Câncer de pulmão no Espírito Santo é diagnosticado em fase avançada em 94% dos casos

Dados inéditos do Radar do Câncer, plataforma vinculada ao Instituto Oncoguia, revelam um cenário crítico na saúde pública capixaba: 94,28% dos pacientes diagnosticados com câncer de pulmão no Espírito Santo nos últimos três anos iniciaram o tratamento médico já em estadiamento avançado (estágios 3 e 4). O índice coloca o Estado na quarta posição nacional em relação ao retardo na descoberta da doença, superando a média do Brasil, que é de 87%. O ranking é liderado por Rondônia, com 98,97%.

Os dados são impulsionados pelo Agosto Branco, campanha dedicada à conscientização sobre a neoplasia pulmonar. Na prática médica, o estadiamento é o parâmetro técnico utilizado para determinar a extensão do tumor. Enquanto nas fases 1 e 2 as intervenções visam à cura, os estágios 3 e 4 indicam metástase ou severidade tumoral, o que reduz substancialmente os índices de recuperação e exige métodos terapêuticos de maior complexidade.

Para a presidente e fundadora do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz, os números expõem lacunas na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) e na agilidade de atendimento.

“O diagnóstico tardio é o retrato doloroso de uma jornada que começou errada. Não estamos falando apenas de estatísticas, mas de vidas que perderam um tempo precioso. Precisamos treinar as equipes de saúde para pensar em câncer de pulmão desde os primeiros sintomas identificados. O tempo que a pessoa leva para realizar consultas e exames pode ser crucial para avançar de uma fase que seria curável para um quadro muito mais complexo. Já sabemos os caminhos, precisamos implementá-los”, analisa Luciana Holtz.

Câncer de pulmão no Espírito Santo é diagnosticado em fase avançada em 94% dos casos

Demora no tratamento do câncer de pulmão no Espírito Santo viola lei federal

Além do atraso na confirmação da enfermidade, o levantamento expõe o desrespeito à Lei Federal nº 12.732/12, conhecida como a Lei dos 60 Dias. A norma estabelece o prazo máximo de dois meses entre a assinatura do laudo histopatológico (biópsia) e o início da abordagem terapêutica na rede pública de saúde.

No Espírito Santo, cerca de 40% dos pacientes diagnosticados com o tumor pulmonar enfrentam tempo de espera superior ao limite legal. A demora faz com que o doente aguarde a liberação de terapias enquanto a enfermidade evolui sem assistência hospitalar imediata.

Câncer de pulmão no Espírito Santo é diagnosticado em fase avançada em 94% dos casos

Centralização exige deslocamento de 74% dos pacientes capixabas

Outro entrave identificado no levantamento do Radar do Câncer diz respeito à distribuição da infraestrutura médica. A limitação da oferta de exames diagnósticos e unidades oncológicas especializadas em determinados municípios capixabas força a migração interna de quem busca por tratamento.

De acordo com o mapeamento, 74,77% dos pacientes com câncer de pulmão atendidos no Espírito Santo precisaram se deslocar de suas cidades de origem para obter assistência oncológica básica em outros municípios capixabas.

“Para os pacientes com câncer de pulmão, onde quase todos estão em estágios avançados da doença, se deslocar para fora da sua cidade ou até do seu estado pode ter impacto muito grande, inclusive com sofrimento financeiro e emocional. Precisamos que o sistema de saúde olhe também para essas questões e dê acesso a cuidados em saúde de forma ágil, com qualidade e melhor distribuída no país”, reforça a presidente do Instituto Oncoguia.

Agosto Azul e Vermelho

Outra campanha realizada no mês de agosto, voltada para a saúde, é a Agosto Azul e Vermelho, dedicada à conscientização sobre a saúde vascular. Criada pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), a campanha recebeu esse nome porque as cores representam os principais vasos do sistema circulatório: o azul simboliza as veias e o vermelho, as artérias. A iniciativa busca ampliar o conhecimento da população sobre doenças que acometem artérias, veias e vasos linfáticos, incentivando consultas preventivas e hábitos de vida mais saudáveis.

Segundo o médico cirurgião vascular Wanderley de Paula, a maioria das doenças vasculares pode ser evitada quando os fatores de risco são identificados e controlados. “Controlar a pressão arterial, a glicemia e o colesterol, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente e abandonar o cigarro são medidas que reduzem o risco de desenvolver diversas doenças vasculares. O acompanhamento médico também é fundamental, principalmente para quem possui fatores de risco ou histórico familiar”, explica.

Além dos cuidados com alimentação e atividade física, pequenas mudanças na rotina também fazem diferença. Permanecer muito tempo sentado ou em pé, por exemplo, dificulta a circulação sanguínea. “Durante o expediente ou em viagens longas, é importante levantar, caminhar por alguns minutos, movimentar as pernas e, quando houver indicação médica, utilizar meias de compressão. São cuidados simples que fazem diferença na prevenção”, orienta o especialista. Ele reforça que alguns sintomas exigem avaliação médica sem demora.

“Dor intensa e repentina em uma das pernas acompanhada de inchaço, falta de ar com dor no peito, sintomas como boca torta, dificuldade para falar ou perda de força em um dos lados do corpo, além de feridas que não cicatrizam ou alterações bruscas na cor das pernas, precisam de avaliação médica urgente.” Já situações como varizes sintomáticas, inchaço persistente e dor ao caminhar também merecem investigação por um especialista para evitar a evolução da doença.

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