O tabuleiro político da Grande Vitória ganhou contornos surpreendentes após uma recente rodada de pesquisas internas na Região Metropolitana. O estudo, que buscou medir o termômetro das administrações municipais, confirmou o que os bastidores já desenhavam: Euclério Sampaio (MDB) consolidou-se como o prefeito mais bem avaliado do Espírito Santo, ostentando impressionantes 78% de aprovação entre o eleitorado (bom e ótimo).
O número isola Cariacica no topo do ranking das quatro principais cidades da Grande Vitória. Mas onde está o segredo desse fenômeno que fez o emedebista romper barreiras ideológicas no terceiro maior colégio eleitoral do estado?
A resposta está na capacidade de Euclério entrar em todas as esferas da sociedade. O dado qualitativo mais forte da pesquisa revela que até mesmo o eleitor que se declara politicamente distante ou “antipático” à sua figura reconhece a entrega da gestão, apontando a zeladoria, os serviços cotidianos, a limpeza e a organização da cidade como marcas incontestáveis.
O fenômeno Euclério não é exatamente uma novidade para quem acompanha o terceiro maior colégio eleitoral do Espírito Santo — vale lembrar que, mesmo hospitalizado em 2024, ele foi reeleito com avassaladores 88% dos votos válidos.
Aliado de primeira hora no MDB
No xadrez que se desenha para o governo, a musculatura de Euclério é peça fundamental no projeto de reeleição de Ricardo Ferraço (MDB). O prefeito de Cariacica é um aliado de primeira hora. A conexão entre ambos foi selada de forma simbólica em outubro de 2023, quando Euclério se filiou ao MDB exatamente no mesmo dia e hora em que Ferraço assumiu o comando oficial da legenda no estado. Adobradinha foi mantida quando, em março, Ricardo foi reeleito presidente da sigla, com Euclério vice e, atualmente, à frente por força de legislação eleitoral.
A presença de Euclério na linha de frente é uma arma estratégica crucial para neutralizar o avanço da esquerda na região. Cariacica é o berço político do ex-prefeito e atual deputado federal Helder Salomão (PT), que desponta como candidato ao governo. Diante de um adversário com forte recall local, Ricardo precisa do “escudo” de Euclério para segurar o território.
O desafio prático da transferência de voto de Euclério
A grande questão que tira o sono dos marqueteiros, no entanto, é o abismo histórico que separa a aprovação de uma gestão municipal da transferência real de votos para cargos estaduais ou federais. Ter 78% de ‘bom e ótimo’ significa que o eleitor quer Euclério cuidando da cidade, mas não garante que ele seguirá sua indicação para o Palácio Anchieta.
Analistas de bastidor apontam que tanto Euclério em Cariacica quanto o grupo de Sérgio Vidigal e Weverson Meireles (PDT) na Serra enfrentarão sérias dificuldades para carimbar os votos de seus eleitores no nome de Ricardo Ferraço. O motivo reside na própria natureza da imagem pública do governador. Ricardo ainda não “conquistou” organicamente esse eleitorado de base na Região Metropolitana. Ele é visto como um técnico experiente, sem grandes índices de rejeição, mas também carece de uma “marca popular” que gere paixão ou identificação imediata nas periferias da Grande Vitória.
O diagnóstico sobre essa ausência de protagonismo foi dado pelo próprio Renato Casagrande (PSB). Em entrevista recente ao programa EntreVista, do canal de ES Hoje no YouTube, o ex-governador detalhou os motivos que o levaram a planejar sua saída antecipada do Palácio Anchieta para focar no projeto ao Senado, deixando a máquina sob o comando do vice:
“A política tem isso, se você decide fora do tempo, tem consequência. (…) O Ricardo assumiu o governo agora. Ele era meu secretário, meu vice-governador, com muitas tarefas administrativas, mas a visibilidade era minha, não era dele. Ele como pré-candidato, assumindo o governo como gestor e liderança política, passa a ser conhecido e reconhecido.” — Renato Casagrande
A necessidade do “Fator Casagrande” na campanha
A análise de Casagrande expõe a realidade: por passar anos operando nos bastidores administrativos do governo anterior, a expressividade eleitoral de Ricardo Ferraço na Grande Vitória é menor do que seu currículo político sugere.
Por isso, o apoio dos prefeitos da coalizão — que inclui também Arnaldinho Borgo (PSDB) em Vila Velha, Wanderson Bueno (Podemos) em Viana e Rodrigo Borges (Republicanos) em Guarapari — é a espinha dorsal da pré-campanha. Porém, o desenho atual das pesquisas internas mostra que o empenho dos prefeitos isoladamente não será suficiente.
A sustentação de Ricardo nos debates e na consolidação de uma narrativa de continuidade exigirá uma imersão muito mais profunda do próprio Renato Casagrande. Caberá ao ex-governador transferir o seu próprio prestígio político para chancelar o sucessor. Resta saber até que ponto Casagrande conseguirá isso, visto que tem a sua própria — e pesada — campanha rumo ao Senado Federal. A engrenagem está montada, mas o motor da transferência de votos ainda precisa de muito combustível.










