Mais de 417 mil capixabas estão na fila para atendimento médico especializado

Há seis meses Flávio aguarda para ter atendimento médico especializado com psiquiatra para seu filho, um jovem de 18 anos que sofre de depressão e chegou a atentar contra a própria vida. O pai pediu para que seu sobrenome e o nome do filho não fossem divulgados, uma vez que, sem conseguir iniciar acompanhamento com o especialista, é a rede de apoio que tem segurando a barra da família – formada por ele e um casal de filhos.

“A situação é muito delicada. Nós moramos no Espírito Santo há cinco anos e somos nós três e as amizades que construímos aqui. Meu filho apresentou um quadro depressivo no início do ano e na unidade de saúde do meu bairro a psicóloga encaminhou para psiquiatria. Desde então tentamos agendar, sem conseguir. Depois disso meu filho, com apenas 18 anos, tentou suicídio e não consigo tratamento para ele. Vivo com a ajuda das pessoas e um alerta constante por medo do que possa acontecer”, desabafou Flávio.

O caso dele pode ser incluído nos 13.119 pessoas que estão na fila de espera para agendamento de atendimento com psiquiatra. O quadro é ainda mais grave, quando se reúnem todas as especialistas e o quantitativo acumulado de pacientes na fila para serem consultados para especialidades chega a 417.445.

Os números estão disponibilizados Painel Transparência para Consultas e Exames da Secretaria de Saúde do Espírito Santo (Sesa), e mostram que a busca de atendimento de neurologia pediátrica é a situação mais complicada: na fila aguardam 23.055 pessoas.

Segundo painel da Secretaria de Estado da Saúde, só em 2025 são 5,5 milhões solicitações de agendamentos, mas a oferta é menor em 182 mil. “Sortudos” são os mais de 4 milhões de pacientes agendados, contudo, podem ter que esperar, em média, 246 dias – pouco mais de oito meses.

Telemedicina 

Na tentativa de acelerar esse atendimento em julho desse ano o Espírito Santo passou a contar com o serviço de Teleconsultas em todas as 78 cidades. O serviço começou em janeiro deste ano, inicialmente, na Região Sul e já contabilizou mais de 25 mil pacientes atendidos; até 18 especialidades médicas são ofertadas conforme a demanda de cada município.

Com o uso da tecnologia, a teleconsulta permite que pacientes recebam atendimento médico especializado sem precisar se deslocar por longas distâncias. Muitas pessoas, que antes enfrentavam horas de viagem até outras cidades para uma simples consulta, agora são atendidas no próprio município, com mais conforto, segurança e dignidade.

Policlínicas de especialidades

Mais de 417 mil capixabas estão na fila para atendimento médico especializado

Embora a teleconsulta possa diminuir as consultas, outro entrave são os exames pedidos a partir dos encontros entre pacientes e médicos especialistas. No Espírito Santo há dois centros de especialidades (CRE Metropolitano e CRE São Mateus), e dois núcleos de especialidades (em Cachoeiro do Itapemirim e em Colatina). Em algumas cidades, como Vitória, há centros municipais de especialidades.

“A telemedicina é sim um grande avanço e ajuda a reduzir a espera pela consulta. A deficiência de especialistas e a carência assistencial demandam esses recursos é possibilita que, na teleconsulta, o especialista oriente o clínico geral na condução do atendimento que demanda especialidades”, avaliou Liliam Gomes, da organização social Instituto Social de Saúde e Ambiental, responsável por implantações de policlínicas de especialidades nos estados do São Paulo e Pará.

“No Pará tinha fila de 2 a 3 anos de espera em especialidades muito demandadas, como cardiologista e essa espera caiu para 30 dias. Uma policlínica pode ter um hall de especialidades identificadas a partir de estudos realizados pela secretaria de saúde do Estado. Em cada uma delas, além do médico, todos os exames envolvidos nesta especialidade, no mesmo lugar. O foco é o diagnóstico. A policlínica de especialidades é unidade estratégica”, explicou Liliam Gomes.

As policlínicas são unidades especializadas de apoio diagnóstico, com serviços de consultas clínicas, realizadas por equipes médicas e não médicas de especialidades diferentes (definidas com base no perfil epidemiológico da população da região), realização de exames gráficos e de imagem com fins diagnósticos e oferta de pequenos procedimentos. A construção de uma série delas no Brasil foi contemplada pelo Novo PAC da Saúde anunciado pelo Ministério da Saúde.

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