O senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado na eleição presidencial neste domingo (25), foi intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes (comum e diplomático) e está proibido de deixar o país, por decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes.
A decisão de Moraes prevê ainda que ele está proibido de se comunicar com Willer Tomaz, advogado que é amigo do senador e investigado por suspeita de lavagem de dinheiro.
Willer também é investigado pela operação Sem Desconto, contra fraudes no INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social). A relação entre Flávio e Willer, que estão no centro de uma investigação da PF por lavagem de dinheiro com bets, remonta ao menos a 2019.
A aproximação entre Flávio e o advogado começou quando Willer defendeu o ex-ministro do turismo de Jair Bolsonaro, Marcelo Álvaro Antônio, em uma denúncia por uso de candidaturas laranjas. Na CPI da Covid em 2021, aparece a primeira gravação em que Flávio chama o advogado de amigo.
Após aparecerem as primeiras suspeitas de sociedade entre Willer e Flávio, os dois reiteraram que os laços entre suas famílias eram apenas de amizade. Negaram também irregularidades.
Às vésperas da eleição de domingo, Moraes decretou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial de uma das holdings de Willer. Também determinou o cancelamento dos passaportes do investigado, inclusive um diplomático, a suspensão das atividades econômicas, financeiras e empresariais de todas as suas empresas.
SUSPEITA DE SOCIEDADE EM BET
A ligação mais direta entre o senador e o advogado até agora, de acordo com a PF, foi a presença de Flávio como usuário master da conta bancária de pessoa jurídica da Alcazar Holdings, uma companhia de Willer registrada na Ilha da Madeira. A informação foi revelada pelo UOL e confirmada pela Folha.
Como mostrou a revista piauí, Alcazar Holdings pode ter financiado a Cathedral, única acionista do conglomerado de bets Rede Loto. Esta empresa foi a primeira casa de apostas online a obter uma licença de operação no país, concedida pelo governo fluminense, como mostrou a Folha. O site da companhia se chamava BestBet.
A Rede Loto foi aberta em 17 de fevereiro de 2023, cerca de dois meses antes de o governo fluminense iniciar o licenciamento de sites de apostas. O responsável pelos trâmites era o presidente da Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro), Hazenclever Cançado, nomeado por Cláudio Castro, por sugestão de Flávio, e ex-colega de advocacia de Willer.
Segundo reportagem da revista piauí, a PF abriu um inquérito para investigar se o senador é sócio oculto da BestBet.
Willer e seus familiares detêm a maioria das ações da companhia portuguesa Cathedral Holdings, única acionista da Rede Loto, que controla a BestBet.
Como mostrou reportagem da Folha, a empresa que controla a BestBet pagou voos entre Portugal e França em 2025 para Flávio. Quando a informação foi revelada, a assessoria do senador disse que a relação dele com Willer é exclusivamente de amizade. “Associar essa afinidade pessoal a suposições de irregularidades é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”, afirmou à época.
VOOS PELO MUNDO
Segundo investigações da PF, Willer e Flávio compartilharam uma conta bancária de pessoa jurídica e viajaram juntos, ao lado de familiares, em jatos executivos para os Estados Unidos, Europa e África.
A sequência de viagens identificada pela PF começou em janeiro de 2025, quando Flávio, sua esposa, duas filhas e Willer voaram de Fort Lauderdale (EUA) para Brasília. O trajeto foi realizado no jato Legacy 650 (prefixo PP-NLR), de propriedade da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A. –sociedade controlada pela Prime You, fundada por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A aeronave é a mesma que, segundo a PF, seria usada em uma tentativa de fuga para Dubai. Willer afirmou ter custeado o trecho com horas de sua própria cota e declarou que os passageiros viajaram como seus convidados.
VISITAS À MANSÃO EM ILHA NO RJ
Em julho de 2020, Flávio visitou pela primeira vez uma ilha no Rio de Janeiro que, desde 2022, tem seus direitos de posse cedidos a uma empresa de gestão de ativos imobiliários de Willer.
O imóvel, avaliado em R$ 10 milhões, está no centro de uma disputa judicial entre Willer e o jogador Richarlison, na qual Flávio é testemunha. O atleta afirma que comprou o imóvel em 2020.
Em 13 de maio de 2022, uma liminar consolidou o entendimento de que o direito de uso do espaço era de Willer. Vizinhos do local e o jogador Richarlison, entretanto, afirmam que é Flávio quem mais frequenta o local.
No último dia 17, o jogador e um grupo de advogados pediram que a PF investigue o envolvimento do senador na disputa pela posse da propriedade de luxo em Angra dos Reis (RJ). Segundo o atleta, o imóvel foi tomado “na mão grande” por meio de manobras judiciais.
O senador negou qualquer atuação irregular, afirmando manter apenas relação de amizade com Tomaz. Já o empresário afirmou que adquiriu legalmente os direitos sobre o terreno e desembolsou R$ 5 milhões para regularizar pendências fiscais do imóvel, classificando os antigos ocupantes como invasores.
IMÓVEL COMPARTILHADO
Ainda estão no mesmo endereço empresas abertas em nome de Flávio e de Antônio Carlos Camilo, o Careca do INSS, ambos ligados a Tomaz por investigações contra lavagem de dinheiro da PF. A coincidência foi revelada pelo site ICL.
A empresa de capacetes de grafeno, Bravo Grafeno, da qual Flávio e o pai, Jair Bolsonaro, são sócios, está na mesma sala comercial em Águas Claras, cidade-satélite do DF, que a construtora de Camilo, a RPLD.
O Careca do INSS tem um principal sócio, Alexandre Caetano dos Reis, cuja irmã, Letícia Caetano dos Reis, é diretora estatutária do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. O endereço do escritório é a casa de R$ 6 milhões, que Flávio quitou com um pagamento à vista de R$ 3,4 milhões ao BRB (Banco de Brasília).
O UOL revelou que o escritório de advocacia de Flávio emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Metade dessas notas foi emitida para pagamento por outros advogados.
Em notas anteriores, Flávio afirmou que as notícias sobre seu escritório são tentativas de criminalizar a advocacia.
CLIENTE EM COMUM
Durante a campanha presidencial, Flávio também atuou paralelamente como advogado de um empresário cliente de Willer. O senador ingressou no caso em 2022 como representante de Mário Gadelha Simas Filho, em uma disputa de sócios da Simas Industrial de Alimentos, uma das maiores fábricas de balas e pirulitos do país.
À época, Willer também advogava para o empresário e não teve sua representação revogada nos autos, mas, desde então, foi Flávio quem passou a assinar as peças do caso.
PELOTAS, RS (FOLHAPRESS)










