Importunação sexual em ônibus: reincidência de agressores amplia medo de mulheres no ES

Uma viagem de poucos minutos pode se transformar em um trauma que dura anos. Dentro de ônibus do transporte coletivo, mulheres continuam sendo vítimas de importunação sexual no Espírito Santo. O problema vai além da violência em si: em diversos casos, os suspeitos já haviam sido presos anteriormente pelo mesmo crime e voltaram a atacar, ampliando a sensação de insegurança entre as passageiras.

Nesta terça-feira (14), uma jovem de 20 anos foi vítima de importunação sexual dentro de um ônibus do sistema Transcol, em Vila Velha. O suspeito, um homem de 66 anos, foi preso após a vítima denunciar que ele passou a mão em suas pernas e praticou atos obscenos durante a viagem.

Ao chegar ao Terminal de Itaparica, a jovem gritou por ajuda e acionou o motorista do coletivo. Policiais militares que realizavam patrulhamento no local foram chamados e prenderam o suspeito. Segundo a Polícia Militar, o homem já havia sido preso anteriormente por suspeita de praticar importunação sexual em coletivos.

Importunação sexual em ônibus: reincidência de agressores amplia medo de mulheres no ES
Pela 2ª vez no ano, homem é preso por importunação sexual dentro do Transcol.

O episódio registrado em Vila Velha não é um caso isolado. Em setembro de 2025, um homem de 33 anos foi detido pela Guarda Civil Municipal de Vitória (GCMV) após ser acusado de importunar sexualmente uma passageira dentro de um ônibus, no bairro Bento Ferreira. O suspeito era reincidente e teria cometido o mesmo crime pela segunda vez naquele ano.

O caso ocorreu na Avenida César Hilal. Segundo testemunhas, o homem praticou o ato quando o coletivo parou para o desembarque de passageiros. Outros ocupantes do ônibus presenciaram a cena e alertaram o motorista, que interrompeu a viagem e acionou uma equipe da Guarda que patrulhava a região.

Para entender os impactos emocionais causados às vítimas, os fatores que contribuem para a reincidência dos agressores e quais são os direitos das mulheres diante desse tipo de violência, o ES Hoje conversou com especialistas e autoridades.

Trauma que permanece após a viagem

Segundo a doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Nohana Emanuelly Cassiano da Silva, que pesquisa violência baseada em gênero, os impactos emocionais variam conforme a forma como a violência ocorreu e o suporte recebido pela vítima.

“Relatos de vítimas e a literatura apontam que os principais impactos emocionais estão no desenvolvimento de quadros ansiosos, da baixa autoestima e na sintomatologia ligada ao trauma, como flashbacks e a hipervigilância, que refletem o medo de vivenciar a situação novamente”, explicou.

Ela afirma que, além do trauma provocado pelo crime, muitas mulheres enfrentam medo e vergonha na hora de denunciar.

“Ao denunciar, a mulher pode se deparar com falta de acolhimento e descrença quanto ao que viveu. Esse momento é decisivo não só para quem denuncia, mas também para encorajar outras mulheres a fazerem o mesmo. O medo da inação da Justiça também possui um peso significativo na decisão de denunciar.”

Segundo a pesquisadora, acolhimento, apoio profissional e uma rede de suporte são fundamentais para minimizar os impactos da violência.

“Não há uma única maneira de lidar com situações traumáticas. Tudo

Importunação sexual em ônibus: reincidência de agressores amplia medo de mulheres no ES
Especialista, Nohana Emanuelly Cassiano da Silva, fala sobre os impactos variam de pessoa para pessoa e dependem da forma como a importunação sexual ocorre.

depende do impacto da violação sobre a vítima e do suporte social recebido. O acolhimento de pessoas próximas e a ajuda profissional são centrais nesse processo.”

Ela acrescenta que a necessidade de acompanhamento psicológico costuma aparecer quando o trauma começa a comprometer a rotina.

“Os principais sinais são os prejuízos sociais e funcionais decorrentes da violação, que demonstram impacto direto na socialização, no trabalho e no autocuidado.”

A especialista também orienta familiares e amigos a acolherem a vítima sem julgamentos.

“É fundamental validar a violência sofrida, evitar qualquer culpabilização ou minimização do ocorrido, além de incentivar a denúncia, quando a vítima se sentir confortável, e a busca por ajuda profissional.”

“Não se cale”: delegada reforça importância da denúncia

A chefe da Divisão Especializada de Atendimento à Mulher (Div-Deam), delegada Cláudia Dematté, reforçou a importância da denúncia e destacou que muitas mulheres são surpreendidas por esse tipo de violência durante deslocamentos cotidianos.

Segundo ela, atos como toques sem consentimento e gestos obscenos representam uma grave violação da dignidade sexual e refletem uma cultura de objetificação do corpo feminino.

“É uma das piores violências que uma mulher pode sofrer e, infelizmente, ainda é resultado de uma estrutura machista da sociedade, em que muitos homens enxergam o corpo feminino como objeto. Isso é inaceitável.”

A delegada destacou que a Polícia Civil atua diariamente na investigação desses crimes e no cumprimento de mandados contra suspeitos de violência sexual.

“Não se cale jamais. Denuncie o homem que pratica esse tipo de violência. Ele será investigado e poderá ser preso.”

Crime prevê até cinco anos de prisão

O Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), por meio do Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres (Nevid), explica que a importunação sexual é crime previsto no artigo 215-A do Código Penal.

A conduta consiste na prática de ato libidinoso sem o consentimento da vítima, com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiros. A pena prevista é de um a cinco anos de reclusão, caso o fato não constitua crime mais grave.

O órgão destaca que a vítima tem direito ao atendimento humanizado, à investigação dos fatos, ao acesso à Justiça e ao acompanhamento pela rede de proteção, podendo também receber assistência psicológica, social e orientação jurídica.

Importunação sexual em ônibus: reincidência de agressores amplia medo de mulheres no ES
Importunação sexual viola a dignidade das vítimas e revela uma cultura de objetificação do corpo feminino, segundo especialistas.

Como ocorre a responsabilização

Após o registro da ocorrência, a Polícia Civil instaura investigação para reunir provas, ouvir testemunhas e identificar o autor. Concluído o inquérito, o caso é encaminhado ao Ministério Público, que analisa os elementos coletados e, havendo indícios suficientes de autoria e materialidade, oferece denúncia à Justiça.

Durante o processo, são assegurados ao acusado o contraditório e a ampla defesa. Em caso de condenação, a pena pode variar de um a cinco anos de reclusão.

Segundo o MPES, denunciar é essencial para interromper o ciclo da violência e aumentar as chances de responsabilização do agressor.

“Muitas situações de importunação sexual ocorrem em ônibus e terminais, locais que frequentemente contam com câmeras de monitoramento e testemunhas. Quanto mais rápida for a comunicação do fato, maiores são as chances de preservar provas e identificar o autor.”

Medo e vergonha ainda impedem muitas denúncias

Embora a legislação tenha avançado, o Ministério Público afirma que a subnotificação ainda é um dos principais desafios no enfrentamento desse tipo de crime.

“Muitas vítimas deixam de denunciar por medo, vergonha, sentimento de culpa, receio de não serem acreditadas ou por acreditarem que ‘não dará em nada’.”

Outro obstáculo é a identificação do agressor, principalmente quando ele consegue deixar o local antes da chegada da polícia ou quando não há testemunhas e imagens que auxiliem a investigação.

O MPES também defende a capacitação permanente de motoristas, cobradores, fiscais e demais profissionais do transporte público para acolher vítimas, acionar as autoridades e preservar provas.

“O enfrentamento dessa violência depende da atuação integrada entre órgãos de segurança pública, Ministério Público, Poder Judiciário, empresas de transporte e sociedade.”

Orientação é denunciar e preservar provas

As autoridades orientam que vítimas procurem ajuda imediatamente e registrem a ocorrência o mais rápido possível.

Sempre que possível, a recomendação é comunicar o motorista, cobrador, fiscais ou agentes responsáveis pelo transporte para que sejam adotadas medidas imediatas, como o acionamento da polícia e a preservação das imagens das câmeras de segurança.

Também é importante informar características do suspeito, roupas, horário, linha do ônibus, local do crime e possíveis testemunhas.

O MPES reforça que a palavra da vítima possui especial relevância na apuração dos crimes sexuais, especialmente quando analisada em conjunto com outros elementos de prova.

Transporte público reforça canais de denúncia

A Ceturb-ES informou que todos os motoristas do Sistema Transcol recebem treinamento para orientar vítimas a registrar boletim de ocorrência e acionar a polícia.

A companhia também reforça que passageiros que presenciarem situações de importunação sexual devem denunciar pelo telefone 181.

Além disso, todos os ônibus e terminais do Transcol possuem câmeras de videomonitoramento, cujas imagens podem ser ser utilizadas pelas autoridades para auxiliar na identificação e responsabilização dos autores.

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