‘Canto da Jubarte’ leva conservação das baleias para salas de aula

A passagem anual das baleias-jubarte pelo litoral do Espírito Santo inspirou um projeto educacional que vem conquistando crianças dentro e fora da sala de aula. No CMEI Lizandre Carpanedo, em Jardim Camburi, Vitória, os gigantes dos mares se transformaram em tema de uma música criada pelo professor Juliano Nogueira.

Batizada de “Canto da Jubarte”, a composição apresenta às crianças a trajetória das baleias durante a migração e destaca os filhotes que nascem no litoral capixaba, hoje reconhecido como uma das principais áreas de reprodução da espécie no Brasil.

“Eu já tinha um encantamento especial com as baleias e, trabalhando no CMEI Lizandre, de frente para a praia, veio a inspiração. Durante o desenvolvimento de um projeto sobre animais marinhos com os alunos, decidi unir essa história da visitação das baleias ao Estado com uma forma lúdica de as crianças entenderem o tema”, conta o professor.

'Canto da Jubarte' leva conservação das baleias para salas de aula

 

Segundo Juliano, a música ultrapassou os muros da escola e passou a ser conhecida até mesmo por estudantes de outras unidades de ensino.

“Mesmo crianças que nunca foram minhas alunas conhecem o ‘Canto da Jubarte’. Um foi passando para o outro e espalhando a música. É muito gratificante ver que eles sabem a letra e entendem a importância da preservação do ambiente para que as baleias possam continuar voltando ao nosso litoral”, afirma.

A canção está disponível nas plataformas digitais YouTube Music, Spotify e Deezer.

Espírito Santo se consolida como berçário das jubartes

A inspiração para a música encontra respaldo em dados científicos recentes. Um estudo realizado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em parceria com o projeto Amigos da Jubarte, estima que 97 filhotes de baleia-jubarte nasceram no litoral capixaba apenas em 2025, em uma área compreendida entre os municípios da Serra e Guarapari.

A pesquisa também revelou a intensa presença dos animais na costa do Estado. Entre 2023 e 2025, cerca de 2 mil baleias passaram, em média, todos os anos pelo litoral capixaba durante o período migratório.

Para o pesquisador, ambientalista e diretor do projeto Amigos da Jubarte, Sandro Firmino, os resultados mudam a compreensão sobre o papel do Espírito Santo na conservação da espécie.

“Os dados surpreenderam positivamente e quebraram antigos paradigmas científicos. Anos atrás, imaginava-se que o mar capixaba funcionava apenas como uma área de passagem para as baleias que seguiam para reproduzir no litoral da Bahia. A pesquisa mostrou que o Espírito Santo se consolidou como um importante berçário de baleias-jubarte no Brasil. Descobrir e mapear esses bebês com ‘CPF capixaba’ trouxe uma nova percepção sobre a relevância biológica da região”, explica.

'Canto da Jubarte' leva conservação das baleias para salas de aula
Foto: Pedro Lima

Tecnologia ajuda a monitorar os animais

As baleias-jubarte percorrem cerca de 4 mil quilômetros desde a Antártida até a costa brasileira em busca de águas mais quentes para reprodução e criação dos filhotes.

Para monitorar essa movimentação, os pesquisadores utilizam drones, equipamentos de captação de sons e observação embarcada. Os filhotes recém-nascidos são identificados por características físicas e comportamentais e, apesar da pouca idade, já pesam cerca de quatro toneladas.

As imagens aéreas também permitem medir os animais e confirmar a presença dos filhotes com maior precisão.

'Canto da Jubarte' leva conservação das baleias para salas de aula
Foto: Bruna Rezende

Recorde de avistamentos

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi o registro de 96 avistagens de baleias em um único dia de monitoramento na região de Guarapari.

“Foi um número impressionante, que demonstra a alta densidade populacional das jubartes na costa capixaba em 2025”, destaca Firmino.

Segundo ele, as informações obtidas durante o monitoramento são fundamentais para orientar ações de preservação, especialmente durante o período em que as mães permanecem próximas à costa amamentando e protegendo os filhotes.

Os dados também podem subsidiar propostas para adequação de rotas de navegação e redução da velocidade de grandes embarcações em áreas sensíveis, diminuindo o risco de colisões com os animais.

“O monitoramento científico e os embarques turísticos pedagógicos continuam firmes a cada temporada. As saídas de campo e a coleta de dados seguem integradas às operadoras certificadas, garantindo a continuidade das pesquisas e o fortalecimento da conservação da espécie”, afirma.

'Canto da Jubarte' leva conservação das baleias para salas de aula
Foto: Bruna Rezende

Temporada de observação começa no litoral capixaba

A temporada de observação das baleias-jubarte no Espírito Santo acontece entre junho e novembro, com maior concentração de avistamentos entre agosto e outubro.

Durante esse período, moradores e turistas podem acompanhar de perto um dos maiores espetáculos naturais do litoral brasileiro. Saltos, batidas de cauda e interações entre grupos fazem parte do comportamento observado durante os passeios embarcados.

Muitas vezes, o primeiro sinal da presença das baleias é o borrifo de água lançado na superfície do mar. Pouco depois, surgem os saltos e outras exibições que transformam a temporada em uma das atrações naturais mais aguardadas do ano no Espírito Santo.

'Canto da Jubarte' leva conservação das baleias para salas de aula
Foto: Bruna Rezende

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