Com 2,4 milhões de docentes no país, reta final do semestre expõe sobrecarga além da sala de aula

Com 2,4 milhões de professores atuando na educação básica brasileira, segundo dados do Censo Escolar 2025, o último mês do primeiro semestre letivo representa uma das fases mais intensas do calendário escolar. Além das aulas diárias, o período é marcado pela correção de provas, fechamento de notas, elaboração de relatórios e planejamento pedagógico, atividades essenciais para o processo de ensino, mas que nem sempre são realizadas dentro da jornada de trabalho.

A realidade contrasta com o que prevê a Lei Federal nº 11.738, de 2008. A legislação determina que um terço da carga horária dos professores da educação básica pública seja destinado às chamadas atividades extraclasse, como planejamento, avaliação e formação profissional. No papel, a medida busca garantir que essas tarefas sejam realizadas dentro do expediente, sem ocupar períodos destinados ao descanso ou à vida pessoal dos educadores.

Segundo o advogado especialista em Direito do Magistério, Amarildo Santos, a reta final do semestre apenas torna mais visível uma situação que acompanha os profissionais da educação ao longo de todo o ano letivo.

“O professor não trabalha apenas quando está em sala de aula. Existe toda uma estrutura de planejamento, preparação e avaliação que é essencial para o processo de ensino e aprendizagem. O problema é que, em muitos casos, esse tempo não é garantido de forma efetiva pelas redes de ensino”, afirma.

De acordo com o especialista, a chamada hora-atividade não representa um benefício concedido ao professor, mas uma condição necessária para que ele consiga desenvolver adequadamente seu trabalho.

“Existe um descompasso entre o que prevê a lei e a realidade das escolas. Muitos profissionais continuam levando atividades para casa, utilizando períodos que deveriam ser destinados ao descanso, à convivência familiar e à recuperação física e emocional”, destaca.

A discussão ganha ainda mais relevância em um momento de crescente preocupação com a saúde mental dos trabalhadores. Em maio deste ano, entrou em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1, que passou a exigir que empregadores identifiquem e gerenciem fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, incluindo situações como sobrecarga, pressão excessiva e condições que possam contribuir para o adoecimento mental.

Para Amarildo, embora a atividade docente envolva diferentes desafios, a sobrecarga de trabalho é um fator que não pode ser ignorado quando se discute a saúde dos profissionais da educação.

“Quando o tempo destinado ao planejamento não é respeitado, o professor não deixa de realizar as tarefas. Ele apenas transfere esse trabalho para momentos que deveriam ser de descanso. Isso gera desgaste acumulado e contribui para um cenário de exaustão que tem sido cada vez mais relatado pela categoria”, explica.

O especialista ressalta que a valorização do magistério passa também pelo cumprimento da legislação que regulamenta a jornada docente. “Avaliar o desenvolvimento dos alunos exige tempo e atualizar conhecimentos exige dedicação. Quando essas etapas são comprometidas, toda a comunidade escolar é impactada. Garantir o cumprimento da lei é uma forma de proteger o professor e fortalecer a qualidade da educação”, afirma.

Sobrecarga silenciosa aumenta risco de burnout entre professores

Com 2,4 milhões de docentes no país, reta final do semestre expõe sobrecarga além da sala de aula
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A rotina de levar atividades para casa, corrigir provas fora do expediente e acumular funções além da sala de aula tem impactos diretos na saúde mental dos professores. Segundo o neuropsicólogo e terapeuta comportamental André Zonta, a sobrecarga prolongada favorece o desenvolvimento de quadros de ansiedade, síndrome de burnout e até depressão.

O alerta ocorre em um momento de avanço dos afastamentos por transtornos mentais no país. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais foram concedidos em 2025, o maior número já registrado pelo sistema. Ansiedade e episódios depressivos estão entre as principais causas dos afastamentos.

De acordo com o especialista, o esgotamento costuma acontecer de forma gradual. Antes de chegar ao burnout, muitos profissionais passam a apresentar cansaço constante, irritabilidade, dificuldade de concentração, problemas de sono e uma sensação permanente de que nunca conseguem dar conta de todas as demandas.

“O mais comum é o esgotamento emocional progressivo onde o profissional vai perdendo o prazer pelo que faz, começa a se sentir ineficaz, e aquela vocação que um dia o moveu passa a parecer distante”, afirma Zonta.

Segundo ele, o problema se agrava quando o trabalho ultrapassa os limites da jornada e invade o tempo de descanso. Embora esteja fisicamente em casa, o professor continua mentalmente conectado às atividades da escola, seja corrigindo avaliações, planejando aulas ou respondendo mensagens. Esse processo reduz a capacidade de recuperação emocional e contribui para o aumento do estresse crônico.

Para o neuropsicólogo, o adoecimento dos educadores não pode ser tratado apenas como uma questão individual. Ele defende que redes de ensino e escolas adotem medidas que permitam a realização do trabalho pedagógico dentro da carga horária prevista, além de criar espaços permanentes de escuta e apoio psicológico aos profissionais.

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