Convento São Francisco, um dos mais antigos do Brasil, é símbolo de fé e da história de Vitória

Poucas pessoas sabem que o Convento São Francisco, na Cidade Alta, foi o primeiro mosteiro franciscano construído ao sul da Bahia, a capitania que era o centro do Brasil Colônia, e é o quinto mais antigo de todo o território nacional. Do início das obras, em 1591, aos múltiplos usos nos séculos seguintes, esta edificação está profundamente ligada à formação da capital capixaba e à construção da identidade social, religiosa e cultural de todo o Espírito Santo.

Apenas quatro conventos franciscanos são mais antigos que o de Vitória: o de Olinda (PE), de 1585; o de Salvador (BA), de 1587; o de Santo Antônio de Igarassu (PE), de 1588; e o de Santo Antônio de João Pessoa (então Filipéia de Nossa Senhora das Neves, PB) de 1589. Décadas mais tarde, foram construídos os conventos do Rio de Janeiro (1608); São Paulo (1639); e Santos (1639).

O monumento mais conhecido do Espírito Santo, o Convento da Penha, em Vila Velha, de 1650. No entanto, sua história começa bem antes: em 1562, Frei Pedro Palácios construiu, no local conhecido como Campinho, a primeira capela dedicada a São Francisco de Assis. Já em 1568, foi erguida, no topo do Outeiro, a capela dedicada a Nossa Senhora da Penha, que deu origem direta ao atual santuário.

Esta história foi resgatada por pesquisas, referências bibliográficas e cartográficas preservadas no Arquivo Público Municipal de Vitória. Relembrar essa trajetória traz à tona elementos fundamentais na formação urbana da capital, como a cultura religiosa, as estruturas portuárias coloniais e os sucessivos processos de aterro que redefiniram a geografia da capital capixaba.

Doação de Luísa Grimaldi
Foi Vasco Fernandes Coutinho Filho quem convidou os frades franciscanos a se instalarem na Capitania. No entanto, com o falecimento do donatário, coube à donatária Luísa Grimaldi honrar o desejo do marido e doar aos religiosos um terreno coberto por mata virgem, situado na parte alta da então Villa de Victoria.

A pedra fundamental do Convento foi lançada em novembro de 1591. O monte escolhido era banhado pelo mar e, ali, foi construído o Cais de São Francisco (hoje, Rua Thiers Vellozo). Dali, os frades partiam para atender a população de outras localidades e auxiliar nas atividades da Capela de São Francisco de Assis, em Vila Velha, construída por Frei Pedro Palácios em 1562.

O Cais de São Francisco
A história do Convento São Francisco está diretamente ligada à antiga relação de Vitória com o mar. Desde o século XVI, os frades franciscanos utilizavam um pequeno cais situado ao pé do Morro de São Francisco, voltado para a baía, que facilitava o deslocamento dos religiosos e o abastecimento do convento com alimentos, tecidos, mercadorias.

O cais integrava o sistema de atracadouros coloniais da cidade, ao lado do Cais da Alfândega e do Cais do Imperador. Na ausência de infraestrutura portuária formal, esses cais eram fundamentais para a circulação de mercadorias e pessoas.

A partir do século XIX, com os sucessivos processos de aterramento motivados por questões sanitárias e urbanísticas, a antiga linha d’água desapareceu e as glebas foram incorporadas ao traçado urbano, dando origem a logradouros como a atual Rua Thiers Vellozo. Logradouros como a Rua Cais de São Francisco e a Rua São Francisco, em frente ao convento, funcionam como marcos de memória da antiga relação da cidade com o mar.

Arquitetura e organização
Do antigo conjunto, o elemento arquitetônico mais preservado é o frontispício do convento, reformado nos anos de 1744 e 1784. Em reconhecimento à sua relevância histórica, o imóvel foi tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Estadual em 1984, pelo Conselho Estadual de Cultura.

O conjunto arquitetônico original do Convento São Francisco refletia a simplicidade característica da Ordem Franciscana: das portas de madeira trabalhada às paredes grossas, da fachada sóbria ao interior que inspira contemplação.

Além da igreja, o complexo incluía o monastério com claustro e dependências destinadas à vida religiosa, a Capela da Venerável Ordem Terceira da Penitência, capelas auxiliares, jardim, horta, pomar e um cemitério.

A igreja possuía três altares ricamente entalhados, executados entre 1617 e 1620: o altar-mor, dedicado a São Francisco de Assis e ladeado por Santo Antônio e São Benedito, além de dois altares laterais com as imagens de Nossa Senhora da Conceição e São Boaventura.

Se, por um lado, somente homens brancos, ricos e socialmente influentes integravam a Ordem Terceira de São Francisco, por outro, a Capela da Ordem Terceira abrigou a Irmandade de São Benedito, inicialmente formada por negros escravizados ligados ao próprio convento. Essa irmandade teve papel fundamental na inserção da população negra na cultura cristã e na vida religiosa da cidade, promovendo festas, procissões e atividades que marcaram a história social de Vitória.

Atuação religiosa, social e missionária
A atuação franciscana era pautada pela simplicidade evangélica, pela catequese e pelo compromisso com os mais pobres. Os religiosos desenvolviam as chamadas missões volantes, deslocando-se até comunidades indígenas e populares em seus próprios territórios, em vez de impor aldeamentos fixos.

Essa prática estreitou os laços entre missionários e a população, tornando o convento um espaço de acolhimento e referência espiritual. Assim, desde a fundação, o Convento São Francisco foi um importante centro de atividades religiosas, culturais e educacionais.

A torre do convento foi construída em 1774 e recebeu os sinos que permanecem até os dias atuais. No ano seguinte, o espaço acolheu visitantes apostólicos, como Frei José do Amor Divino e Frei Salvador, que utilizaram o convento como base para missões em diversas localidades do Espírito Santo.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas