Pesquisas que apontam para uma forma mais eficaz de tratar o glioblastoma, um tumor cerebral agressivo, e que identificam um marcador capaz de prever o risco de recaída em pacientes com LMA (leucemia mieloide aguda) foram premiadas na 17ª edição do Prêmio Octavio Frias de Oliveira. Os vencedores foram anunciados nesta quarta-feira (12).
A cerimônia de premiação, para convidados, reuniu cerca de 200 pessoas no auditório do Icesp, na zona oeste de São Paulo. Entre os presentes estavam pesquisadores e representantes de instituições ligadas a oncologia, além de alunos da professora da USP (Universidade de São Paulo) Luisa Lina Villa, 75, premiada nesta edição na categoria Personalidade de Destaque.
Na categoria Pesquisa em Oncologia, foi premiado o estudo sobre a LMA, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo). Já na categoria Inovação em Tecnologia, venceu a pesquisa sobre glioblastoma, conduzida no laboratório do Instituto de Física da USP em São Carlos, no interior paulista.
Bióloga e bioquímica, Luisa Lina Villa participou de trabalhos que fizeram com que o HPV fosse reconhecido como a principal causa dos cânceres do colo do útero, ânus, pênis e orofaringe. Ao fim da cerimônia, a professora, chefe do Laboratório de Inovação em Câncer do Icesp, se emocionou ao receber o prêmio e foi aplaudida de pé.
“Penso nas gerações de jovens vacinados que não desenvolverão tumores causados por HPV. Uma conquista da ciência e da implementação de políticas públicas para beneficiar a todos sem distinção de gênero, condição socioeconômica ou local onde vivem”, disse a professora ao agradecer a homenagem.
A láurea, promovida pelo Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo) em parceria com a Folha de S.Paulo, homenageia desde 2010 Octavio Frias de Oliveira, publisher do jornal de 1962 a 2007, ano de sua morte. A iniciativa busca estimular a produção de conhecimento sobre prevenção e combate ao câncer no Brasil. Os vencedores das três categorias recebem R$ 20 mil cada um e um certificado.
Na cerimônia, Vinicius Mota, editor-executivo da Folha de S.Paulo, destacou o interesse do patrono pela saúde e pela pesquisa médica. “O prêmio valoriza uma das grandes curiosidades do patrono, que era o interesse muito grande pela saúde, pela área médica, pela pesquisa”, afirmou.
CATEGORIA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA EM ONCOLOGIA
Natália Noronha Ferreira, pesquisadora associada do Instituto de Física da USP e autora principal do estudo sobre glioblastoma, afirmou que premiações como essa ajudam a dar visibilidade aos estudos e a abrir oportunidades para novas parcerias.
A tecnologia foi testada em células, ovos de galinha fertilizados, tecido de mucosa nasal de porco retirado após o abate e em camundongos. Os próximos passos incluem testes em animais com tumor induzido e, depois, ensaios clínicos em humanos.
“É uma linha que a gente precisa expandir agora e, de fato, entrar no modelo animal com a indução do tumor e olhar para essa partícula e para a efetividade dela através da via nasal, para que a gente possa de fato entrar no estudo clínico”, disse.
Publicado em 2024 na revista científica Applied Materials & Interfaces, da Sociedade Americana de Química (ACS, na sigla em inglês), o estudo também contou com participação de pesquisadores da UFG (Universidade Federal de Goiás), Hospital de Amor de Barretos, Hasselt University, na Bélgica, e da Universidade do Minho, em Portugal.
A pesquisa conduzida por Ferreira propõe uma forma de administrar a temozolomida pela via nasal, para fazer o medicamento chegar mais diretamente ao cérebro, aumentar sua ação sobre o tumor e reduzir a necessidade de doses elevadas.
“Nossa estratégia foi criar uma plataforma tecnológica para melhorar essa entrega, com o intuito de providenciar melhorias na qualidade de vida do paciente e tornar essa terapia mais eficiente”, afirmou a pesquisadora.
O glioblastoma é um dos tumores cerebrais mais agressivos. As principais opções de tratamento são cirurgias, radioterapia e quimioterapia com temozolomida, considerada o quimioterápico padrão-ouro.
Por ser infiltrativo e espalhar células pelo tecido cerebral ao redor, o glioblastoma não pode ser completamente removido na cirurgia. Restam células que podem levar à recidiva, e a doença ainda não tem cura.
Tomada por via oral, a temozolomida tem uma penetração limitada no tecido tumoral. Por isso, são necessárias doses altas, que circulam pelo corpo e podem causar efeitos adversos, como náuseas, vômitos, fadiga e queda das células do sangue.
Essa toxicidade pode aumentar o risco de infecções e sangramentos e é um dos principais fatores que limitam a dose da temozolomida. Por isso, o paciente precisa fazer exames de sangue regularmente durante o tratamento.
É esse problema que a pesquisa busca contornar. Segundo Ferreira, a via nasal pode levar o medicamento ao cérebro por uma rota que contorna a barreira hematoencefálica, que dificulta a chegada de medicamentos ao cérebro, permitindo concentrar o fármaco na região onde ele precisa agir.
Os pesquisadores desenvolveram uma nanopartícula de material biodegradável capaz de carregar o quimioterápico. Depois, revestiram a estrutura com a membrana das próprias células do glioblastoma, para que ela apresentasse características semelhantes às do tumor e facilitasse a entrega do medicamento às células cancerígenas.
“A gente isolou a membrana da célula tumoral e usou essa membrana isolada para recobrir essa partícula, criamos o que a gente chama de cavalo de Troia”, explica a pesquisadora.
Ferreira recebeu o prêmio das mãos do urologista William Nahas, professor da Faculdade de Medicina da USP e presidente do Conselho Diretor do Icesp. Na cerimônia, Nahas destacou a importância de incentivar a inovação e a produção de conhecimento na instituição.
“É um privilégio para nós contar com essa colaboração da Folha de S.Paulo em uma iniciativa que, desde o início, busca estimular cada vez mais a pesquisa, a inovação, o conhecimento e o aprofundamento do conhecimento”, disse.
CATEGORIA PESQUISA EM ONCOLOGIA
Na categoria Pesquisa em Oncologia, o estudo premiado identificou um marcador capaz de prever quais pacientes com LMA, um tipo agressivo de leucemia, têm maior risco de sofrer uma recaída.
Segundo Juan Coelho-Silva, um dos autores do estudo e pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, muitos pacientes com LMA sofrem recidiva, ou seja, reduzem ou eliminam os sinais da doença após o tratamento, mas depois o câncer retorna.
“O nosso biomarcador tenta endereçar essa lacuna diretamente. É um teste molecular relativamente simples de implementar e nós entendemos que é um dos biomarcadores mais exequíveis em termos de retorno de resposta. A gente reconhece um terço dos pacientes com mais do que o dobro de chance de recaída”, afirmou ao receber o prêmio.
O estudo analisou o conteúdo de DNA mitocondrial das células de pacientes com leucemia mieloide aguda. A quantidade desse material, usada como biomarcador, pode ser medida por um exame de PCR, a mesma tecnologia usada nos testes para detectar o coronavírus, já no momento do diagnóstico. A análise permite identificar pacientes com maior risco de recaída.
O marcador indica o quanto as células da leucemia dependem da mitocôndria, estrutura responsável pela produção de energia dentro das células. Segundo os pesquisadores, quanto maior o conteúdo de DNA mitocondrial, maior a resistência das células ao tratamento e o risco de a doença voltar.
Para avaliar essa associação, os pesquisadores analisaram dados clínicos e amostras de mais de 500 pacientes com LMA no Brasil e na Holanda. No grupo brasileiro, foram examinadas amostras de medula óssea de 482 pacientes recém-diagnosticados.
Entre aqueles que entraram em remissão após quimioterapia intensiva, os pacientes com maior conteúdo de DNA mitocondrial tiveram uma evolução pior e permaneceram livres da doença por menos tempo.
Os resultados foram confirmados em uma segunda população, formada por pacientes tratados na Holanda. “Isso é o que chamamos de dado de seguimento clínico, ou follow-up. Não envolveu nenhum experimento em laboratório”, explica Coelho-Silva.
A pesquisa foi publicada em 2025 na revista científica Signal Transduction and Targeted Therapy, do grupo Springer Nature. Além da UFPE e da USP, participaram do estudo a Unicamp (Universidade de Campinas), a Universidade de Groningen, na Holanda, o King’s College London, no Reino Unido, e o de Duve Institute, na Bélgica.
Após identificar a associação entre o alto conteúdo de DNA mitocondrial e a resistência à quimioterapia, os pesquisadores buscaram estratégias para atacar a dependência energética das células leucêmicas.
Uma das estratégias testadas foi a metformina, medicamento já aprovado para o tratamento do diabetes. Por atuar sobre o metabolismo mitocondrial, a droga potencializou a morte das células de LMA quando combinada à quimioterapia padrão, como a citarabina, ou a terapias-alvo, como o venetoclax.
Os pesquisadores também identificaram uma espécie de rota de escape usada pelas células para compensar o efeito da metformina. Elas ativam a NAMPT, uma enzima que ajuda a manter o metabolismo celular. Ao bloquear essa enzima com o KPT-9274, medicamento ainda experimental, os pesquisadores ampliaram o efeito da metformina contra as células leucêmicas.
Os próximos passos, segundo Coelho-Silva, incluem estudos clínicos em humanos para avaliar o uso do marcador na seleção de pacientes com maior chance de se beneficiar de terapias direcionadas à mitocôndria.
Coelho-Silva recebeu o prêmio das mãos do oncologista Paulo Hoff, professor da Faculdade de Medicina da USP e presidente da 17ª edição do Prêmio Octavio Frias de Oliveira. Ao discursar, o médico destacou a trajetória da premiação desde sua criação.
“O Brasil tem grandes cientistas, grandes pesquisadores, e nem sempre eles são reconhecidos. Nós não tínhamos um prêmio de tradição, particularmente na área de oncologia, que reconhecesse aquelas pessoas que haviam dedicado a sua vida ao desenvolvimento da ciência e à melhoria das condições de saúde dos seus concidadãos”, afirmou.
Segundo Hoff, o prêmio foi criado inicialmente para homenagear uma personalidade da área e, posteriormente, passou a reconhecer também trabalhos científicos e iniciativas de inovação. “É muito bom ver um projeto como esse, que surgiu de uma conversa quase informal, se tornar um prêmio tão importante na oncologia nacional”, disse.
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – LAIZ MENEZES










