Lipedema: por que a doença atinge principalmente as mulheres?

Dor nas pernas, sensação constante de peso, inchaço persistente e acúmulo de gordura desproporcional nos membros inferiores. Embora esses sinais sejam frequentemente associados ao excesso de peso ou a problemas circulatórios, eles podem indicar uma condição ainda pouco conhecida pela população: o lipedema.

Estimativas apontam que milhões de mulheres convivem com a doença em todo o mundo, muitas vezes sem diagnóstico. O dado chama a atenção para uma característica marcante da condição: sua predominância quase exclusiva no público feminino.
Neste mês acontece a campanha Junho Roxo, movimento dedicado à conscientização do lipedema. Segundo a médica nutróloga Mariana Comério, um dos principais indícios para a predominância feminina está na influência hormonal.

“Observamos que o surgimento ou a piora dos sintomas costuma coincidir com períodos de grandes mudanças hormonais, como a puberdade, a gestação e a menopausa. Isso sugere uma forte participação dos hormônios femininos no desenvolvimento da doença”, explica.
Na prática, muitas pacientes relatam que os primeiros sinais surgiram ainda na adolescência, quando perceberam um aumento desproporcional do volume das pernas ou quadris em comparação ao restante do corpo. Em outros casos, a condição se manifesta ou se agrava após a gravidez ou durante a transição para a menopausa.

Além da questão hormonal, a genética desempenha papel importante. É comum encontrar histórico familiar da doença entre mães, avós, irmãs ou tias das pacientes diagnosticadas.
“O lipedema apresenta uma importante característica hereditária. Muitas mulheres chegam ao consultório e, ao investigarmos a história familiar, identificamos outros casos semelhantes que nunca receberam um diagnóstico adequado”, destaca a médica.

Apesar de atingir predominantemente mulheres, a condição ainda enfrenta desafios relacionados ao reconhecimento dos sintomas. Como o aumento de volume nos membros afetados frequentemente é confundido com obesidade ou retenção de líquidos, muitas pacientes passam anos buscando respostas sem sucesso.

Entre os sinais que merecem atenção estão a dor ao toque, o aparecimento frequente de hematomas, a sensação de peso nas pernas, o inchaço persistente e a dificuldade de reduzir a gordura localizada mesmo com dieta e atividade física.
Alimentação também faz parte do tratamento
Embora o lipedema tenha forte influência genética e hormonal, fatores relacionados ao estilo de vida podem impactar diretamente a intensidade dos sintomas e a qualidade de vida das pacientes.

Segundo a nutróloga Mariana Comério, uma das frentes mais importantes do tratamento envolve o controle dos processos inflamatórios associados à doença.
“Existe um componente inflamatório importante que pode contribuir para sintomas como dor, inchaço e desconforto. Por isso, a alimentação deve ser vista como parte integrante do tratamento”, afirma.

A médica explica que o acompanhamento nutricional vai muito além da perda de peso. O objetivo é desenvolver estratégias individualizadas capazes de auxiliar no controle da inflamação, melhorar a composição corporal e favorecer o bem-estar geral da paciente.

“Muitas mulheres chegam ao consultório acreditando que o problema está apenas na balança. No entanto, o tratamento do lipedema exige uma abordagem mais ampla, que inclui alimentação adequada, prática regular de atividade física, sono de qualidade e acompanhamento multiprofissional”, destaca.

De acordo com a médica, embora mudanças alimentares não eliminem a doença, elas podem contribuir significativamente para a redução de sintomas e para a melhora da qualidade de vida.

Diagnóstico precoce faz diferença
Embora não exista cura definitiva para o lipedema, o tratamento multidisciplinar pode ajudar a controlar os sintomas, reduzir a progressão da doença e preservar a funcionalidade das pacientes. A abordagem pode envolver acompanhamento nutricional, exercícios físicos orientados, terapias compressivas e, em situações específicas, procedimentos cirúrgicos.

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