Colesterol na gravidez: quando o aumento exige atenção

Durante a gravidez, o aumento do colesterol e dos triglicerídeos costuma fazer parte das mudanças naturais do organismo para garantir o crescimento do bebê. Mesmo assim, o acompanhamento durante o pré-natal é importante para identificar quando essas alterações estão dentro do esperado e quando podem indicar a necessidade de investigação e cuidados específicos.

Segundo especialistas do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), o aumento dos níveis de colesterol e triglicerídeos ocorre em resposta às necessidades do desenvolvimento fetal, da formação da placenta e da produção de hormônios. Na maioria dos casos, a alteração não exige tratamento com medicamentos, mas deve ser avaliada de acordo com o quadro de cada gestante.

A endocrinologista do IFF/Fiocruz Lizanka Marinheiro explica que uma elevação isolada do colesterol durante a gestação não significa, por si só, que exista um problema de saúde. A análise deve considerar o histórico da paciente, fatores de risco e outros indicadores metabólicos.

Entre as situações que merecem maior atenção estão casos de alteração dos níveis de gordura no sangue anterior à gravidez, hipercolesterolemia familiar, doença cardiovascular e, principalmente, aumentos importantes dos triglicerídeos. Por isso, o resultado de um exame não deve ser analisado de forma isolada.

O acompanhamento pré-natal também inclui cuidados com a alimentação e o ganho de peso. A nutricionista do IFF/Fiocruz Julyane Sobrino explica que mulheres que já iniciam a gestação com colesterol elevado podem apresentar maior risco de complicações como diabetes mellitus gestacional e pré-eclâmpsia, especialmente quando a alteração está relacionada a hábitos de vida, alterações anteriores ou condições genéticas.

Durante a gravidez, a orientação é priorizar alimentos in natura e minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, cereais integrais e leguminosas. Também podem fazer parte da alimentação fontes de gorduras insaturadas, como azeite de oliva extravirgem, abacate, oleaginosas e sementes.

Peixes ricos em ômega-3, como sardinha e salmão, são recomendados de duas a três vezes por semana. Em situações específicas, a suplementação de ômega-3 pode ser considerada, mas deve ocorrer com avaliação individualizada e acompanhamento profissional.

A nutricionista também chama atenção para o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, gorduras saturadas, bebidas açucaradas e carboidratos refinados, além do sedentarismo e do ganho excessivo de peso durante a gravidez. Esses fatores podem contribuir para o aumento do colesterol e dos triglicerídeos e elevar riscos cardiovasculares e obstétricos.

Isso, porém, não significa que a gestante deva fazer uma dieta restritiva. Segundo Julyane Sobrino, gorduras e colesterol são necessários para a produção de hormônios, o desenvolvimento da placenta e o crescimento e desenvolvimento cerebral do bebê. A orientação é priorizar a qualidade da alimentação, com maior presença de gorduras insaturadas, fibras e alimentos in natura e minimamente processados.

Mudanças simples na rotina alimentar também podem ajudar. Entre as estratégias citadas pela especialista estão trocar frituras por preparações assadas, substituir alimentos refinados por integrais, incluir oleaginosas e consumir peixes ricos em ômega-3. A recomendação é que essas mudanças sejam feitas de maneira individualizada e sustentável.

A médica clínica da Área da Gestante do IFF/Fiocruz, Simone de Almeida Leite, destaca que mulheres com alteração dos níveis de gordura no sangue antes da gravidez podem apresentar associações com problemas como hipertensão induzida pela gestação, diabetes gestacional, parto prematuro e crescimento excessivo do bebê.

Por isso, o pré-natal deve acompanhar não apenas os exames, mas também o histórico de saúde da gestante e da família. A avaliação pode incluir o rastreamento de hipertensão, alterações nos níveis de gordura no sangue e diabetes gestacional, além de orientações sobre alimentação, atividade física, álcool e cigarro.

O acompanhamento deve continuar depois do parto. A orientação dos especialistas é que a mulher mantenha o cuidado com a saúde e siga sendo acompanhada pelas unidades básicas de saúde, especialmente quando houver fatores de risco.

Assim, embora o aumento do colesterol durante a gravidez seja, na maioria das vezes, uma adaptação natural do organismo, o pré-natal é importante para diferenciar as alterações esperadas das situações que exigem investigação e acompanhamento especializado.

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