Picamalácia: quando o desejo por comer se torna uma síndrome

A picamalácia, uma condição caracterizada pelo desejo de consumir substâncias não alimentares, como tijolo, reboco e sabonete, por exemplo, tem sido observada principalmente em mulheres grávidas, mas sua ocorrência não se limita a esse grupo. Para entender melhor essa síndrome intrigante, a reportagem do ES Hoje buscou informações com especialistas na área.

O médico psiquiatra Vicente Ramatis, ao abordar a síndrome de pica, destaca que embora não seja uma ocorrência tão comum, era notavelmente prevalente em mulheres em áreas rurais. Ele explica que esse desejo peculiar de ingerir objetos estranhos está associado, em grande parte, à carência de nutrientes essenciais, especialmente os minerais zinco e ferro. No entanto, a causa exata não é completamente definida.

“O tratamento envolve a dosagem de vitaminas e sais, a identificação de carências específicas, acompanhamento psicológico e, muitas vezes, o uso de antidepressivos. A cura é possível com a adesão ao tratamento, embora o resultado dependa da predisposição a doenças e fatores ambientais, com complicações incluindo agravamento do estado psicológico e riscos orgânicos, como verminoses e infecções”, explica o psiquiatra.

O hematologista Douglas Covre esclarece que a síndrome de pica, também conhecida como picamalácia, é frequentemente associada à perda do apetite devido a deficiências nutricionais, sendo a deficiência de ferro a causa mais comum.

Embora o mecanismo exato desse desvio de apetite não seja completamente compreendido, sua prevalência é notável em pacientes com deficiência de ferro, além de ser observada durante a gravidez. A abordagem padrão para tratar essa condição envolve a reposição de ferro, podendo ser administrada até mesmo via endovenosa em casos mais intensos.

Picamalácia: quando o desejo por comer se torna uma síndrome
A síndrome de pica causa desejo em comer coisas que não são alimentos – Foto: reprodução/web

Covre ressalta que as complicações associadas à síndrome de pica estão intrinsecamente ligadas à deficiência nutricional subjacente. “No caso da deficiência de ferro, sintomas como anemia, fraqueza, sonolência, queda de cabelo e unhas quebradiças estão presentes, sendo a picamalácia um sintoma adicional. O prognóstico geral é positivo, com uma taxa de resposta de quase 100% ao tratamento, especialmente à reposição de ferro, que pode reverter eficazmente os sintomas”, disse.

Quando questionado sobre medidas preventivas, Covre destaca a importância da reposição profilática de ferro durante a gestação, o controle do fluxo menstrual para reduzir a perda de ferro e a investigação de possíveis fontes de sangramento em pacientes com deficiência de ferro. “A prevenção efetiva da deficiência de ferro é crucial para evitar o desenvolvimento da picamalácia”, esclarece.

Em relação à incerteza sobre por que algumas gestantes com deficiência de ferro desenvolvem a síndrome de pica enquanto outras não, Covre enfatiza a falta de compreensão da fisiopatologia e dos fatores específicos envolvidos, além das deficiências nutricionais e da gestação.

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