O uso de canetas emagrecedoras revolucionou o tratamento da obesidade nos últimos anos, mas especialistas alertam que a perda rápida de peso exige acompanhamento além da balança. Um consenso publicado em julho na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology recomenda que pacientes em tratamento com medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro sejam acompanhados por uma equipe multidisciplinar para evitar perda excessiva de massa muscular, deficiências nutricionais e impactos na saúde mental.
O documento foi elaborado por três entidades europeias ligadas ao estudo da obesidade e da nutrição após revisão das evidências científicas disponíveis até 2025. Pela primeira vez, o grupo apresenta orientações conjuntas para médicos, nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas que acompanham pessoas em uso de medicamentos à base de incretinas, como a semaglutida e a tirzepatida.
Segundo o consenso, o foco do tratamento não deve ser apenas a quantidade de peso perdida, mas a qualidade desse emagrecimento.
O endocrinologista Fabio Moura, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), afirma que o documento reforça a necessidade de um cuidado integrado.
“Muitas pessoas achavam que bastava usar essas drogas e estava tudo resolvido. Mas não adianta perder peso de qualquer jeito. É importante que essa perda seja com qualidade, para garantir uma boa saúde”, afirma.
Proteínas, fibras e hidratação
Com a redução do apetite provocada pelos medicamentos, muitos pacientes passam a ingerir menos proteínas, vitaminas, minerais e fibras. Isso pode favorecer a perda de massa muscular, aumentar o risco de desnutrição e comprometer a capacidade funcional, principalmente entre idosos.
Para reduzir esses riscos, o consenso recomenda o consumo de pelo menos 60 gramas de proteína por dia, distribuídas ao longo das refeições. Quando a alimentação não for suficiente, suplementos como whey protein e shakes podem ser utilizados sob orientação profissional.
Também é indicada a ingestão de 25 gramas de fibras diariamente, para reduzir episódios de prisão de ventre, um dos efeitos colaterais mais frequentes desses medicamentos.
Outra recomendação é manter uma ingestão de 2 a 2,5 litros de água por dia, já que muitos pacientes relatam diminuição da sede junto com a redução do apetite.
Além disso, especialistas orientam monitorar possíveis deficiências de nutrientes como ferro, vitamina B12, vitamina D, ácido fólico e zinco, especialmente em pessoas com maior risco nutricional.
Efeitos colaterais podem ser controlados
Náuseas, vômitos, refluxo, diarreia e constipação estão entre os efeitos adversos mais comuns das canetas emagrecedoras.
Em vez de interromper o tratamento diante desses sintomas, o consenso recomenda ajustes na velocidade de aumento das doses, mudanças temporárias na medicação e adaptações na alimentação, sempre com orientação médica.
Saúde mental também deve ser acompanhada
O documento dedica um capítulo específico aos impactos psicológicos do tratamento. Segundo os especialistas, os medicamentos alteram a relação das pessoas com a comida e podem modificar comportamentos ligados ao prazer e à recompensa.
Embora muitos pacientes relatem redução da compulsão alimentar e da chamada “fome emocional”, alguns também podem experimentar sensação de vazio, dificuldade para lidar com emoções e mudanças na própria identidade, especialmente quando a alimentação ocupava papel importante na vida social e emocional.
Para o nutrólogo Guilherme Giorelli, professor e coordenador da pós-graduação em Nutrologia do Hospital Israelita Albert Einstein, esses efeitos precisam ser discutidos antes e durante o tratamento.
“Saúde não é apenas ter o peso ideal. É bem-estar físico, mental e social. A medicação ajuda muito, mas o paciente precisa entender que ela faz parte de um processo maior de mudança de hábitos e de construção de uma vida mais equilibrada.”
O consenso recomenda que profissionais avaliem regularmente sintomas de ansiedade, depressão e transtornos alimentares, além de orientar os pacientes sobre as mudanças emocionais que podem surgir ao longo do processo de emagrecimento.
São Paulo, FolhaPress – Com informações de Victor Hugo Batista










