Torcida até o apito final pode custar horas de sono durante a Copa

A cada quatro anos, milhões de brasileiros reorganizam a rotina para acompanhar a Copa do Mundo. Em 2026, os horários das partidas não devem exigir madrugadas em frente à televisão, mas a combinação entre jogos noturnos, encontros com amigos, comemorações e o consumo intenso de conteúdo esportivo pode levar muita gente a dormir mais tarde do que o habitual durante semanas seguidas.

Embora a competição seja disputada em três países — Estados Unidos, Canadá e México — e envolva diferentes fusos horários, o principal impacto para os torcedores brasileiros pode não estar na diferença de horário entre as sedes, mas nas mudanças provocadas na rotina diária.

Segundo a médica do sono Jéssica Polese, é comum que eventos de grande mobilização coletiva alterem hábitos de descanso e provoquem um desequilíbrio temporário do relógio biológico.

“O sono não é regulado apenas pelo cansaço. Nosso organismo segue um ritmo biológico que depende da regularidade dos horários de dormir e acordar. Quando começamos a adiar constantemente o momento de dormir para acompanhar jogos, comentários, programas esportivos ou encontros com amigos, esse sistema pode sofrer alterações”, explica.

A médica destaca que o problema não está em assistir a uma partida ocasionalmente até mais tarde, mas na repetição desse comportamento ao longo de várias semanas.

“Uma única noite de sono reduzido dificilmente causará consequências importantes para uma pessoa saudável. O que observamos é que, durante grandes eventos esportivos, muitas pessoas passam a dormir menos por vários dias consecutivos. Isso pode gerar sonolência durante o dia, irritabilidade, dificuldade de concentração e queda de rendimento nas atividades diárias.”

O fenômeno é conhecido pelos especialistas como “jet lag social”. Diferentemente do jet lag tradicional, provocado por viagens entre diferentes fusos horários, ele ocorre quando os compromissos sociais ou de lazer levam a pessoa a adotar horários de sono diferentes daqueles aos quais o organismo está habituado.

A situação pode ser ainda mais desafiadora para quem precisa acordar cedo para trabalhar, estudar ou cuidar da família. Nesses casos, o tempo de recuperação entre uma noite e outra tende a ser insuficiente.

“O organismo não consegue simplesmente compensar o sono perdido de forma imediata. Muitas pessoas tentam recuperar essas horas dormindo mais nos finais de semana ou em horários alternativos, mas isso nem sempre resolve completamente os efeitos da privação de sono”, afirma.

Além do cansaço, a falta de descanso adequado pode impactar o humor, a memória e a capacidade de tomar decisões. Estudos também apontam que noites mal dormidas podem interferir no funcionamento do sistema imunológico e aumentar a sensação de fadiga ao longo do dia.

Para quem pretende acompanhar a competição sem comprometer a saúde, a orientação é manter uma rotina o mais regular possível. A recomendação inclui evitar o consumo excessivo de bebidas estimulantes durante a noite, reduzir a exposição às telas após o término das partidas e tentar preservar horários consistentes para dormir e acordar.

“Não é preciso abrir mão da Copa do Mundo. O mais importante é buscar equilíbrio. O sono tem papel fundamental na recuperação física, na saúde mental e no funcionamento adequado do organismo. Aproveitar os jogos sem descuidar do descanso é a melhor estratégia para atravessar o torneio com disposição”, orienta.

Entre comemorações, debates esportivos e expectativas por uma boa campanha da Seleção Brasileira, a Copa promete movimentar a rotina dos torcedores. Para os especialistas, porém, vale lembrar que o apito final de uma partida não deve significar o início de uma sequência de noites mal dormidas.

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