A extração do dente do siso é um procedimento comum nos consultórios odontológicos, mas exige avaliação individualizada, planejamento e acompanhamento. Embora a cirurgia costume transcorrer sem intercorrências importantes, existem riscos que precisam ser considerados e sinais de alerta que merecem atenção durante a recuperação.
Segundo a cirurgiã-dentista Larissa Pavesi, o primeiro passo é verificar se a retirada realmente é necessária. Nem todo siso precisa ser extraído: a indicação depende da presença de sintomas, doenças associadas e condições específicas do dente e do paciente.
“Cada paciente tem uma condição específica. Por isso, a decisão de extrair o siso deve ser tomada a partir de uma avaliação clínica e dos exames de imagem indicados para aquele caso”, explica.
As radiografias ajudam a identificar a posição do dente, sua relação com os dentes vizinhos e, nos sisos inferiores, a proximidade com o canal mandibular, por onde passam estruturas nervosas e vasos sanguíneos. Em determinadas situações, a tomografia pode complementar a avaliação e auxiliar na escolha da técnica cirúrgica.
Antes do procedimento, o paciente deve informar seu histórico de saúde, incluindo doenças crônicas, alergias, alterações de coagulação, gestação, experiências anteriores com anestesia e todos os medicamentos em uso. Anticoagulantes e determinados medicamentos utilizados no tratamento da osteoporose, por exemplo, podem exigir cuidados específicos.
O que pode acontecer após a cirurgia?
Entre as possíveis intercorrências está a alveolite, condição dolorosa relacionada à perda ou à formação inadequada do coágulo sanguíneo que protege o local da extração. Preservar esse coágulo é importante para a cicatrização inicial.
A alveolite costuma provocar dor intensa, que pode aparecer ou piorar entre o segundo e o quinto dia após a cirurgia. Mau hálito e gosto desagradável na boca também podem ocorrer. Esses sintomas precisam ser avaliados pelo cirurgião-dentista.
Dor, inchaço e dificuldade para abrir a boca podem fazer parte da recuperação inicial. O edema pode aumentar até o segundo ou terceiro dia, mas a evolução dos sintomas merece atenção: piora progressiva, febre ou secreção exigem avaliação.
Também podem ocorrer alterações de sensibilidade na língua, no lábio ou no queixo, especialmente quando as raízes dos sisos inferiores estão próximas de estruturas nervosas. Essas alterações podem ser temporárias, mas, em alguns casos, persistem e precisam de acompanhamento especializado.
Cuidados durante a recuperação
Larissa explica que, nas primeiras 24 horas, as recomendações costumam incluir repouso, compressão com gaze pelo tempo indicado e aplicação de compressas frias externamente, conforme a orientação profissional.
O paciente deve evitar bochechos vigorosos, cuspir repetidamente, usar canudo ou manipular a ferida com a língua e os dedos, pois essas ações podem deslocar o coágulo. Outros cuidados incluem:
Alimentação: priorizar alimentos macios, frios ou mornos nos primeiros dias e retomar a consistência habitual gradualmente. Alimentos duros, crocantes ou com sementes podem traumatizar a região ou ficar retidos no local operado. Manter boa hidratação também é importante.
Higiene bucal: continuar a escovação dos demais dentes, com cuidado para não agredir a ferida. Após 24 horas, em geral, podem ser iniciados enxágues suaves, conforme as instruções do dentista.
Cigarro e álcool: cigarros e dispositivos eletrônicos para fumar podem prejudicar a cicatrização e aumentar o risco de alveolite. A interrupção deve seguir o período recomendado pelo profissional. O álcool também deve ser evitado conforme as orientações recebidas, especialmente durante o uso de medicamentos ou após sedação.
Medicamentos: respeitar as doses e os horários prescritos. Associar analgésicos ou anti-inflamatórios, iniciar antibióticos ou prolongar tratamentos sem orientação profissional não é recomendado.
Quando procurar atendimento?
Sangramento que não cessa após compressão firme e contínua, dor intensa ou progressiva, inchaço que piora após os primeiros dias, febre e secreção justificam contato rápido com o cirurgião-dentista. Dormência nova ou persistente na língua, no lábio ou no queixo também deve ser comunicada.
Dificuldade para respirar ou engolir, especialmente acompanhada de inchaço progressivo na boca, na mandíbula ou no pescoço, é uma emergência médica e exige atendimento imediato.
Para Larissa, explicar os cuidados e garantir que o paciente saiba a quem recorrer são medidas importantes para a prevenção de complicações.
“Entregar as orientações por escrito, explicar as restrições e deixar um canal de contato definido ajuda o paciente a seguir os cuidados corretamente. A ansiedade, a dor e até os efeitos da sedação podem fazer com que parte das instruções seja esquecida. O acompanhamento precisa considerar essas dificuldades”, afirma.
Casos ampliam debate sobre segurança
Mortes noticiadas após extrações de sisos no Brasil ampliaram o debate sobre a identificação precoce de complicações e o acompanhamento pós-operatório. Entre os casos está o de Isadora Belon Albanese, de 18 anos, que morreu em 2023, em São Paulo, após complicações infecciosas.
Os pais da jovem lançaram uma petição pública em defesa da criação de um protocolo nacional para a extração desses dentes. A discussão também chegou ao Congresso Nacional, com propostas relacionadas a medidas de segurança e exames pré-operatórios.
Segundo Larissa, embora episódios graves sejam excepcionais e cada caso tenha circunstâncias próprias, eles reforçam a importância da avaliação individualizada e do acompanhamento.
A recuperação varia conforme a posição do dente, a complexidade da cirurgia e as condições de saúde do paciente. A orientação é seguir os cuidados específicos para cada caso e procurar atendimento quando a evolução não ocorrer como o esperado.










