destacado pela especialista é que a redução dos episódios respiratórios não significa, necessariamente, que o medicamento previna o AVC. A pesquisa avaliou a frequência dos eventos de apneia e hipopneia, mas não permite concluir que houve diminuição na ocorrência de acidentes vasculares cerebrais.

“É uma descoberta importante, mas precisamos ter cuidado com a interpretação. A pesquisa mostrou que o medicamento reduziu os eventos de apneia, não que preveniu acidentes vasculares cerebrais. Essa diferença é fundamental”, ressalta Jéssica.

A obesidade é um dos fatores associados à apneia obstrutiva do sono, mas a doença também pode estar relacionada a características anatômicas e outras condições individuais. Por isso, o diagnóstico e a definição do tratamento dependem de avaliação especializada.

Ronco e sonolência podem ser sinais

O tratamento da apneia pode incluir mudanças de hábitos, controle do peso e uso do CPAP, equipamento que mantém as vias aéreas abertas durante o sono. A escolha depende da gravidade do quadro e das condições clínicas de cada paciente.

Entre os sinais que merecem atenção estão ronco intenso e frequente, pausas respiratórias percebidas por familiares, sensação de sufocamento durante a noite, cansaço ao acordar e sonolência excessiva ao longo do dia.

A pneumologista destaca que a investigação não deve ser adiada até o surgimento de complicações cardiovasculares.

O acompanhamento também é importante para quem perde peso, já que a melhora dessa condição não significa necessariamente que a apneia desapareceu. Antes de suspender qualquer terapia, é necessário reavaliar o paciente.

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