Operação Baest: Macário pode ter envolvimento com suposto “braço financeiro” do PCV

Em desdobramento de operação da Polícia Federal que levou à prisão o desembargador federal capixaba Macário Júdice Ramos, foram incluído informações de que o magistrado também foi identificado na Operação Baest. A ação, deflagrada pela Polícia Civil do Espírito Santo em maio de 2025 mirou em crimes como lavagem de dinheiro, organização criminosa, tráfico de drogas, entre outros, ligados à facção Primeiro Comando de Vitória (PCV).

Macário atuava no Rio de Janeiro como juiz federal no TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região) e está preso preventivamente sob suspeita de vazar informações de investigação ao presidente afastado da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), Rodrigo Bacellar (União).

Os diálogos suspeitos de Macário encontrados pela PCES foi com um dos alvos da ação, o empresário Adilson Ferreira, cujo celular continha conversas com o magistrado que indicavam a atuação dele em licitações no âmbito estadual. O relatório final da operação foi concluído em 24 de setembro com o indiciamento de Ferreira sob suspeita de ser um dos responsáveis pela lavagem de dinheiro da facção.

Afastamento de delegados

A partir da conclusão do relatório da Operação Baest, os quatro delegados que assinaram o documento foram retirados de seus cargos. O delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, retirou nesse mesmo dia Alan Moreno de Andrade do Ciat (Centro de Inteligência e Análise Telemática). Em 2 de outubro, José Lopes Pereira deixou a coordenação da unidade. Em dezembro, Ricardo de Almeida Soares foi transferido do Departamento de Homicídios para o de Narcóticos.

Casagrande, por sua vez, exonerou em 24 de outubro o delegado Romualdo Gianordoli Neto do cargo de subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança. Ele chegou a assumir um posto de assessor na pasta, mas foi dispensado em dezembro.

Logo após a saída, Romualdo passou a afirmar que foi afastado em razão do avanço da Operação Baest sobre “um empresário da Serra”, em referência a Ferreira. “Esse indivíduo tem contato com várias pessoas do alto escalão da sociedade. Pessoas que têm contato com o governo e pessoas que têm contato com a Polícia Civil, que infelizmente se encontra bastante corroída”, afirmou ele, em sua rede social.

Romualdo afirma que sua exoneração da subsecretaria ocorreu três dias depois de uma reunião na cúpula da Secretaria de Segurança Pública sobre os desdobramentos da Operação Baest.

À Folha de São Paulo o secretário de Segurança do Espírito Santo, Leonardo Damasceno, afirmou que nem ele nem o governador têm conhecimento da existência de diálogos envolvendo o magistrado. Disse também que as exonerações ocorreram por desgaste de parte da equipe que atuou no inquérito com o delegado-geral.

A relação entre Casagrande e Macário é alvo de pedido de abertura de inquérito feito pela Polícia Federal ao STF (Supremo Tribunal Federal). Ele também negou que as movimentações tenham relação com os diálogos considerados suspeitos de Macário com Adilson. O secretário disse não saber das evidências, bem como o governador. “Não tenho esse hábito de tomar conhecimento de investigação sigilosa da Polícia Civil, muito menos o governador”, disse Damasceno.

Em relação ao delegado Romualdo, ele afirma que o desgaste institucional gerou um procedimento apuratório dentro da Corregedoria da Polícia Civil. Segundo o secretário, o ex-subsecretário é alvo de uma investigação por “apropriação de dados da Polícia Civil”. “Ele trouxe os policiais que a gente deixava à disposição da polícia de volta para a secretaria. E esses policiais teriam trazido junto documentos que são da Polícia Civil, documentos de investigação dessa operação e de outras. Isso gerou um desgaste institucional. Não teve outra alternativa naquele momento que não dispensá-lo daquela função. Eu não posso ter um subsecretário de Inteligência brigando com o delegado-geral”, disse.

Damasceno afirma que nomeou Gianordoli como assessor, mas teve de exonerá-lo de novo porque Romualdo começou a ter uma atuação política junto ao MBL (Movimento Brasil Livre). O delegado nega as acusações de apropriação de dados e afirma que as apurações abertas na Corregedoria são parte das ações políticas provocadas após a Operação Baest. Ele disse também que ainda não decidiu se vai se candidatar, mas declarou não estar filiado a partido político.

Damasceno afirma que a quebra de confiança entre Romualdo e o delegado-geral também atingiu o delegado Alan Moreno. Em relação a Pereira, disse que ele é delegado-geral adjunto, a “segunda pessoa mais poderosa da Polícia Civil”. “Ele não caiu, não foi desprestigiado”.

Segundo o secretário, Pereira estava na coordenação do Ciat apenas para acompanhar, a pedido do delegado-geral, o trabalho de Alan. “O delegado-geral não confiava mais, ou não tinha relação de confiança, com o doutor Alan. Como ele não tinha, ele colocou quem? A pessoa de maior confiança dele, que é o 02 da instituição. Para quebrar um galho.”
Damasceno disse também que Soares deixou o Departamento de Homicídios para assumir o de Narcóticos, “tão importante quanto”.

À Folha o advogado Douglas Luz, que representa Adilson Ferreira, afirmou que as acusações contra seu cliente são “infundadas com rubrica de interesse político e de autopromoção”. “Todas elas estão sendo devidamente rechaçadas. Esse é um relatório unilateral e que até o presente momento, quase seis meses após a sua elaboração, o Ministério Público sequer concordou com as indevidas imputações ali realizadas, eis que não houve oferecimento de denúncia”, disse ele.

Ele afirmou também que os diálogos do empresário com o magistrado não contêm “qualquer referência a atos ilícitos”. “A remessa de eventuais diálogos à PF foi apenas uma medida de cautela.”

Capixaba esposa do juiz Macário Júdice é indiciada pela Polícia Federal

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