Mapa dos roubos: bairros da Grande Vitória concentram mais de 2,4 mil ocorrências em cinco meses

Quem nunca saiu de casa e ouviu um alerta como: “Guarda o celular, não deixe à mostra”? Ou então evitou atender uma ligação na rua por medo de ser assaltado? Há ainda quem carregue a bolsa à frente do corpo ou escolha acessórios mais discretos para não chamar a atenção de criminosos.

Esse tipo de preocupação faz parte da rotina de muitos moradores da Grande Vitória. Embora os roubos possam acontecer a qualquer momento, os dados mostram que alguns bairros, dias da semana e horários concentram mais ocorrências.

Levantamento realizado pelo ES HOJE, com base em dados do Observatório da Segurança Pública, identificou os bairros com maior número de registros de roubo a pessoas em via pública entre janeiro e maio de 2026, além dos períodos em que esse tipo de crime ocorre com mais frequência.

Panorama dos registros

Nos cinco primeiros meses de 2026, a Grande Vitória registrou 2.414 ocorrências de roubo a pessoas em via pública. A Serra lidera o ranking, com 697 casos, seguida por Cariacica (650), Vila Velha (613) e Vitória (454).

Apesar das particularidades de cada município, os registros se concentram principalmente no período da noite, entre 19h e 21h.

Bairros mais afetados:
Jardim Limoeiro: 59 casos – 8,46%
Parque Residencial Laranjeiras: 53 casos – 7,60%
Colina de Laranjeiras: 27 casos – 3,87%
Porto Canoa: 25 casos – 3,59%
Carapina: 24 casos – 3,44%

Mapa dos roubos: bairros da Grande Vitória concentram mais de 2,4 mil ocorrências em cinco meses
Serra registra 697 roubos em via pública entre janeiro e maio de 2026, com pico às segundas-feiras.

Cariacica soma 650 registros
Em Cariacica, foram contabilizados 650 casos no período analisado. O dia da semana com maior ocorrência é o sábado, e o horário mais crítico é às 20h.

Bairros mais afetados:
Campo Grande: 73 casos – 16,22%
Jardim América: 23 casos – 5,11%
Vila Capixaba: 22 casos – 4,89%
Morada de Santa Fé: 16 casos – 3,56%
Nova Rosa da Penha e São Geraldo: 14 casos – 3,11%

Mapa dos roubos: bairros da Grande Vitória concentram mais de 2,4 mil ocorrências em cinco meses
Cariacica registra 650 roubos em via pública entre janeiro e maio de 2026, com pico aos sábados e às 20h.

Vila Velha registra 613 ocorrências
Vila Velha somou 613 ocorrências no período. O dia com maior registro é a quinta-feira, com pico de ocorrências também às 19h.

Bairros mais afetados:
Praia da Costa: 55 casos – 8,97%
Glória: 35 casos – 5,71%
Praia de Itaparica: 34 casos – 5,55%
Itapoã: 33 casos – 5,38%
Jockey de Itaparica: 30 casos – 4,89%

Mapa dos roubos: bairros da Grande Vitória concentram mais de 2,4 mil ocorrências em cinco meses
Vila Velha registra 613 roubos em via pública entre janeiro e maio de 2026, com maior incidência às quintas-feiras e às 19h.

Vitória registra 454 casos
Na capital, foram registrados 454 casos. O dia com maior incidência é o domingo, e o horário mais crítico é 21h.

Bairros mais afetados:
Centro: 55 casos – 12,11%
Jardim Camburi: 54 casos – 11,89%
Jardim da Penha: 45 casos – 9,91%
Enseada do Suá: 40 casos – 8,81%
Ilha do Príncipe: 30 casos – 6,61%

Mapa dos roubos: bairros da Grande Vitória concentram mais de 2,4 mil ocorrências em cinco meses
Vitória registra 454 roubos em via pública entre janeiro e maio de 2026, com maior incidência aos domingos e às 21h.

Análise técnica do especialista

Doutorando em Ciências Sociais pela Ufes, mestre em Segurança Pública e pesquisador em sistemas policiais e de segurança pública, o professor Rusley Medeiros realizou uma avaliação técnica. Segundo o especialista, roubos e furtos em vias públicas são crimes de oportunidade, em que criminosos buscam vítimas e avaliam a viabilidade da ação antes de agir.

“Há uma máxima no mundo do crime que diz: ‘Onde se mora, não se rouba’. Embora pareça uma frase clichê, essa lógica é adotada nas principais análises que fazemos. É justamente por isso que crimes patrimoniais, observando essas duas lógicas, ocorrem em locais com maior movimentação, em áreas mais nobres e com maior circulação de bens em potencial e fora de regiões mais suscetíveis de crimes contra a vida em razão de disputa territorial e de tráfico”, explicou.

“Economia do crime” e lógica de oportunidade

Rusley Medeiros menciona ainda que o comportamento criminoso segue o que especialistas chamam de “economia do crime”, baseada em uma lógica de oportunidade.

“O criminoso faz o que chamamos de economia do crime, ou seja, a facilidade da prática, a reduzida possibilidade de reação da vítima ou de terceiros e de não ser capturado. Além disso, horários com menor luminosidade, mas que ainda tenham circulação são mais propícios, por isso a incidência de crimes entre 19h e 21h.”

Mapa dos roubos: bairros da Grande Vitória concentram mais de 2,4 mil ocorrências em cinco meses
Doutorando em Ciências Sociais pela Ufes, mestre em Segurança Pública e pesquisador em sistemas policiais e de segurança pública, o professor Rusley Medeiros realizou uma avaliação técnica. Segundo o especialista, roubos e furtos em vias públicas são crimes de oportunidade, em que criminosos buscam vítimas e avaliam a viabilidade da ação antes de agir.

Dinâmica urbana e vulnerabilidade dos bairros

Ainda segundo o especialista, essas situações não refletem apenas comportamentos diferentes, mas uma lógica da “economia do crime”, que considera os principais fatores que favorecem a prática criminosa.

“Temos nisso menor iluminação, maior circulação de pessoas e bens, menor chance de captura e melhor rota/possibilidade de fuga, que são características que, em regra, farão parte da análise. Não existe crime sem vítima e, por isso, o criminoso vai onde a vítima se encontra e, encontrando-a, irá analisar se as circunstâncias são propícias para a prática.”

Horário comercial e atuação policial

O professor reforçou ainda que isso é algo inerente aos crimes patrimoniais tradicionais, como furtos e roubos. Segundo ele, também devem ser considerados fatores como a existência de centros comerciais, a presença policial — não apenas no território, mas também nos horários — e a facilidade de se misturar à população. Como destacou, o crime não é um acaso, mesmo quando é de oportunidade: ele reúne características que favorecem sua ocorrência.

No caso de Vitória, especialmente na região do Centro, o professor destaca que se trata de uma área com iluminação mais deficiente e menor circulação de pessoas, o que amplia a possibilidade de atuação de criminosos. Ele também aponta fatores que podem contribuir para a ocorrência de crimes em Vila Velha, Serra e Cariacica.

“Logo, justifica-se uma atuação no domingo às 21h. Todavia, quando se fala de Jardim Camburi, Jardim da Penha e Enseada do Suá, são bairros mais nobres, mas também populosos e com grande circulação de pessoas e bens. Esse mesmo fenômeno vai ocorrer na Praia da Costa, Glória e Praia de Itaparica, em Vila Velha; Jardim Limoeiro, Parque Residencial Laranjeiras e Colina de Laranjeiras, na Serra; e Campo Grande, Jardim América e Vila Capixaba, em Cariacica. Assim, a prática do crime adota a lógica de circulação de pessoas e bens e facilitação da atuação”, menciona.

O doutorando realça que, no horário comercial (das 8h às 18h), Guardas Municipais e Polícia Militar têm maior efetivo em circulação, o que aumenta a chance de captura e reduz a atuação dos criminosos.

“Uma grande questão é que as forças de segurança, sejam Guardas Municipais ou a Polícia Militar, em horário comercial (08h às 18h), possuem maior efetivo no trabalho preventivo e de circulação, o que faz com que aumente a possibilidade de captura do criminoso e, por isso, reduza sua viabilidade. A partir das 19h há uma redução do efetivo ordinário em todas as corporações e, justamente por isso, passa a haver maior chance de sucesso na prática criminosa. Infelizmente, nosso sistema de segurança não está totalmente alinhado com uma gestão que priorize o cidadão e sua proteção de forma sistêmica.”

Fatores que favorecem a criminalidade

O especialista completou ainda que a polícia deve atuar de maneira constante e efetiva, mas explicou que existem limitações de efetivo e de circunstâncias que impedem uma melhora nessa prática.

“Redução da iluminação natural, menor efetivo policial nas ruas, maior possibilidade de fuga e circulação de bens/pessoas são elementos que, reunidos, tornam a prática oportuna. Por isso, crimes entre 19h e 21h representam o deslocamento da população trabalhadora para suas residências, mas com fluxo menor que no horário de pico, pelo cansaço, menor chance de preocupação e atenção na circulação por parte da população, menor efetivo policial nas ruas e em atuação preventiva e maior chance de fuga, principalmente pela redução da iluminação natural. O crime encontra a oportunidade!”

Para Rusley Medeiros, os bairros que concentram mais registros compartilham características que favorecem a ação criminosa, como intensa circulação de pessoas e bens, rotas de fuga facilitadas e menor percepção de vigilância em determinados horários.

Segundo ele, medidas como ampliação da iluminação pública, reforço do videomonitoramento, instalação de totens de segurança e aumento do policiamento ostensivo nos horários de maior incidência podem contribuir para a redução dos índices.

“A Grande Vitória já possui áreas com concentração conhecida de crimes patrimoniais. O desafio é transformar esse conhecimento em ações permanentes e estratégicas, especialmente nos horários em que os registros são mais frequentes”, concluiu.

A Polícia Militar do Espírito Santo foi procurada para comentar as ações de policiamento nos bairros citados, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.

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