Identificar um câncer antes do aparecimento dos sintomas pode aumentar as possibilidades de tratamento e de cura. Por isso, o rastreamento é uma das estratégias utilizadas para detectar alguns tipos de tumores em fases iniciais, quando ainda podem estar pequenos e sem sinais de disseminação pelo organismo.
O rastreamento faz parte da chamada prevenção secundária e deve seguir a faixa etária, os fatores de risco e as orientações de cada caso. Além dos exames, hábitos como manter uma alimentação equilibrada, controlar o peso, praticar atividade física, não fumar, evitar bebidas alcoólicas e manter a vacinação em dia também ajudam a reduzir o risco de doenças.
De acordo com o oncologista clínico Henry Najman, da Oncologia D’Or do Rio de Janeiro, identificar o tumor precocemente pode permitir o início mais rápido do tratamento.
“O rastreio possibilita a detecção do tumor quando ainda é pequeno e não se espalhou pelo corpo, a chamada metástase. O diagnóstico precoce permite que utilizemos tratamentos mais simples, de forma rápida, aumentando as chances de cura do paciente”, explica.
Confira os principais exames utilizados no rastreamento de cinco tipos de câncer:
Câncer de mama
O câncer de mama é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras, desconsiderando os tumores de pele não melanoma. Para 2026, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 78.610 novos casos no país.
A mamografia é o principal exame utilizado no rastreamento da doença. O Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) recomendam a realização anual do exame por mulheres sem sintomas a partir dos 40 anos.
Para mulheres com histórico familiar de câncer de mama, especialmente quando mãe ou irmã tiveram a doença antes dos 50 anos, a avaliação pode começar mais cedo, conforme orientação médica.
As recomendações do Ministério da Saúde para o SUS são diferentes: mulheres de 40 a 49 anos podem realizar a mamografia mediante solicitação e decisão compartilhada com o profissional de saúde. Dos 50 aos 74 anos, o exame é indicado a cada dois anos.
Câncer de próstata
O câncer de próstata é o mais incidente entre os homens brasileiros, depois dos tumores de pele não melanoma. O Inca estima 77.920 novos casos em 2026.
A Sociedade Brasileira de Urologia recomenda que homens a partir dos 50 anos procurem um profissional para avaliar individualmente a realização do rastreamento anual. A avaliação pode incluir o exame de toque retal e a dosagem do PSA no sangue.
Para homens com maior risco, como aqueles com histórico familiar da doença, homens negros e pessoas com obesidade, a avaliação pode começar aos 45 anos.
O rastreamento deve ser discutido individualmente com o médico. A partir dos 70 anos, a decisão sobre a continuidade dos exames também deve considerar as características de cada paciente.
Câncer colorretal
Os tumores de cólon e reto estão entre os cânceres mais frequentes no Brasil. Para 2026, são estimados 53.810 novos casos, sendo 26.270 em homens e 27.540 em mulheres.
A colonoscopia é um dos principais exames utilizados para o rastreamento. Além de permitir a identificação de lesões, o procedimento pode retirar pólipos que apresentam potencial de evolução para câncer.
A Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva recomenda o início do rastreamento a partir dos 45 anos.
Outra opção é o Teste Imunoquímico Fecal (FIT), exame realizado com amostra de fezes para identificar pequenas quantidades de sangue que não podem ser vistas a olho nu. O Ministério da Saúde passou a adotar o teste para o rastreamento do câncer colorretal em pessoas a partir dos 50 anos.
Câncer do colo do útero
O Inca estima 19.310 novos casos de câncer do colo do útero em 2026. A doença está relacionada principalmente à infecção persistente pelo HPV, responsável por mais de 90% dos casos.
Durante anos, o principal método de rastreamento foi o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau. Em 2024, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS o teste de DNA-HPV oncogênico, que passou a ser adotado como método primário nas novas diretrizes, com implementação progressiva.
A coleta do material é semelhante à do Papanicolau, mas o teste de DNA-HPV busca diretamente o material genético do vírus. A citologia continua sendo utilizada na rotina de rastreamento.
A prevenção também inclui a vacinação contra o HPV, disponível na rede pública. O vírus está relacionado não apenas ao câncer do colo do útero, mas também a tumores no canal anal, vulva, vagina, pênis e orofaringe.
Câncer de pulmão
O câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer no Brasil e no mundo. Nos estágios iniciais, pode não apresentar sintomas ou provocar sinais pouco específicos.
Quando aparecem, os sintomas podem incluir tosse persistente, falta de ar, dor no peito, cansaço, sangue no escarro e perda de peso.
Desde 2024, sociedades médicas brasileiras recomendam a realização anual de tomografia computadorizada de tórax com baixa dose de radiação para pessoas entre 50 e 80 anos que fumam ou deixaram de fumar há menos de 15 anos e apresentam carga tabágica de pelo menos 20 maços-ano.
A carga tabágica é calculada multiplicando a quantidade de maços de cigarro consumidos por dia pelo número de anos de tabagismo. Uma pessoa que fuma dois maços por dia durante 20 anos, por exemplo, tem carga de 40 maços-ano.
Exame não substitui avaliação médica
As recomendações de rastreamento variam de acordo com o tipo de câncer, idade e fatores de risco. Por isso, a indicação e a periodicidade dos exames devem ser discutidas com um profissional de saúde.
O rastreamento é destinado principalmente a pessoas que não apresentam sintomas. Quando há sinais suspeitos, a investigação médica segue outra abordagem e pode exigir exames específicos para confirmar ou descartar uma doença.










