A duas semanas do primeiro turno, a corrida pelo Palácio Anchieta desenha um daqueles cenários em que o excesso de confiança em um duelo de dois pode custar a vaga na etapa final.
Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB) travam uma disputa acirrada pela liderança do eleitorado, frequentemente polarizando os holofotes e construindo estratégias espelhadas um no outro. O problema dessa tática do “um contra um” é ignorar uma premissa básica do processo eleitoral: a eleição para o governo é disputada em até duas etapas. E, neste momento, o jogo não é de dueto, é de cada um contra todos.
Na terceira colocação, o deputado federal e ex-prefeito de Cariacica, Helder Salomão (PT), continua correndo solto por fora. Se os líderes do topo continuarem com a guarda baixa voltada apenas para o rival imediato, um deles corre o risco real de ver a vaga no segundo turno escorrer pelos dedos.
Os números do momento e o peso do reduto
A apuração dos bastidores aponta que a fotografia do momento exige cautela extrema das equipes de campanha. Duas pesquisas de consumo interno realizadas nos últimos dias — e às quais o ES Hoje teve acesso exclusivo — confirmam que Pazolini lidera a corrida, mas revelam margens que impedem qualquer sinal de salto alto:
- No primeiro levantamento sem registro: Pazolini marca 36%, seguido por Ricardo Ferraço com 25%, enquanto Helder Salomão atinge 19% das intenções de voto.
- No segundo estudo interno: o ex-prefeito da capital soma 38%, o governador alcança 30%, e o petista pontua com 12%.
Vale ressaltar ao leitor que, por se tratarem de pesquisas sem registro na Justiça Eleitoral, os levantamentos não possuem margem de erro, amostragem declarada ou detalhamento por regiões. Trata-se de um termômetro interno de bastidor — e pesquisa é apenas o retrato de um momento volátil.
Analisando o quadro, o desempenho de Helder Salomão na primeira sondagem (19%) representa mais da metade da pontuação do segundo colocado. O petista carrega o recall político de Cariacica — terceiro maior colégio eleitoral do Espírito Santo —, cidade onde construiu sua base e consolidou sua projeção estadual.
O cálculo estratégico e o dilema do meio da tabela
Com a esquerda capixaba historicamente consolidada em pelo menos 25% do eleitorado local, a margem de crescimento de uma candidatura do PT em reta final não é irrelevante. O cenário ganha camadas adicionais de complexidade no campo de alianças do Palácio Anchieta:
A sinuca de bico de Ricardo Ferraço: posicionado no meio do fogo cruzado, Ricardo precisa decidir se mira exclusivamente em Pazolini para assumir a liderança ou se puxa o freio de arrumação em relação a Helder, sob o risco de ver a margem da segunda colocação encolher na reta final.
A contradição da base: Renato Casagrande (PSB), padrinho e liderança da coligação de Ricardo, é declaradamente eleitor do presidente Lula. O PSB capixaba liberou a militância, e o presidente Lula é a figura principal que alavanca o próprio Helder Salomão no Estado.
A reta final e a apatia da disputa
Ninguém está em posição confortável. Nem mesmo Pazolini, cujos números mostram estabilidade na liderança, pode dar como conquistada a fatia de eleitores que já possui.
Todas as pesquisas registradas e publicadas pelo Instituto Perfil/ES Hoje ao longo do ciclo eleitoral apontam um padrão claro: é exatamente nestes últimos 15 dias que o eleitor capixaba decide se debruçar sobre as propostas e definir o voto.
Até aqui, a campanha se desenhou como uma das mais frias da história recente do Estado — talvez pelo desgaste de um debate político antecipado ainda em 2025, que esgotou as energias antes da hora. Com um eleitorado desatento e decidindo em cima da hora, tratar o primeiro turno como página virada para antecipar o segundo pode ser o erro fatal dos favoritos.










