Para muitos estudantes chegou o momento mais aguardado do ano: as férias escolares. Quando se fala nesse período, o foco costuma estar nas crianças e nas programações voltadas para elas.
Mas uma pergunta importante muitas vezes fica de lado: e os professores, como aproveitam este tempo? Será que conseguem realmente descansar ou acabam usando as férias para trabalhar e se preparar para o próximo semestre?
Alguns tiram o tempo para descansar, passear, ficar com a família ou sair com os amigos como é o caso da pedagoga Taynam Loureiro, que compartilha como tem aproveitado o período de recesso escolar e a relação com as férias, uma mudança ao longo do tempo.
Segundo ela, o descanso nem sempre foi prioridade. “Há alguns anos eu não aproveitava esse tempo de descanso como deveria. Estava sempre adiantando atividades, fazendo planejamentos ou criando recursos pedagógicos. Hoje percebo que isso não é saudável, por isso tento, ao máximo, priorizar meu descanso com outras atividades que não estejam diretamente ligadas ao meu trabalho”.

Apesar disso, Taynan ainda utiliza parte do tempo livre para investir na formação. “Embora esteja indiretamente ligado ao meu trabalho, aproveito esse momento para realizar diversos cursos de meu interesse, tanto na minha área quanto em áreas afins. Atualmente, estou fazendo um curso na área de linguagens, educação e intervenção pedagógica na dislexia”.
Taynan, que atua como professora particular, ressaltou a importância do recesso para a saúde mental e preparo para o retorno às atividades letivas. “Hoje valorizo demais esse tempo de descanso. Preciso estar bem psicologicamente e fisicamente para dar o suporte necessário aos meus alunos”.
Mesmo considerando que o tempo não é plenamente suficiente para recuperar as energias, ela reconhece a importância da pausa. “Não é o suficiente, mas com certeza é um respiro até o final do ano”, diz, com bom humor.
Nos últimos anos, Taynan também passou a evitar compromissos voluntários durante o recesso. “Hoje não mais. De uns anos pra cá eu sinceramente tenho aproveitado esse tempo de descanso para descansar e para concluir projetos, cursos que no dia a dia fica mais difícil devido à rotina”.
Para alguns professores, férias também são tempo de trabalho
Embora o recesso escolar traga alívio para alunos e famílias, para muitos educadores o período está longe de significar apenas descanso. A pedagoga Lorrayne Rangel é um exemplo disso. Durante os dias fora da sala de aula, ela continua envolvida com tarefas ligadas à profissão e aproveita para se organizar para o segundo semestre.
“Mesmo estando em casa por uma semana, procuro me organizar com os projetos e propostas que serão executados no retorno do recesso”, afirma a educadora, que vê no planejamento prévio uma forma de garantir um semestre mais estruturado.
Além disso, Lorrayne utiliza o tempo livre para gerar renda extra com atividades voltadas ao público infantil. “Uso o período de recesso para ganhar uma renda extra com colônia de férias”, conta. Segundo ela, a experiência também contribui para a prática pedagógica, já que se mantém próxima das crianças mesmo fora do ambiente escolar.

Apesar da rotina cheia, a pedagoga destaca a importância do recesso para a saúde mental de todos os envolvidos na educação.
“O período de recesso escolar é crucial para a saúde mental, tanto das crianças quanto dos professores, pois oferece uma pausa necessária para a recuperação do estresse e da fadiga acumulados durante o período letivo. Essa pausa permite a recarga de energias, a melhora do sono, o fortalecimento de vínculos sociais e a retomada da motivação para o próximo semestre”, diz.
Quando questionada sobre o tempo disponível para descanso, Lorrayne admite que ele é curto. “No meu caso, aproveito esse período para me organizar com planejamentos futuros, tendo pouco tempo para descanso”,.
Mesmo fora do expediente formal, ela mantém o vínculo com a infância por meio de atividades criativas e lúdicas. “Sou professora, mas, nas minhas horas vagas, me dedico a oficinas sensoriais com bebês e colônias de férias com grupos de crianças organizadas por pais que me contratam para trabalhar”,.
A experiência de Lorrayne evidencia que, para muitos profissionais da educação, o recesso é mais um momento de transição. Um intervalo produtivo, que alia cuidado, planejamento e, sempre que possível, um pouco de descanso.
Sobrecarga ainda é um desafio
O recesso escolar de julho representa um momento importante para os professores, marcado por uma pausa necessária. Garantido pelo artigo 322 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o período é visto como uma oportunidade fundamental para descanso e recuperação física e mental.
De acordo com o Sindicato dos Professores (Sinpro), este intervalo é comparado a um alívio em meio à longa jornada do ano letivo. A orientação da entidade é para que os docentes aproveitem ao máximo o tempo de descanso, buscando se desconectar das atividades escolares, e focar em momentos de lazer e autocuidado.
Para isso, os professores contam com diversos benefícios que facilitam o acesso a atividades de lazer. Convênios com locais como o Parque do China e hotéis do SESC, presentes em todo o país, oferecem descontos vantajosos. Além disso, uma lei estadual garante 50% de desconto em entradas para cinemas, teatros, shows e outras atividades culturais.
Mesmo com essas possibilidades, a sobrecarga de trabalho fora da sala de aula segue sendo um dos principais fatores de adoecimento entre os educadores. O acúmulo de tarefas como planejamento, correção de atividades e demandas administrativas tem comprometido o tempo livre, muitas vezes inviabilizando o descanso pleno. Além disso, a conectividade constante por meio de grupos de mensagens e plataformas digitais contribui para um ambiente de trabalho que ultrapassa os limites do horário escolar.
Segundo o Sinpro, os números têm demonstrado que esse é um dos principais motivos do adoecimento mental e físico dos professores, que geralmente não têm tempo para a família, para o lazer e para a atividade física. Essa “instantaneidade” da internet, ao mesmo tempo que agiliza, também escraviza. Muitas vezes o professor está em sala de aula e recebendo mensagens da própria escala. Tem escolas que chegam a ter até seis grupos de WhatsApp.
Outro desafio enfrentado pelos docentes é a falta de alinhamento nos calendários escolares entre diferentes redes de ensino. Embora já exista um acordo entre o Estado e a rede privada para a unificação do calendário, os municípios ainda têm autonomia para defini-lo, o que dificulta a organização da rotina dos profissionais que atuam em mais de uma rede ou têm filhos em escolas distintas.
Psicóloga destaca importância das férias
Para a psicóloga Giselia Freitas, o período de férias escolares é fundamental para preservar a saúde mental e o bem-estar dos alunos e professores. “Estamos em um mundo onde as pessoas estão cada vez mais doentes mentalmente. Aprender a parar e descansar é de extrema importância”, alerta a profissional.
Segundo ela, após meses de atividades intensas, provas, planejamentos e cobranças, tanto o corpo quanto a mente pedem uma pausa. “É um tempo necessário para evitar o esgotamento, reduzir o estresse e recuperar a motivação para o próximo ciclo letivo”, completa.

De acordo com Giselia, o recesso escolar é benéfico especialmente para crianças e adolescentes, que encontram nesse tempo livre uma oportunidade de amadurecimento emocional e social.
“O descanso permite o convívio familiar, o tempo para brincar, para não fazer nada ou explorar outras atividades fora do ambiente escolar. Tudo isso contribui diretamente para a criatividade e o desenvolvimento”, explica.
Para os professores, a pausa também é essencial. A psicóloga lembra que muitos profissionais da educação enfrentam uma rotina desgastante, marcada por múltiplas turmas, excesso de demandas administrativas e pressões por resultados.
“O recesso é a chance de se reconectar com a própria vida pessoal, de cuidar da saúde mental, que é uma pauta cada vez mais urgente quando falamos de educação”, reforça.
Giselia defende que o tempo de descanso seja valorizado não como um privilégio, mas como uma necessidade humana e pedagógica. “A aprendizagem de qualidade só acontece com mentes descansadas e emocionalmente equilibradas. As férias impactam diretamente no rendimento escolar, na empatia em sala de aula e na construção de ambientes mais saudáveis para ensinar e aprender”, conclui.









