Tecnologia criada no ES pode ajudar a reduzir filas e ampliar acesso a especialistas no SUS

A dificuldade para conseguir uma consulta com especialistas continua sendo um dos principais desafios enfrentados por quem depende do Sistema Único de Saúde (SUS). Em municípios menores, a escassez de profissionais obriga muitos pacientes a esperar meses por atendimento ou percorrer longas distâncias até os grandes centros.

É justamente nesse cenário que uma tecnologia desenvolvida no Espírito Santo busca oferecer uma alternativa. Criada por uma healthtech capixaba, a solução amplia as possibilidades da telemedicina ao permitir que exames clínicos sejam realizados durante consultas remotas, aproximando especialistas de pacientes mesmo quando eles estão em cidades diferentes.

Mais do que uma inovação tecnológica, a proposta pode contribuir para reduzir filas, evitar deslocamentos desnecessários e tornar a rede pública de saúde mais eficiente.

Tecnologia amplia possibilidades da telemedicina

Batizada de Lauduz, a plataforma surgiu após a pandemia, quando médicos perceberam que muitas teleconsultas terminavam em encaminhamentos presenciais por falta de informações clínicas suficientes para uma avaliação completa.

Segundo a médica Carolina Zatt, cofundadora e diretora médica da startup, o objetivo foi tornar as consultas remotas mais resolutivas.

“Percebíamos que muitas vezes faltavam informações clínicas para uma tomada de decisão mais segura. Isso gerava encaminhamentos presenciais que poderiam ser evitados”, explica.

A solução reúne, em uma maleta portátil, equipamentos conectados à plataforma digital utilizada pelo médico.

Durante a consulta, um profissional treinado acompanha o paciente presencialmente enquanto o especialista recebe, em tempo real, informações clínicas como sinais vitais, ausculta cardíaca e pulmonar, glicemia, bioimpedância e imagens de pele, ouvido e garganta.

O sistema também permite a realização de exames como eletrocardiograma e Doppler fetal durante o atendimento remoto.

Segundo Carolina, a proposta não substitui completamente o atendimento presencial, mas amplia o acesso à assistência especializada quando o exame físico tradicional não é indispensável.

Especialistas veem potencial para desafogar o SUS

Para o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e especialista em saúde pública Thiago Dias, a telemedicina representa uma oportunidade para enfrentar um dos maiores gargalos históricos do SUS: a dificuldade de acesso a especialistas.

Segundo ele, moradores de cidades menores frequentemente enfrentam meses de espera por consultas e exames especializados.

Com o apoio das ferramentas digitais, exames como eletrocardiogramas, espirometrias, ultrassons, radiografias e imagens de lesões de pele podem ser realizados próximos da residência do paciente e analisados remotamente por especialistas.

Além de diminuir deslocamentos, esse modelo acelera diagnósticos e fortalece a atenção primária.

“A atenção primária precisa ser muito resolutiva para cumprir seu papel no sistema de saúde. Com o apoio à distância de um especialista, muitos casos podem ser resolvidos na própria unidade de saúde, sem necessidade de encaminhamento”, afirma.

Experiências realizadas em estados como Rio Grande do Sul e Minas Gerais já demonstram redução do tempo de espera por consultas e da necessidade de viagens para atendimento especializado.

Inclusão digital ainda é desafio

Apesar do avanço das ferramentas digitais, especialistas alertam que a expansão da telemedicina depende da melhoria da infraestrutura tecnológica.

Entre os principais desafios estão a qualidade da conexão com a internet, a disponibilidade de equipamentos e a integração entre sistemas de informação.

Thiago Dias também chama atenção para o risco de exclusão digital.

“Quem mais precisa do SUS costuma ter a pior internet, o aparelho mais simples e menos intimidade com a tecnologia. Se a telemedicina virar apenas uma consulta pelo celular, ela corre o risco de excluir exatamente quem deveria ajudar”, ressalta.

Para ele, a tecnologia deve funcionar como complemento ao atendimento presencial, qualificando o cuidado e ampliando o acesso à saúde, e não apenas reduzindo custos.

Ecossistema capixaba impulsiona inovação

Além da tecnologia em si, o projeto evidencia o crescimento do ecossistema de inovação do Espírito Santo.

Segundo o médico e empreendedor Wilson Zatt, cofundador da Lauduz, o amadurecimento do ambiente de inovação no Estado foi decisivo para transformar a ideia em uma solução aplicada à saúde.

Recentemente, a empresa recebeu um aporte de R$ 5 milhões do Fundo Soberano do Estado do Espírito Santo (FUNSES 1), destinado à expansão das operações e ao desenvolvimento tecnológico.

Para Wilson, o fortalecimento das políticas de incentivo ao empreendedorismo cria condições para que empresas capixabas ganhem espaço nacional também na área da saúde digital.

“O Espírito Santo vem fortalecendo seu ambiente de inovação, incentivando o empreendedorismo e apoiando empresas de base tecnológica. Isso cria condições para que o Estado se destaque nacionalmente também na área da saúde digital”, conclui.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas