Transplante ósseo: cirurgia rara reconstrói bacia e fêmur

Quando se fala em transplante, a maioria das pessoas pensa imediatamente em órgãos como coração, fígado ou rins. Pouco conhecido pelo público, o transplante ósseo é uma alternativa importante para pacientes que sofreram grandes perdas de tecido ósseo em decorrência de acidentes, cirurgias complexas, tumores ou doenças degenerativas. No Hospital Meridional Cariacica, um dos casos mais recentes chamou a atenção pela complexidade da reconstrução realizada.

 

O procedimento foi conduzido pela equipe liderada pelo ortopedista da Rede Meridional, Júlio Cesar Moulin Ribeiro, chefe do Serviço de Transplante Ósseo e Músculo-Esquelético da unidade. O paciente do sexo masculino recebeu enxertos ósseos para reconstrução do acetábulo, estrutura da bacia onde se encaixa a cabeça do fêmur, e também do próprio fêmur.

 

Segundo o especialista, o transplante ósseo possui características muito diferentes dos transplantes tradicionais. No Brasil, o osso é considerado um órgão para fins de doação e transplante, enquanto em outros países, como os Estados Unidos, é tratado de forma mais semelhante a um material ortopédico, embora sob rígido controle sanitário.

 

“O osso utilizado vem de doadores falecidos, passa por um processo rigoroso de preparo e armazenamento em superfreezers, podendo permanecer disponível por longos períodos até que seja necessário. Existe um protocolo extremamente rígido desde a captação até a liberação para uso”, explica Ribeiro.

 

Os enxertos são armazenados em bancos de tecidos especializados. No caso do Espírito Santo, a referência é o Banco de Tecidos do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), no Rio de Janeiro. O material é disponibilizado gratuitamente pelo sistema, cabendo ao paciente ou ao plano de saúde apenas os custos de transporte.

 

A principal indicação do transplante ósseo é a reconstrução de áreas onde houve perda de tecido ósseo. De acordo com o médico, a técnica pode ser utilizada em sequelas de acidentes, falhas ósseas provocadas por tumores, revisões de próteses, cirurgias complexas e até em procedimentos para reconstrução de tendões. Em outros estados brasileiros, já existem inclusive transplantes de menisco realizados com tecidos provenientes de bancos especializados.

 

O diferencial do enxerto ósseo é que ele funciona como uma estrutura de sustentação para que o próprio organismo produza um novo tecido. “O osso transplantado funciona como uma matriz para a renovação e formação do osso novo com as próprias células do paciente. Por isso, o risco de rejeição é zero e não há necessidade de medicamentos imunossupressores”, destaca o ortopedista.

 

A recuperação ocorre de forma gradual, à medida que as células do paciente colonizam o enxerto e promovem a integração entre o tecido transplantado e o organismo. O processo permite a reconstrução de áreas extensas e contribui para a recuperação funcional dos membros afetados.

 

No caso do paciente, a cirurgia representou um desafio ainda maior. O paciente apresentava comprometimento significativo tanto do acetábulo quanto do fêmur, exigindo uma reconstrução ampla e minuciosa. Para reduzir a diferença de altura entre as estruturas e restabelecer a anatomia da região, foi necessário preencher falhas ósseas na bacia com enxertos.

 

Devido à complexidade do procedimento, cinco médicos participaram da operação. O paciente permaneceu no centro cirúrgico durante cerca de dez horas, enquanto a cirurgia durou aproximadamente sete horas e meia.

 

Ribeiro afirma que este foi um dos casos mais desafiadores já enfrentados pela equipe. Segundo ele, a experiência acumulada em cirurgias extensas de coluna vertebral ajudou no planejamento da operação, que exigiu revezamento entre os profissionais ao longo do procedimento.

 

“O transplante ósseo é uma ferramenta extremamente importante para a reconstrução musculoesquelética. Quanto mais divulgarmos esse tipo de avanço, mais pessoas poderão ser beneficiadas por uma alternativa que muitas vezes evita limitações permanentes e devolve a funcionalidade ao paciente”, conclui o médico.

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