O aumento no consumo de medicamentos voltados à saúde mental tem se tornado um dos fenômenos mais marcantes da vida contemporânea. No Brasil, o uso de antidepressivos cresceu 12,4% entre adultos de 29 a 58 anos, segundo levantamento da Funcional Health Tech. Hoje, esses medicamentos já figuram como o segundo tipo mais utilizado, atrás apenas dos antibióticos. O crescimento acompanha um quadro mais amplo. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, 10,2% da população adulta brasileira já recebeu diagnóstico médico de depressão e, entre essas pessoas, quase metade relatou uso recente de antidepressivos.
Nesse contexto, ansiedade, insônia e dificuldades de concentração passaram a figurar, com mais frequência, como condições a serem tratadas com fármacos, o que levanta uma questão central se estamos cuidando melhor da saúde mental ou transformando emoções em diagnósticos,
Renata Caveari, coordenadora e professora de Psicologia na Afya Centro Universitário Itaperuna, avalia que há um movimento ambíguo em curso. “Por um lado, houve um avanço importante no reconhecimento do sofrimento psíquico e na redução do estigma. Por outro, estamos cada vez mais intolerantes ao desconforto emocional, o que pode levar à busca rápida por soluções medicamentosas”, afirma.
Segundo ela, o desafio está em compreender os limites entre o que é esperado e o que exige intervenção. “É importante refletir sobre a intensidade, a duração e o impacto daquilo que sentimos. Em que momento esse sofrimento passa a nos impedir de realizar atividades do dia a dia?”
Thiago Apolinário, médico e professor na pós-graduação em Psiquiatria da Afya Ribeirão Preto, na mesma linha, reforça a importância de contextualizar o uso dos medicamentos. “A psicofarmacologia moderna transformou o prognóstico dos transtornos mentais graves. Em quadros como depressão maior ou psicoses, o medicamento não é opcional, ele é fundamental”, afirma. Ao mesmo tempo, faz o especialista um alerta: “O problema não está no remédio em si, mas quando ele passa a ser utilizado para anestesiar sofrimentos que são respostas normais à vida.”
Segundo o médico, fatores como pressão por desempenho, excesso de estímulos digitais, jornadas exaustivas e instabilidade econômica ajudam a explicar esse cenário. “Vivemos em uma sociedade que exige produtividade constante e performance em todas as esferas. Dessa forma, emoções como tristeza e cansaço acabam sendo vistas como falhas que precisam de correção rápida”, diz. Para ele, isso contribui para um processo de “patologização do normal” e para o aumento de quadros como burnout e ansiedade crônica.
Nesse sentido, a medicalização pode funcionar como um atalho. “Quando alguém recorre apenas à medicação sem investigar as causas do sofrimento, corre o risco de mascarar questões mais profundas”, explica Renata. Por isso, problemas relacionados ao trabalho, à falta de vínculos afetivos ou a condições sociais adversas, segundo ela, não se resolvem apenas com comprimidos.
Thiago destaca que, em quadros graves, o medicamento cumpre um papel estratégico. “Na fase aguda, o paciente muitas vezes está tão tomado pelo sofrimento que não consegue elaborar suas questões. A medicação estabiliza os sintomas e cria condições para que ele possa se beneficiar de outras abordagens, como a psicoterapia”, explica. No entanto, ele alerta para o risco de dependência quando o tratamento se restringe ao alívio dos sintomas. “Quando o paciente entende que o sofrimento é multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais, ganha mais autonomia no processo de cuidado.”
A banalização de diagnósticos também preocupa. Termos como “ansioso”, “deprimido” ou “hiperativo” têm sido usados com frequência no cotidiano, muitas vezes sem avaliação profissional adequada. Para Renata, isso pode impactar a autonomia do indivíduo, porque quando a pessoa se identifica exclusivamente com um diagnóstico, pode limitar sua capacidade de compreender a complexidade do que sente.
Outro ponto de alerta é o comportamento cada vez mais frequente de automedicação. “Muitas pessoas chegam ao consultório já fazendo uso de medicamentos por conta própria, em uma tentativa de resolver rapidamente o que estão sentindo. Isso reflete uma sociedade imediatista”, observa a psicóloga. Ela acrescenta que esse impacto também tem sido observado em crianças e idosos, que enfrentam dificuldades semelhantes para lidar com frustrações e tristezas.
A discussão sobre a medicalização da vida moderna não nega a importância dos medicamentos, mas propõe refletir sobre seu papel no cuidado em saúde mental, defendendo uma abordagem mais ampla que inclua psicoterapia, mudanças no estilo de vida e o fortalecimento de vínculos sociais. Como destaca o psiquiatra da Afya, embora os fármacos possam atuar no ajuste de neurotransmissores, eles não são capazes, por si só, de construir relações ou atribuir sentido à vida. Em uma cultura que privilegia soluções rápidas, o principal desafio está em encontrar equilíbrio, reconhecendo quando a intervenção medicamentosa é necessária, sem reduzir a complexidade da experiência humana a diagnósticos e prescrições.









