Nesta terça-feira (22) é celebrado o Dia Mundial do Folclore, data que valoriza todas as manifestações que caracterizam a cultura popular de um lugar, como as lendas e mitos. O folclore é a raiz da cultura do povo.
No Espírito Santo, cada município tem sua figura. Em Cariacica, por exemplo, tem o João Bananeira, que hoje é uma figura inserida no carnaval da cidade; já em Águia Branca tem a lenda da serpente do cemitério.
De acordo com o historiador Estilaque Ferreira dos Santos, o estado tem grandes folcloristas, como padre Siqueira, Afonso Cláudio, Guilherme Santos Neves e Mestre Hermógenes. “Todos eles fizeram registros preciosos dessas tradições populares, catalogando cantigas, festas, comidas, monumentos, etc. Nossos folcloristas, historiadores dessas tradições, fizeram o registro dessa rica herança. Mas são os próprios descendentes desses povos, hoje misturados, que continuam defendendo esse legado. Os catadores de siri, as paneleiras, os congueiros, os devotos da Penha. Daí vem a nossa identidade. Que tem tudo a ver com a terra, o mar, os rios, as lagoas, os mariscos”.
Para o historiador, o folclore capixaba está ligado a resistência. “Temos Chico Prego, ele não é apenas uma lenda, ele foi um dos líderes da revolta de Queimados, em Serra. Essa revolta é um marco da identidade negra do Espírito Santo. Hoje, a antiga igreja do Queimado está sendo recuperada, e com essa preservação, a história desse líder será perpetuada”.
Mestre Álvaro e o Moxuara é uma lenda muito bonita, mas que, para Estilaque, serviu de atrativo para que os europeus viessem para a estado. “O mestre Álvaro foi o acidente geográfico que atraiu os europeus para o Espírito Santo. Avistado de muito longe, deu origem ao município de Serra. Serra quer dizer: Serra do Mestre Álvaro. O Moxuara é a maior referência geográfica de Cariacica. Os primeiros povoadores indígenas da região ficavam ao pé dele. O Penedo, apesar de ser de Vila Velha, é uma referência para Vitória”.
O folclore tem a ver com nossas tradições culturais. Que vem dos primeiros povoadores. Os povos originários adotaram hábitos que marcam até hoje o nosso estado. Por exemplo, os povos nativos eram catadores de mariscos, viviam a beira dos rios e do mar. Daí vem a nossa moqueca, a torta, o Congo, as cantigas, os casos, as histórias.
Conheça cinco lendas que marcaram pontos turísticos capixabas
Pensando neste dia, o ESHoje selecionou cinco lendas capixabas quer marcaram pontos turísticos do Espírito Santo.
Todas as lendas foram retiradas do site “Lendas do Espírito Santo”.
A lenda da serpente do cemitério de Águia Branca
Nomeado como a lenda da serpente no cemitério de Águia Branca, o conto traz a história de uma filha que virou serpente depois de morrer devido a uma maldição jogada pela mãe ao apanhar da menina.
Reza a lenda que, enquanto a mãe apanhava da filha, lhe amaldiçoava, dizendo que no dia que a menina morresse viraria uma serpente horrorosa. Quando a jovem morreu, foi sepultada no cemitério de Águia Branca e, com o passar dos anos, os moradores relatavam que ouvia-se a noite barulhos de correntes e sons de choro melancólico, gemidos e uivos.
A serpente se formou no túmulo que guardava os restos mortais da jovem, que vivia com rachaduras. Embora funcionários do cemitério as consertassem, as rachaduras voltavam, se tornando um enigma para todos.
Diz a lenda que as correntes à noite viravam a serpente monstruosa com características de dragão, por isso ninguém se atreve a ir a noite no cemitério. Na região é senso comum entre a criançada de quem muito desrespeita os pais pode virar serpente também.
Isso foi o suficiente para amedrontar os moradores da cidade por anos. Ninguém morava perto e sequer passava por lá. Hoje existe um bairro residencial em volta do cemitério.
O frade e a freira
O amor proibido entre um frade e uma freira deu iniciou a uma das lendas mais bonitas do Espírito Santo. Após se apaixonarem, o casal precisou abdicar do amor em prol de uma vida de servidão dedica à Deus.
Como forma de permanecerem unidos os dois, a lenda diz que eles foram transformados por Deus em montanha, sendo que o tamanho foi correspondente ao tamanho do amor. De tão grande que era o amor, ficaram se admirando um ao outro eternamente.
As montanhas do casal podem ser vistas a partir da rodovia BR-101, no trecho de Vitória à divisa com o estado do Rio de Janeiro. Tratam-se de formações rochosas de granito localizadas em Itapemirim, cujos municípios limítrofes são: Cachoeiro de Itapemirim, Rio Novo do Sul e Vargem Alta, no sul do Estado.
Atualmente, o Parque Municipal Frade e a Freira tornou-se Monumento Natural Frade e Freira.
A lenda de Jaguará
Os Jesuítas catequizavam os índios e reprimiam os que tentassem fugir com a lenda do cavalo que aparecia do lodo para pegar possíveis revoltos. A Jaguará é como uma mula preta com chifres com sete palmos de altura, que não é cavalo, não é boi, não é gente, nem diabo pode com ela.
Semelhante ao minotauro da mitologia grega, a Jaguará tinha corpo de gente e cabeça de animal. A lenda é tão imponente que deu origem ao enredo do seguinte teatro interativo: enquanto os jaguarás assustam, as mulinhas “protegem” os bois pintadinhos da criançada endiabrada, que puxa os rabos.
“O troço dá um medo medonho, com seus olhos de piscar. Dizem que é coisa inventada, da prodigiosa mente popular. Mas é fábula fabulada, isso sim, tramada por festeiros. Quem se aproxima? Pois que aproxime. Corre, corre, brincante, o Jaguará é andante!”.
Jaguará é crânio de cavalo enfiado em ponta de bambu! Então, os jaguarás da famosa festa de Apiacá, acompanhados de alegorias de mulinhas e bois pintadinhos, misturam-se aos brincantes como símbolos do cotidiano e da história remota do lugar, diz o enredo.
A lenda do lagarto azul
O escritor capixaba Jonas Reis conta a lenda do lagarto azul, monumento granítico em forma de lagarto que faz parte da Pedra Azul, um dos principais monumentos naturais do Espírito Santo.
Nesta lenda, o grande lagarto da Pedra Azul foi, um dia, um lagarto de verdade que foi petrificado por dois garotos aventureiros para proteger o povo da montanha. Mas os garotos aventureiros, o lendário povo da montanha e mesmo as crianças sabem que o lagarto pode voltar à vida a qualquer momento.
E todos esperam por isso até com alguma ansiedade, porque o lagarto azul é parte do povo da montanha, um grande irmão ancestral.
A lenda poço de Anchieta
Na lenda narrada por Maria Stella de Novaes, à semelhança de outros lugares, visitados pelo santo jesuíta, existe, igualmente, no Espírito Santo, o admirado Poço de Anchieta, envolto na poesia de uma lenda de a população de Iriritiba, ou Reritiba, e suas vizinhanças sofriam com a sede de uma forte e prolongada estiagem. Em vão, olhavam para o céu, a fim de verificar a presença de alguma nuvem ou prenúncio de chuva.
“Desapareciam gradualmente as fontes e as bicas, aumentando a angústia geral, perante a sede, que atormentava o povo e os animais! Até o rio negava-lhes refrigério, porque a fraqueza da corrente permitia, já, o acesso das marés, à grande extensão, ao passo que o Sol escaldava as restingas, e as matas, ressequidas, não mais podiam favorecer o seu curso.
Voltaram-se, então, os habitantes para o seu querido pai espiritual, — o Padre José de Anchieta. Procuraram-no. Encontraram-no, rodeado de sedentos.
— “Água!… Dai-nos água, pai!”
— “Temos sede!”
Comovido, diante daquele sofrimento, o Apóstolo do Brasil acena à multidão, para que elevasse o pensamento, confiante, à Onipotência Divina. Ali mesmo, tão perto da praia, que percorria sempre, seguido pelos volteios graciosos das aves, Anchieta, de pé, concentra-se, no fervor da prece, fere a terra, com o seu cajado, e faz brotar a linfa pura, que enche logo o poço, aberto milagrosamente”.
O poço lendário está presente até os dias atuais na Praia de Benevente, hoje Cidade de Anchieta, muito querido sempre dos habitantes do lugar.
Texto de Jady Oliveira e Andressa Motta
Edição por Thais Rossi e Rafaela Maia









